sexta-feira, 29 de julho de 2016

O homem que queria ser a mulher de Deus (Freud)




O HOMEM QUE QUERIA SER A MULHER DE DEUS


SIGMUND FREUD -
(1911)


NOTA DO EDITOR INGLÊS


Título original da obra: PSYCHOANALYTISCHE BEMERKUNGEN ÜBER EINEN AUTOBIOGRAPHISCH BESCHRIEBENEN FALL VONPARANOIA (DEMENTIA PARANOIDES)

As Memórias de Schreber foram publicadas em 1903; mas, embora houvessem sido amplamente debatidas em círculos psiquiátricos, só parecem ter atraído a atenção de Freud no verão de 1910. Sabe-se que falou sobre elas e sobre todo o tema da paranóia durante sua viagem à Sicília, com Ferenczi, em setembro desse ano. No retorno a Viena, começou a escrever o artigo, cujo término foi anunciado a Abraham e Ferenczi em cartas datadas de 16 de dezembro. Não parece ter sido publicado até o verão de 1911. O ‘Pós-escrito’ foi lido perante o Terceiro Congresso Psicanalítico Internacional (realizado em Weimar), em 22 de setembro de 1911, e publicado no início do ano seguinte.

Freud atacara o problema da paranóia numa fase muito prematura de suas pesquisas em psicopatologia. Em 24 de janeiro de 1895, alguns meses antes da publicação dos Estudos sobre a Histeria, enviou a Fliess longo memorando sobre o assunto (Freud, 1950a, Rascunho H). Este incluía uma breve história clínica e um exame teórico que visava a estabelecer dois pontos principais: que a paranóia é uma neurose de defesa e que seu mecanismo principal é a projeção. Quase um ano depois (em 1º de janeiro de 1896), enviou a Fliess outra nota, muito mais breve, sobre paranóia, parte de um relato geral sobre as ‘neuroses de defesa’ (ibid., Rascunho K), que pouco depois ampliou em seu segundo trabalho publicado com aquele título (1896b). Nessa publicação, a Seção II incluía outra história clínica, mais extensa, intitulada ‘Análise de um Caso de Paranóia Crônica’, caso para o qual Freud (em nota de rodapé acrescentada quase 20 anos depois) preferiu o diagnóstico corrigido de ‘dementia paranoides’. Com referência à teoria, esse trabalho de 1896 pouco acrescentava às suas sugestões anteriores; mas, numa carta a Fliess não muito posterior (9 de dezembro de 1899, Freud, 1950a, Carta 125), há um parágrafo um tanto crítico, que prenuncia considerações posteriores de Freud, inclusive a sugestão de que a paranóia acarreta o retorno a um auto-erotismo primitivo. Este parágrafo é transcrito na íntegra na Nota do Editor Inglês ao artigo sobre ‘A Disposição à Neurose Obsessiva’, com relação ao problema da ‘escolha da neurose’.

Entre a data desta última passagem e a publicação da história clínica de Schreber, mais de dez anos se passaram quase sem haver menção à paranóia nos escritos publicados de Freud. Informam-nos Ernest Jones (1955, 281), contudo, que em 21 de novembro de 1906 ele apresentou um caso de paranóia feminina perante a Sociedade Psicanalítica de Viena. Nessa data, aparentemente ainda não havia chegado ao que deveria ser sua generalização principal sobre o assunto, a saber, a vinculação existente entre paranóia e homossexualismo passivo reprimido. Não obstante, pouco mais de um ano mais tarde, apresentava esta hipótese em cartas a Jung (27 de janeiro de 1908) e Ferenczi (11 de fevereiro de 1908), dela pedindo e recebendo confirmação. Mais de três anos se passaram antes que as memórias de Schreber lhe oferecessem a oportunidade de publicar sua teoria pela primeira vez e de apoiá-la em um relato detalhado de sua análise dos processos inconscientes em ação na paranóia.

Há várias referências a essa enfermidade nos escritos posteriores de Freud. As mais importantes foram seu artigo sobre ‘Um Caso de Paranóia que Contraria a Teoria Psicanalítica da Doença’ (1915f), e a Seção B de ‘Alguns Mecanismos Neuróticos no Ciúme, na Paranóia e no Homossexualismo’ (1922b). Além disso, ‘Uma Neurose Demonológica do Século XVII’ (1923d) inclui um exame do caso Schreber, embora a neurose, que é o tema do trabalho, em parte alguma seja descrita por Freud como paranóia. Em nenhum desses escritos posteriores há qualquer modificação essencial dos pontos de vista sobre paranóia expressos no presente trabalho.

A importância da análise de Schreber, contudo, de maneira alguma se restringe à luz que lança sobre o problema da paranóia. A terceira parte, especialmente, foi, sob muitos aspectos, assim como o breve artigo simultaneamente publicado sobre os dois princípios do funcionamento mental (1911b), precursora dos artigos metapsicológicos a que Freud se dedicou, três ou quatro anos mais tarde. Expuseram-se vários temas que posteriormente deveriam ser examinados mais detalhadamente. Assim, as observações sobre narcisismo (Ver a partir de [1].) antecederam o artigo dedicado a este tema (1914c), a descrição do decurso de alguns anos (1915d), e o exame dos instintos (ver em [2]) preparava terreno para um estudo mais elaborado em ‘os Instintos e suas Vicissitudes’ (1915c). Já o parágrafo sobre projeção (ver em [3]), apesar de promissor, não encontraria nenhuma seqüência. Cada um dos dois tópicos examinados na última parte do trabalho, contudo — as diversas causas do desencadeamento da neurose (inclusive o conceito de ‘frustração’) e o papel desempenhado por ‘pontos de fixação’ sucessivos — deveria ser tratado antes que decorresse muito tempo, em artigos separados (1912c e 1913f). Finalmente, no pós-escrito, encontramos a primeira rápida excursão de Freud pelo campo da mitologia e a primeira menção aos totens, que estavam começando a ocupar seus pensamentos e deveriam fornecer o título para uma de suas obras principais (1912-13).

Como Freud nos diz, sua história clínica faz uso apenas de um único fato (a idade de Schreber à época em que caiu enfermo) que não se achava contido nas Memórias. Possuímos hoje, graças a um trabalho escrito pelo Dr. Franz Baumeyer (1956), certa quantidade de informações adicionais. O Dr. Baumeyer esteve por alguns anos (1946-9) encarregado de um hospital situado perto de Dresden, onde encontrou alguns dos registros clínicos originais das sucessivas doenças de Schreber. Resumiu estes registros e citou muitos deles na íntegra. Além disso, coligiu grande número de fatos relacionados à história familiar e aos antecedentes de Schreber. Toda vez que esse material for importante para o trabalho de Freud, será mencionado nas notas de rodapé. Neste momento, é necessário apenas relatar a seqüência à história narrada nas Memórias. Após sua alta, em fins de 1902, Schreber parece terlevado uma existência exteriormente normal por alguns anos. Então, em novembro de 1907, a esposa teve uma crise de paralisia (embora vivesse até 1912), o que parece ter precipitado novo desencadeamento de sua enfermidade. Foi novamente internado — agora num asilo situado no distrito de Dösen em Leipzig — duas semanas mais tarde. Ali permaneceu, em estado extremamente perturbado e muito intratável, até sua morte, após deterioração física gradativa, na primavera de 1911 — pouco tempo apenas antes da publicação do trabalho de Freud. O seguinte quadro cronológico, baseado em dados derivados, parte das Memórias e parte do material de Baumeyer, pode tornar os pormenores do estudo de Freud mais fáceis de desemaranhar.

1842   25 de julho. Daniel Paul Schreber nasce em Leipzig.
1861   Novembro. Morre-lhe o pai, com 53 anos de idade.
1877   O irmão mais velho (3 anos mais) morre com 38 anos.
1878   Casamento.
Primeira Doença
1884   Outono. Apresenta-se como candidato ao Reichstag.
1884   Outubro. Passa algumas semanas no Asilo de Sonnenstein.
8 de dezembro. Clínica Psiquiátrica de Leipzig.
1885   1º de junho. Alta.
1886   1º de janeiro. Toma posse no Landgericht de Leipzig.
Segunda Doença
1893   Junho. É informado da nomeação próxima para o Tribunal de Apelação.
1º de outubro. Toma posse como juiz presidente.
21 de novembro. É internado novamente na Clínica de Leipzig.
1894
14 de junho. É transferido para o Asilo de Lindenhof.

29 de junho. É transferido para o Asilo de Sonnenstein.
1900-1902   Escreve as Memórias e impetra ação judicial para ter alta.
1902   14 de julho. Decisão judicial de alta.
1903   Publicação das Memórias.
Terceira Doença
1907   Maio. Morre-lhe a mãe, com 92 anos de idade.
14 de novembro. A esposa tem uma crise de paralisia.
Cai enfermo imediatamente após.
27 de novembro. É admitido no Asilo, em Leipzig-Dösen.
1911   14 de abril. Morte.
1912   Maio. Morre a esposa, com 54 anos de idade.

Uma nota sobre os três hospitais psiquiátricos a que se faz menção, de várias maneiras, no texto, também pode ser útil.
(1) Clínica Psiquiátrica (departamento de pacientes internados) da Universidade de Leipzig. Diretor: Professor Flechsig.
(2) Schloss Sonnenstein. Asilo Público Saxônico em Pirna sobre o Elba, dez milhas acima de Dresden. Diretor: Dr. G. Weber.
(3) Asilo Particular Lindenhof. Perto de Coswig, onze milhas a noroeste de Dresden. Diretor: Dr. Pierson.

Uma tradução inglesa das Denkwürdigkeiten, de autoria da Dra. Ida Macalpine e do Dr. Richard A. Hunter, foi publicada em 1955 (Londres, William Dawson). Por diversas razões, algumas das quais serão evidentes a quem quer que compare sua versão com a presente tradução inglesa, não foi possível fazer uso dela para as muitas citações do livro de Schreber que ocorrem na história clínica. Há dificuldades específicas em traduzir as produções dos esquizofrênicos, nas quais as palavras, como o próprio Freud apontou em seu artigo sobre ‘O Inconsciente’, desempenham papel tão predominante. Aqui o tradutor se defronta com os mesmos problemas que tão amiúde encontra em sonhos, lapsos de língua e chistes. Em todos esses casos, o método adotado na Standard Edition é o método prosaico de, onde necessário, fornecer as palavras originais alemãs em notas de rodapé e procurar, mediante comentários explicativos, oferecer ao leitor [inglês] oportunidade para formar opinião própria sobre o material. Ao mesmo tempo, seria enganoso desprezar inteiramente as formas exteriores e, através de uma tradução puramente literal, apresentar um retrato inculto do estilo de Schreber. Uma das características notáveis do original é o contraste que perpetuamente oferece entre as frases complicadas e elaboradas do alemão oficial acadêmico do século XIX e as extravagâncias outré dos eventos psicóticos que descrevem. Informações adicionais interessantes sobre o pai de Schreber podem ser encontradas em Niederland, W. G. (1959a) e (1959b).

Por todo o trabalho, os números entre colchetes sem serem precedidos por ‘p.’ constituem referências às páginas da edição alemã original das memórias de Schreber — Denkwürdikeiten eines Nervendranken, Leipzig, Oswald Mutze. Números entre colchetes precedidos por ‘p.’ são, como sempre acontece na Standard Edition, referências a páginas do presente volume.
* * *

INTRODUÇÃO

A investigação analítica da paranóia apresenta dificuldades para médicos que, como eu, não estão ligados a instituições públicas. Não podemos aceitar pacientes que sofram desta enfermidade, ou, de qualquer modo, mantê-los por longo tempo, visto não podermos oferecer tratamento a menos que haja alguma perspectiva de sucesso terapêutico. Somente em circunstâncias excepcionais, portanto, é que consigo obter algo mais que uma visão superficial da estrutura da paranóia — quando, por exemplo, o diagnóstico (que nem sempre é questão simples) é incerto o bastante para justificar uma tentativa de influenciar o paciente [método da sugestão], ou quando, apesar de um diagnóstico seguro, submeto-me aos rogos de parentes do paciente e encarrego-me de tratá-lo por algum tempo. Independente disto, naturalmente, vejo muitos casos de paranóia e de demência precoce e aprendo sobre eles tanto quanto outros psiquiatras o fazem a respeito de seus casos; mas em geral isso não é suficiente para levar a quaisquer conclusões analíticas.

A investigação psicanalítica da paranóia seria completamente impossível se os próprios pacientes não possuíssem a peculiaridade de revelar (de forma distorcida, é verdade) exatamente aquelas coisas que outros neuróticos mantêm escondidas como um segredo. Visto que os paranóicos não podem ser compelidos a superar suas resistências internas e desde que, de qualquer modo, só dizem o que resolvem dizer, decorre disso ser a paranóia um distúrbio em que um relatório escrito ou uma história clínica impressa podem tomar o lugar de um conhecimento pessoal do paciente. Por esta razão, penso ser legítimo basear interpretações analíticas na história clínica de um paciente que sofria de paranóia (ou, precisamente, de dementia paranoides) e a quem nunca vi, mas que escreveu sua própria história clínica e publicou-a.

Refiro-me ao doutor em Direito Daniel Paul Schreber, anteriormente Senatspräsident [juiz] em Dresden, cujo livro Denkwürdigkeiten eines Nervenkranken [Memórias de um Doente dos Nervos], foi publicado em 1903, e, se estou corretamente informado, despertou considerável interesse entre os psiquiatras.

É possível que o Dr. Schreber viva ainda hoje e que se tenha distanciado de tal forma do sistema delirante que apresentou em 1903 que possa sentir-se magoado por estas notas a respeito do seu livro. Contudo, na medida em que ele ainda se identifique com sua personalidade anterior, posso apoiar-me nos argumentos com que ele próprio — ‘homem de dotes mentais superiores e contemplado com agudeza fora do comum, tanto de intelecto quanto de observação’ — contraditou os esforços levados a efeito visando a coibi-lo de publicar suas memórias: “Não tive problemas’, escreve ele, “em fechar os olhos às dificuldades que pareciam jazer no caminho da publicação, e, em particular, à preocupação de render devida consideração às suscetibilidades de algumas pessoas ainda vivas. Por outro lado, sou de opinião que poderia ser vantajoso tanto para a ciência quanto para o reconhecimento de verdades religiosas se, durante meu tempo de vida, autoridades qualificadas pudessem encarregar-se de examinar meu corpo e realizar pesquisas sobre minhas experiências pessoais. Todos os sentimentos de caráter pessoal devem submeter-se a esta ponderação". Declara ele, em outra passagem, que decidira se ater à sua intenção de publicar o livro, mesmo que, em conseqüência, seu médico, o Geheimrat Dr. Flechsig, de Leipzig, movesse uma ação contra ele. Atribui ao Dr. Flechsig, porém, as mesmas considerações que lhe atribuo agora. ‘Confio’, diz ele, ‘que mesmo no caso do Geheimrat Prof. Dr. Flechsig, quaisquer suscetibilidades pessoais serão sobrepujadas por um interesse científico no contexto geral de minhas memórias.’ (446.)

Embora todas as passagens das Denkwürkdigkeiten nas quais minhas interpretações se baseiam sejam citadas literalmente nas páginas seguintes, solicitaria a meus leitores tornarem-se familiarizados com o livro, lendo-o pelo menos uma vez, de antemão.

I - HISTÓRIA CLÍNICA

’Duas vezes sofri de distúrbios nervosos’, escreve o Dr. Schreber, ‘e ambas resultaram de excessiva tensão mental. Isso se deveu, na primeira ocasião, à minha apresentação como candidato à eleição para o Reichstag, enquanto era Landgerichtsdirektor em Cheminitz, e, na segunda, ao fardo muito pesado de trabalho que me caiu sobre os ombros quando assumi meus novos deveres como Senatspräsident no Oberlandesgericht em Dresden.’(34.)

A primeira doença do Dr. Schreber começou no outono de 1884; em fins de 1885 achava-se completamente restabelecido. Durante este período, passou seis meses na clínica de Flechsig, que, em relatório formal redigido posteriormente, descreveu o distúrbio como sendo uma crise de grave hipocondria [379]. O Dr. Schreber assegura-nos que a moléstia seguiu seu curso ‘sem a ocorrência de quaisquer incidentes que tocassem as raias do sobrenatural.’ (35.)

Nem a própria descrição do paciente, nem os relatórios médicos impressos no final de seu livro dizem-nos o suficiente sobre sua história anterior ou seus pormenores pessoais. Nem mesmo tenho condições de fornecer a idade do paciente à época de sua enfermidade, embora a elevada posição judiciária que havia atingido antes da segunda doença estabeleça uma espécie de limite inferior.

Sabemos que o Dr. Schreber já estava casado há muito tempo, antes da época de sua ‘hipocondria’. ‘A gratidão de minha esposa’, escreve ele, ‘foi talvez ainda mais sincera, pois reverenciava o Professor Flechsig como o homem que lhe havia restituído o marido; daí ter ela, durante anos, mantido o retrato dele sobre a escrivaninha.’ E, no mesmo lugar: ‘Após me restabelecer da primeira doença, passei oito anos com minha esposa — anos, em geral, de grande felicidade, ricos de honrarias exteriores e nublados apenas, de vez em quando, pela contínua frustração da esperança de sermos abençoados com filhos.’

Em junho em 1893, ele foi informado de sua provável indicação para Senatspräsident, e assumiu o cargo a 1º de outubro do mesmo ano. Entre estas duas datas tivera alguns sonhos, embora só mais tarde viesse a lhes atribuir qualquer importância. Sonhou duas ou três vezes que o antigo distúrbio nervoso retornara e isto o tornou tão infeliz no sonho, quanto a descoberta de ser apenas um sonho fê-lo feliz ao despertar. Além disso, certa vez, nas primeiras horas de manhã, enquanto se achava entre o sono e a vigília, ocorreu-lhe a idéia de que, ‘afinal de contas, deve ser realmente muito bom ser mulher e submeter-se ao ato da cópula’. (36.) Tratava-se de idéia que teria, segundo ele, rejeitado com a maior indignação, se estivesse plenamente consciente.

A segunda enfermidade manifestou-se em fins de outubro de 1893, com um torturante acesso de insônia, forçando-o a retornar à clínica Flechsig, onde, porém, sua condição piorou rapidamente. O curso ulterior da moléstia é descrito em Relatório redigido subseqüentemente [em 1899] pelo diretor do Asilo Sonnenstein:

‘No início de seu internamento ali, expressava mais idéias hipocondríacas, queixava-se de ter um amolecimento do cérebro, de que morreria cedo etc. Mas idéias de perseguição já surgiam no quadro clínico, baseadas em ilusões sensórias que, contudo, só pareciam aparecer esporadicamente, no início, enquanto, ao mesmo tempo, um alto grau de hiperestesia era observável — grande sensibilidade à luz e ao barulho. Mais tarde, as ilusões visuais e auditivas tornaram-se muito mais freqüentes e, junto com distúrbios cenestésicos, dominavam a totalidade de seu sentimento e pensamento. Acreditava estar morto e em decomposição, que sofria de peste; asseverava que seu corpo estava sendo manejado da maneira mais revoltante, e, como ele próprio declara até hoje, passou pelos piores horrores que alguém possa imaginar, e tudo em nome de um intuito sagrado. O paciente estava tão preocupado com estas experiências patológicas, que era inacessível a qualquer outra impressão e sentava-se perfeitamente rígido e imóvel durante horas (estupor alucinatório). Por outro lado, elas o torturavam a tal ponto, que ele ansiava pela morte. Fez repetidas tentativas de afogar-se durante o banho e pediu que lhe fosse dado o “cianureto que lhe estava destinado”. Suas idéias delirantes assumiram gradativamente caráter místico e religioso; achava-se em comunicação direta com Deus, era joguete de demônios, via “aparições miraculosas”, ouvia “música sagrada”, e, no final, chegou mesmo a acreditar que estava vivendo em outro mundo.’ (380.)

Pode-se acrescentar que havia certas pessoas por quem pensava estar sendo perseguido e prejudicado, e a quem dirigia vitupérios. A mais proeminente delas era seu médico anterior, Flechsig, a quem chamava de ‘assassino da alma’; e costumava gritar repetidas vezes: ‘Pequeno Flechsig!’, dando nítida ênfase à primeira palavra (383.). Foi removido para Leipzig e, após breve intervalo passado noutra instituição, foi trazido em junho de 1894 para o Asilo Sonnenstein, perto de Pirna, onde permaneceu até que o distúrbio assumiu o aspecto final. No decorrer dos anos seguintes, o quadro clínico alterou-se de maneira que pode ser mais bem descrita pelas palavras do Dr. Weber, diretor do asilo.

‘Não preciso me aprofundar nos pormenores do curso da doença. Devo, contudo, chamar a atenção para a maneira pela qual, à medida que o tempo passava, a psicose inicial comparativamente aguda, que havia envolvido diretamente toda a vida mental do paciente e merecia o nome de “insanidade alucinatória”, desenvolveu-se cada vez mais claramente (quase poder-se-ia dizer cristalizou-se) até o quadro clínico paranóico que temos hoje diante de nós.’ (385). Aconteceu que, por um lado, ele havia desenvolvido uma engenhosa estrutura delirante, na qual temos toda razão de estar interessados, ao passo que, por outro, sua personalidade fora reconstruída e agora se mostrava, exceto por alguns distúrbios isolados, capaz de satisfazer as exigências da vida cotidiana.

O Dr. Weber, em seu Relatório de 1899, faz as seguintes observações: ‘Assim, parece que, no momento, independentemente de certos sintomas psicomotores óbvios, que não podem deixar de impressionar como patológicos mesmo o observador superficial, Herr Senatspräsident Dr. Schreber não apresenta sinais de confusão ou de inibição psíquica, nem sua inteligência se acha notadamente prejudicada. Sua mente é calma, a memória excelente, tem à disposição estoque considerável de conhecimentos (não somente sobre questões jurídicas, mas em muitos outros campos) e é capaz de reproduzi-los numa seqüência vinculada de pensamento. Interessa-se em acompanhar os acontecimentos do mundo da política, da ciência, da arte etc. e ocupa-se constantemente com tais assuntos… e um observador desinformado sobre sua condição geral dificilmente notaria algo de peculiar nesses procedimentos. Apesar disso tudo, entretanto, o paciente acha-se repleto de idéias de origem patológica, que se constituíram num sistema completo; são mais ou menos fixas e parecem inacessíveis à correção por meio de qualquer apreciação e juízo objetivos dos fatos externos.’ (385-6.)

Assim, o estado do paciente experimentava grande mudança e ele agora se considerava capaz de levar existência independente. Por conseguinte, adotou as medidas apropriadas para retomar o controle de seus próprios assuntos e assegurar sua alta do asilo. O Dr. Weber dispôs-se a impedir a realização destas intenções e redigiu relatórios contrários a elas. Não obstante, em seu Relatório datado de 1900, sentiu-se obrigado a dar esta descrição apreciativa do caráter e conduta do paciente: ‘Visto que, durante os últimos nove meses, Herr Präsident Schreber fez suas refeições diariamente em minha mesa familiar, tive as mais amplas oportunidades de conversar com ele sobre todos os tópicos imagináveis. Qualquer que fosse o assunto em debate (exceto, naturalmente, suas idéias delirantes), concernente a acontecimentos no campo da administração e do direito, da política, da arte, da literatura e da vida social — em resumo, qualquer que fosse o tópico, o Dr. Schreber mostrava interesse vivaz, mente bem informada, boa memória e julgamento sólido; ademais, era impossível não endossar sua concepção ética. Também, em conversa mais superficial com as senhoras da reunião, era tão cortês quanto afável, e, ao aflorar assuntos de maneira mais jocosa, invariavelmente demonstrava tato e decoro. Nem uma só vez, durante essas conversas inocentes à mesa de jantar, introduziu ele assuntos que mais apropriadamente seriam levantados numa consulta médica.’ (397-8.) Na verdade, em determinada ocasião durante este período, quando surgiu uma questão de negócios que envolvia os interesses de toda a sua família, tomou parte nela de um modo que demonstrava tanto conhecimento técnico quanto senso comum (401 e 510).

Nas numerosas solicitações aos tribunais, através das quais o Dr. Schreber esforçou-se por recobrar a liberdade, não repudiou de modo algum seus delírios ou fez qualquer segredo da intenção de publicar as DenkwürdigkeitenPelo contrário, estendeu-se sobre a importância de suas idéias para o pensamento religioso e sua invulnerabilidade aos ataques da ciência moderna; mas, ao mesmo tempo, dava ênfase à ‘absoluta inocuidade’ (430) de todas as ações que, como se dava conta, seus delírios obrigavam-nos a realizar. Na verdade, tais eram sua perspicácia e a força convincente de sua lógica, que finalmente, e apesar de ser ele paranóico reconhecido, seus esforços coroaram-se de sucesso. Em julho de 1902, os direitos civis do Dr. Schreber foram restabelecidos e, no ano seguinte, suas Denkwürdigkeiten eines Nervenkranken apareceram, embora censuradas e com muitas partes valiosas omitidas.

A decisão judicial que devolveu ao Dr. Schreber a liberdade resume a essência de seu sistema delirante em poucas frases: ‘Acreditava que tinha a missão de redimir o mundo e restituir-lhe o estado perdido de beatitude. Isso, entretanto, só poderia realizar se primeiro se transformasse de homem em mulher.’ (475.)

Para uma descrição mais pormenorizada de seus delírios, tal como apareceram em sua forma final, podemos recorrer ao Relatório de 1899 do Dr. Weber: ‘O ponto culminante do sistema delirante do paciente é a sua crença de ter a missão de redimir o mundo e restituir à humanidade o estado perdido de beatitude. Foi convocado a essa tarefa, assim assevera, por inspiração direta de Deus, tal como aprendemos que foram os Profetas; pois, segundo ele, nervos em condições de grande excitação, assim como os seus estiveram por longo tempo, têm exatamente a propriedade de exercer atração sobre Deus — embora isso signifique tocar em assuntos que a fala humana mal é capaz de expressar, se é que o pode, visto jazerem inteiramente fora do raio de ação da experiência humana e, na verdade, terem sido revelados somente a ele. A parte mais essencial de sua missão redentora é ela ter de ser procedida por sua transformação em mulher. Não se deve supor que ele deseje ser transformado em mulher; trata-se antes de um ‘dever’ baseado na Ordem das Coisas, ao qual não há possibilidade de fugir, por mais que, pessoalmente, preferisse permanecer em sua própria honorável e masculina posição na vida. Mas nem ele nem o resto da humanidade podem reconquistar a vida do além, a não ser mediante a transformação dele em mulher (processo que pode ocupar muitos anos ou mesmo décadas), por meio de milagres divinos. Ele próprio, está convencido, é o único objeto sobre o qual milagres divinos se realizam, sendo assim o ser humano mais notável que até hoje viveu sobre a Terra. A toda hora e a todo minuto, durante anos, experimentou estes milagres em seu corpo e teve-os confirmados pelas vozes que com ele conversaram. Durante os primeiros anos de sua moléstia, alguns de seus órgãos corporais sofreram, segundo ele, danos tão terríveis que inevitavelmente levariam à morte qualquer outro homem; viveu por longo tempo sem estômago, sem intestinos, quase sem pulmões, com o esôfago rasgado, sem bexiga e com as costelas despedaçadas; costumava às vezes engolir parte de sua própria laringe com a comida etc. Mas milagres divinos (“raios”) sempre restauravam o que havia sido destruído, e portanto, enquanto permanecer homem, é inteiramente imortal. Estes fenômenos alarmantes cessaram há muito tempo e, como alternativa, sua “feminilidade” tornou-se proeminente. Trata-se de um processo de desenvolvimento que provavelmente exigirá décadas, senão séculos, para sua conclusão, sendo improvável que alguém hoje vivo sobreviva para ver seu final. Ele tem a sensação de que um número enorme de “nervos femininos” já passou para o seu corpo e, a partir deles, uma nova raça de homens originar-se-á, através de um processo de fecundação direta por Deus. Somente então, segundo parece, poderá morrer de morte natural e, juntamente com o resto da humanidade, reconquistará um estado de beatitude. Nesse meio tempo, não apenas o Sol, mas também árvores e pássaros, que têm a natureza de ‘resíduos miraculados (bemiracled) de antigas almas humanas, falam-lhe com inflexões humanas, e coisas miraculosas acontecem por toda a parte a seu redor.’ (386-8.)

O interesse sentido pelo psiquiatra militante em formações delirantes como estas exaure-se, geralmente, uma vez haja determinado o caráter dos produtos do delírio e feito uma estimativa de sua influência sobre a conduta geral do paciente; em seu caso, maravilhar-se não é o início da compreensão. O psicanalista, à luz de seu conhecimento das psiconeuroses, aborda o assunto com a suspeita de que mesmo estruturas de pensamento tão extraordinárias como estas, e tão afastadas de nossas modalidades comuns de pensar, derivam, todavia, dos mais gerais e compreensíveis impulsos da mente humana; e gostaria de descobrir os motivos de tal transformação, bem como a maneira pela qual ela se realizou. Com este objetivo em vista, desejará aprofundar-se mais nos pormenores do delírio e na história de seu desenvolvimento.

(a) O diretor da clínica acentua dois pontos como sendo de suma importância: a assunção, pelo paciente, do papel de Redentor e sua transformação em mulher. O delírio de Redentor constitui fantasia que nos é familiar, pela freqüência com que forma o núcleo da paranóia religiosa. O fator adicional, no caso, que faz a redenção depender de o homem transformar-se previamente em mulher, é fora do comum e em si próprio desconcertante, visto apresentar divergência muito ampla do mito histórico que a fantasia do paciente se propõe reproduzir. Segue-se naturalmente o relatório médico a presumir que a força motivadora desse complexo delirante foi a ambição do paciente em desempenhar o papel de Redentor e que sua emasculação merece ser encarada apenas como um meio de alcançar esse fim.

Ainda que isto possa parecer verdade, a partir do delírio em sua forma final, um estudo das Denkwürdigkeiten compele-nos a assumir ponto de vista muito diferente sobre o assunto. Sabemos que a idéia de se transformar em mulher (isto é, de ser emasculado) constituiu o delírio primário, que ele no início encarava esse ato como grave injúria e perseguição, e que o mesmo só se relacionou com o papel de Redentor de maneira secundária. Não pode haver dúvida, além disso, de que ele originalmente acreditava que a transformação deveria ser efetuada com a finalidade de abusos sexuais e não para servir a altos desígnios. Pode-se formular a situação, dizendo-se que um delírio sexual de perseguição foi posteriormente transformado, na mente do paciente, em delírio religioso de grandeza. O papel de perseguidor foi primeiramente atribuído ao Professor Flechsig, médico sob cujos cuidados estava; mais tarde, o lugar foi assumido pelo próprio Deus.

Citarei na íntegra as passagens pertinentes das Denkwürdigkeiten: ‘Desse modo, uma conspiração contra mim foi levada ao ponto culminante (por volta de março ou abril de 1894). Seu objetivo era conseguir que, uma vez minha doença nervosa houvesse sido reconhecida como incurável ou assim admitida, eu fosse entregue a certa pessoa, de maneira específica: minha alma deveria ser-lhe entregue, mas meu corpo — devido a uma má compreensão do que acima descrevi como o propósito subjacente à Ordem das Coisas — deveria ser transformado num corpo feminino e como tal entregue à pessoa em apreço com vistas a abusos sexuais, então simplesmente seria “deixado de lado” — o que indubitavelmente significa ser entregue à corrupção.’ (56.)

‘Além disso, era perfeitamente natural que, do ponto de vista humano (único pelo qual, àquela época, eu era ainda principalmente dirigido), encarasse o Professor Flechsig ou sua alma como meu único verdadeiro inimigo — em data posterior, houve também a alma de von W., a respeito da qual terei mais a dizer dentro em pouco — e que eu considerasse Deus Todo-Poderoso como aliado natural. Simplesmente imaginei que Ele se achava em grande dificuldade com referência ao Professor Flechsig e, por conseguinte, senti-me obrigado a apoiá-lo por todos os meios concebíveis, até o extremo de sacrificar-me a mim mesmo. Só muito mais tarde foi que me ocorreu a idéia de que o próprio Deus havia desempenhado o papel de cúmplice, senão de instigador, na conspiração em que minha alma deveria ser assassinada e meu corpo usado como o de uma rameira. De fato, posso dizer que esta idéia em parte só se tornou claramente consciente para mim enquanto escrevia o presente trabalho.’ (59.)

‘Toda tentativa de assassinar minha alma, de emascular-me para fins contrários à Ordem das Coisas (isto é, para satisfação dos apetites sexuais de um indivíduo) ou, mais tarde, de destruir meu entendimento — toda tentativa como essa redundou em nada. Desse combate aparentemente desigual entre um débil homem e o próprio Deus, emergi como vencedor — embora com muito amargo sofrimento e privação — porque a Ordem das Coisas está do meu lado.’ (61.)

Em nota de rodapé ligada às palavras ‘contrários à Ordem das Coisas', na passagem anterior, o autor prenuncia a transformação subseqüente de seu delírio de emasculação e de sua relação com Deus: ‘Demonstrarei mais tarde que a emasculação para propósito inteiramente diferente — um propósito em harmonia com a Ordem das Coisas — acha-se dentro dos limites da possibilidade, e, na verdade, que muito provavelmente pode proporcionar a solução do conflito.’

Estas afirmações são de importância decisiva para determinar a opinião que devemos formar quanto ao delírio da emasculação, dando-nos assim uma compreensão geral do caso. Pode-se acrescentar que as ‘vozes’ que o paciente ouvia nunca tratavam de sua transformação em mulher como algo que não fosse uma ignomínia sexual, o que lhes fornecia desculpa para dele escarnecer. ‘Raios de Deus não raramente julgaram-se no direito de zombar de mim, chamando-me de “Miss Schreber”, em alusão à emasculação que, segundo se afirmava, achava-me a ponto de sofrer.’ (127.) Ou então diziam: ‘Então isso declara ter sido um Senatspräsident, essa pessoa que se deixa ser f.… a!’ Ou, ainda: ‘Não se sente envergonhado, na frente de sua mulher?’ (177.)

Que a fantasia de emasculação era de natureza primária e originalmente independente do motif do Redentor, torna-se ainda mais provável quando relembramos a ‘idéia’ que, como mencionei em página anterior, ocorreu-lhe enquanto se achava semi-adormecido, no sentido de que deve ser bom ser uma mulher e submeter-se ao ato da cópula. (36.) Esta fantasia apareceu durante o período de incubação de sua moléstia, e antes que tivesse começado a sentir os efeitos do excesso de trabalho em Dresden.

O próprio Schreber indica o mês de novembro de 1895 como a época em que se estabeleceu a vinculação entre a fantasia de emasculação e a idéia do Redentor, preparando-se assim o caminho para ele reconciliar-se com a primeira. ‘Agora, contudo’, escreve, ‘dei-me claramente conta de que a Ordem das Coisas exigia imperativamente a minha emasculação, gostasse ou não disso pessoalmente, e que nenhum caminho razoável se abre para mim exceto reconciliar-me com o pensamento de ser transformado em mulher. A outra conseqüência de minha emasculação, naturalmente, só poderia ser a minha fecundação por raios divinos, a fim de que uma nova raça de homens pudesse ser criada.’ (177.)

A idéia de ser transformado em mulher foi a característica saliente e o germe mais primitivo de seu sistema delirante. Mostrou também ser a única parte deste que persistiu após a cura e a única que pôde permanecer em sua conduta na vida real, após haver-se restabelecido. ‘A única coisa que poderia parecer disparatada aos olhos de outras pessoas é o fato, já aflorado no relatório do perito, de que sou às vezes encontrado parado em frente do espelho ou em outro lugar, com a parte superior de meu corpo desnuda e usando adornos femininos variados, tais como fitas, colares falsos e similares. Isto só ocorre, posso acrescentar, quando estou sozinho, e nunca, pelo menos na medida em que posso evitá-lo, na presença de outras pessoas.’ (429.)

Herr Senatspräsident confessa esta frivolidade numa data (julho de 1901) em que já se achava em posição de expressar de modo muito capaz o caráter completo de seu restabelecimento no campo da vida prática: ‘Há muito tempo me venho dando conta de que as pessoas que vejo a meu redor não são “homens apressadamente improvisados”, mas pessoas reais, e que devo, portanto, conduzir-me em relação a eles como um homem razoável está acostumado a conduzir-se em relação a seus semelhantes.’ (409.)

Em contraste com a maneira pela qual colocou em ação sua fantasia de emasculação, o paciente nunca tomou quaisquer medidas no sentido de induzir as pessoas a reconhecerem sua missão de Redentor, fora a publicação de suas Denkwürdigkeiten.

(bA atitude de nosso paciente para com Deus é tão singular e cheia de contradições internas, que exige mais que um pouco de fé persistir na crença de que, não obstante, existe ‘método’ em sua ‘loucura’. Com auxílio do que o Dr. Schreber nos conta nas Denkwürdigkeiten, temos agora de esforçar-nos por chegar a uma visão mais exata de seu sistema teológico-psicológico, e devemos expor suas opiniões sobre os nervos, o estado de beatitude, a hierarquia divina e os atributos de Deus, em seu nexo delirante (manifesto). Em todos os pontos de sua teoria, ficaremos impressionados pela espantosa mistura do banal e do brilhante, do que foi tomado emprestado e do que é original.

A alma humana está contida nos nervos do corpo. Estes devem ser entendidos como estruturas de extraordinária finura, comparáveis ao fio mais delgado. Alguns desses nervos são apropriados apenas para a recepção de percepções sensórias, enquanto que outros (os nervos do entendimento) executam todas as funções da mente; com respeito a isso, é de notar que cada nervo do entendimento isolado representa a individualidade mental inteira de uma pessoa, e que a presença de um número maior ou menor de nervos do entendimento não tem influência, exceto sobre a duração de tempo durante o qual a mente pode reter suas impressões.

Enquanto que os homens se compõem de corpos e nervos, Deus é, por Sua própria natureza, somente nervos. Os nervos de Deus, porém, não estão presente em número limitado, como no caso dos corpos humanos, mas são infinitos ou eternos. Possuem todas as propriedades dos nervos humanos, em grau enormemente intensificado. Em sua capacidade criativa — isto é, no poder de se transformarem em todo objeto imaginável no mundo criado — são conhecidos como raios. Existe íntima relação entre Deus, o céu estrelado e o Sol.

Quando a obra da criação terminou, Deus retirou-se para muito longe (10-11 e 252) e abandonou o mundo às suas próprias leis. Limitou Suas atividades a chamar a Si as almas dos mortos. Somente em ocasiões excepcionais é que entraria em relação com pessoas específicas, altamente dotadas, ou interviria, por meio de um milagre, nos destinos do mundo. Deus não tem nenhuma comunicação regular com as almas humanas, de acordo com a Ordem das Coisas, até depois da morte.

Quando um homem morre, suas partes espirituais (isto é, seus nervos) sofrem um processo de purificação antes de finalmente se reunirem com o próprio Deus como que em ‘ante-salas do Céu’. Assim, ocorre que tudo se move numa ronda eterna, que está na base da Ordem das Coisas. Ao criar qualquer coisa, Deus se separa de uma parte de Si Próprio, ou dá a uma parte de Seus nervos forma diferente. A perda aparente que assim experimenta é compensada quando, após centenas e milhares de anos, os nervos dos mortos, que ingressaram no estado de beatitude, mais uma vez se Lhe acrescem, como ‘ante-salas do Céu’ (18 e 19 n.).

As almas que passaram por este processo de purificação começam a gozar de um estado de beatitude. Nesse meio tempo, perderam um pouco de sua consciência individual e se fundiram com outras almas em unidades mais elevadas. Almas importantes, aquelas de homens como Goethe, Bismarck etc., podem ter de manter seu senso de identidade por centenas de anos mais, antes que também elas possam se transformar em complexos anímicos superiores, tais como ‘raios de Javé’, no caso do antigo povo judeu, ou ‘raios de Zoroastro’, no caso da antiga Pérsia. No decurso de sua purificação, ‘as almas aprendem a língua que é falada pelo próprio Deus, a chamada “língua básica”, um alemão vigoroso, ainda que um tanto antiquado, que se caracteriza especialmente pela grande riqueza em eufemismos’ (13).

O Próprio Deus não é uma entidade simples. ‘Acima das “ante-salas do Céu” pairava o Próprio Deus, que, em contraposição a estes “domínios anteriores de Deus”, era também descrito como os ‘‘domínios posteriores de Deus’’. Os domínios posteriores de Deus eram, e ainda são, divididos estranhamente em duas partes, de modo que um Deus inferior (Arimã) se diferenciava de um Deus superior (Ormuzd).’ (19.) Com referência ao significado desta distinção, Schreber só nos pode informar que o Deus inferior era mais especialmente ligado aos povos de uma raça escura (ou semitas) e o Deus superior aos de uma raça loura (os arianos); e nem seria razoável, em assuntos tão elevados, esperar mais do conhecimento humano. Não obstante, diz-nos também que ‘apesar do fato de, sob certos aspectos, o Deus Todo-Poderoso formar uma unidade, o Deus inferior e o superior devem ser considerados como Seres separados, cada um dos quais possui seu próprio egoísmo e instinto particular de autopreservação, mesmo um em relação ao outro, e cada um dos quais se está, portanto, constantemente esforçando por arremessar-se na frente do outro’ (140 n.). Ademais, os dois Seres divinos comportavam-se de maneira inteiramente diferente em relação ao infeliz Schreber, durante o estádio agudo da doença.

Em dias anteriores à sua doença, o Senatspräsident Schreber tivera dúvida sobre assuntos religiosos (29 e 64); nunca fora capaz de persuadir-se a ter uma firme crença na existência de um Deus pessoal. Na verdade, ele aduz este fato sobre sua vida anterior como argumento em favor da completa realidade de seus delírios. Mas quem quer que leia a descrição que se segue dos traços caracterológicos do Deus de Schreber terá de admitir que a transformação efetuada pelo distúrbio paranóico não foi fundamental, e que no Redentor de hoje muito permanece daquele que ontem duvidava.

É que existe uma falha na Ordem das Coisas, em conseqüência da qual a existência do Próprio Deus parece ser colocada em perigo. Devido a circunstâncias sem maior explicação, os nervos dos homens vivos, especialmente quando em estado de intensa excitação, podem exercer sobre os nervos de Deus atração tão poderosa que ele não se pode libertar deles novamente, e assim Sua própria existência pode ser ameaçada. (11.) Esta ocorrência excepcionalmente rara realizou-se no caso de Schreber e envolveu-o nos maiores sofrimentos. O instinto de autopreservação foi despertado em Deus (30) e então tornou-se evidente que Ele se achava muito afastado da perfeição que lhe é atribuída pelas religiões. Por todo o livro de Schreber ressoa a amarga queixa de que Deus, estando acostumado apenas à comunicação com os mortos, não compreende os homens vivos.

‘Com relação a isso, contudo, prevalece um mal-entendido fundamental, que desde então atravessou minha vida inteira como um fio escarlate. Baseia-se precisamente no fato de que, de acordo com a Ordem das CoisasDeus realmente não sabia nada sobre os homens vivos e não precisava conhecer; em consonância com a Ordem das Coisas, Ele precisava apenas manter comunicação com cadáveres.’ (55.) — ‘Esse estado de coisas… estou convencido, deve mais uma vez ser vinculado ao fato de que Deus era, se assim posso exprimi-lo, inteiramente incapaz de lidar com homens vivos, e só estava acostumado a comunicar-se com cadáveres, ou, no máximo, com homens adormecidos (isto é, em seus sonhos).’ (141.) — ‘Eu próprio senti-me inclinado a exclamar: “Incredibile scriptu!” Todavia, tudo é literalmente verídico, por difícil que possa ser para outras pessoas apreender a idéia da completa incapacidade de Deus em julgar corretamente os homens vivos, e por mais tempo que eu próprio tenha levado para acostumar-me a esta idéia, após minhas inumeráveis observações sobre o assunto.’ (246.)

Entretanto, como resultado da má compreensão que Deus tem dos homens vivos, foi-Lhe possível tornar-se o instigador da conspiração contra Schreber, tomá-lo por idiota e submetê-lo a essas severas provações (264). Para evitar ser considerado um idiota, ele se submeteu a um sistema extremamente fatigante de ‘pensamento forçado’, pois ‘cada vez que minhas atividades intelectuais cessavam, Deus chegava à conclusão de que minhas faculdades mentais achavam-se extintas e que a destruição de meu entendimento (a idiotia), pela qual Ele esperava, havia-se realmente estabelecido, e que uma retirada se tornara agora possível’. (206.)

O comportamento de Deus na questão da premência de evacuar (ou ‘c…r’) leva-o a um grau especialmente alto de indignação. A passagem é tão característica que a citarei na íntegra; mas, para esclarecê-la, devo primeiro explicar que tanto os milagres quanto as vozes procedem de Deus, isto é, dos raios divinos.

‘Embora se torne necessário que eu aflore um tema desagradável, tenho de dedicar mais algumas palavras à pergunta que acabei de citar (“Por que você não c…a?”), devido ao caráter típico de todo o assunto. A necessidade de evacuação, como tudo o mais que tem a ver com o meu corpo, é evocada por milagre. É ocasionada pelo fato de minhas fezes serem forçadas para a frente (e, às vezes, para trás novamente) em meus intestinos; e se, devido a já ter havido uma evacuação, não se apresenta material suficiente, então pequenos resíduos que ainda possa haver do conteúdo de meus intestinos se espalham sobre meu orifício anal. A ocorrência é um milagre realizado pelo Deus superior, e repete-se diversas dúzias de vezes pelo menos, a cada dia. Associa-se a uma idéia que é inteiramente incompreensível para os seres humanos e só pode ser explicada pela ignorância completa de Deus quanto ao homem vivo como um organismo. De acordo com esta idéia, “c… r” é, em certo sentido, o ato final, o que equivale a dizer que, uma vez que a premência de c…r tenha sido causada por milagre, o objetivo de destruir o entendimento é alcançado e uma retirada final dos raios torna-se possível. Para chegar ao fundo desta idéia, temos de supor, segundo me parece, que há um equívoco em relação ao significado simbólico do ato da evacuação, uma noção, na verdade, de que qualquer um que tenha mantido uma relação como a que mantenho com os raios divinos tem, até certo ponto, direito de c…r sobre o mundo inteiro.’

Mas o que agora se segue revela toda a perfídia da política que foi seguida com relação a minha pessoa. Quase toda vez que a necessidade de evacuação me aparecia por milagre, outra pessoa nas imediações era enviada (por ter seus nervos estimulados com esse intuito) para o banheiro, a fim de impedir-me de evacuar. Trata-se de fenômeno que observei durante anos e em ocasiões tão incontáveis — milhares delas — e com tal regularidade que exclui qualquer possibilidade de ser atribuível ao acaso. E, então, surge a pergunta: “Por que você não c…a?”, à qual é dada a vivaz réplica de que sou “tão estúpido ou coisa assim”. A pena quase se esquiva de registrar tamanho absurdo, que Deus, cego por Sua ignorância da natureza humana, possa positivamente chegar ao extremos de supor que exista um homem estúpido demais para fazer o que todo animal faz — estúpido demais para poder c…r. Quando, levado por tal impulso, eu realmente consigo evacuar — e, geralmente, visto quase sempre encontrar o banheiro ocupado, uso um balde para esse fim — o processo é sempre acompanhado pelo aparecimento de uma sensação extremamente intensa de voluptuosidade espiritual, pois o alívio da pressão causada pela presença das fezes nos intestinos produz intenso bem-estar nos nervos da voluptuosidade; e o mesmo também acontece com a urina. Por esta razão, ainda até o dia de hoje, enquanto estou evacuando ou urinando, todos os raios acham-se sempre, sem exceção, unidos; por esta mesma razão, sempre que me dedico a estas funções naturais, é invariavelmente feita uma tentativa, embora vã, de inverter por milagre o impulso de defecar ou urinar.’ (225-7.)

Ademais, este extraordinário Deus de Schreber é incapaz de aprender qualquer coisa pela experiência: ‘Devido a uma ou outra qualidade inerentes à sua natureza, parece impossível a Deus inferir quaisquer lições para o futuro da experiência assim obtida.’ (186.) Ele pode, portanto, continuar a repetir as mesmas atormentadoras provações, milagres e vozes, sem alteração, ano após ano, até que, inevitavelmente, se torna motivo de riso para a vítima de suas perseguições.

‘A conseqüência é que, agora que os milagres em grande parte perderam o poder que antigamente possuíam de produzir efeitos aterrorizantes, Deus me parece principalmente, em quase tudo o que me acontece, ridículo ou pueril. Com referência à minha própria conduta, sou amiúde obrigado, em autodefesa, a desempenhar o papel de escarnecedor de Deus, e mesmo, ocasionalmente, de zombrar Dele em voz alta.’ (333.)

A esta atitude crítica e rebelde para com Deus, contudo, opõe-se na mente de Schreber uma enérgica contracorrente, expressa em muitos lugares: ‘Mas aqui novamente devo mui enfaticamente declarar que isto é apenas um episódio que, espero, terminará o mais tardar com meu falecimento, e que o direito de escarnecer de Deus pertence, em conseqüência, a mim somente e não a outros homens. Para estes, Ele permanece sendo o criador todo-poderoso do Céu e da Terra, a causa primeira de todas as coisas, e a salvação de seu futuro, a quem — embora algumas das idéias religiosas convencionais possam exigir revisão — são devidas adoração e a mais profunda reverência.’ (333-4.)

Fazem-se, portanto, repetidas tentativas de encontrar justificação para a conduta de Deus em relação ao paciente. Nestas tentativas, que apresentam tanta engenhosidade quanto qualquer outra teodicéia, a explicação baseia-se ora na natureza geral das almas, ora na necessidade de autopreservação divina, e na influência desencaminhadora da alma de Flechsig. (60-1 e 160.) Em geral, porém, a enfermidade é encarada como uma luta entre Schreber, o homem e Deus, luta na qual a vitória fica com o homem, fraco que seja, porque a Ordem das Coisas acha-se do seu lado. (61.)

O relatório médico poderia facilmente levar-nos a supor que Schreber apresentava a forma corriqueira de fantasia de Redentor, na qual o paciente acredita ser o filho de Deus, destinado a salvar o mundo de sua desgraça ou da destruição que o ameaça, e assim por diante. É por esta razão que tive o cuidado de apresentar com pormenores as peculiaridades da relação de Schreber com Deus. A importância desta relação para o resto da humanidade só raramente é mencionada nas Denkwürdigkeiten, e apenas na última fase de sua formação delirante. Consiste essencialmente no fato de que ninguém que morra pode ingressar no estado de beatitude enquanto a maior parte dos raios de Deus for absorvida por sua pessoa (de Schreber), devido a seus poderes de atração. (32.) É somente num estádio muito tardio, também, que sua identificação com Jesus Cristo aparece claramente. (338 e 431.)

Nenhuma tentativa de explicar o caso de Schreber terá possibilidade de ser correta, se não levar em consideração essas peculiaridades de sua concepção de Deus, essa mistura de reverência e rebeldia em sua atitude para com Ele.

Voltar-me-ei agora para outro assunto, estreitamente vinculado a Deus, ou seja, o estado de beatitude. Este é também mencionado por Schreber como ‘a vida do além’, à qual a alma humana é elevada após a morte, pelo processo da purificação. Ele o descreve como um estado de fruição ininterrupta, ligado à contemplação de Deus. Isso não é muito original mas, por outro lado, é surpreendente saber que Schreber faz distinção entre um estado de beatitude masculino e outro feminino.

‘O estado masculino de beatitude era superior ao feminino, que parece ter consistido principalmente numa sensação ininterrupta de voluptuosidade.’ (18.) Em outras passagens, esta coincidência entre o estado de beatitude e a voluptuosidade é expressa em linguagem mais simples e sem referência à distinção de sexo; ademais, o elemento do estado de beatitude que consiste na contemplação de Deus não é mais comentado. Assim, por exemplo: ‘A natureza dos nervos de Deus é tal que o estado de beatitude (…) se faz acompanhar por uma sensação muito intensa de voluptuosidade, ainda que não consista exclusivamente nela.’ (51.) E ainda: ‘A voluptuosidade pode ser encarada como um fragmento do estado de beatitude, dado antecipadamente, por assim dizer, aos homens e às outras criaturas vivas.’ (281.) Assim, o estado de beatitude celestial deve ser compreendido como sendo, em sua essência, uma continuação intensificada do prazer sensual sobre a Terra!

Esta visão do estado de beatitude achava-se longe de ser, no delírio de Schreber, um elemento originado nos primeiros estádios de sua doença e posteriormente eliminado, como incompatível com o resto. Na Exposição de seu Caso, redigida pelo paciente para o Tribunal de Apelação em julho de 1901, ele enfatiza como uma de suas maiores descobertas o fato de ‘que a voluptuosidade se acha em estreito relacionamento (até então não perceptível ao resto da humanidade) com o estado de beatitude fruído pelos espíritos que já não mais se acham aqui’. [442.]

Descobriremos, na verdade, que este “relacionamento estreito’ é a rocha sobre a qual o paciente funda suas esperanças de uma reconciliação final com Deus e de que seus sofrimentos recebam um fim. Os raios de Deus abandonam sua hostilidade assim que se certificam de que, sendo absorvidos pelo corpo dele, experimentarão voluptuosidade espiritual (133); o próprio Deus exige poder encontrar voluptuosidade nele (283) e ameaça-o com a retirada de Seus raios, se se esquecer de cultivar a voluptuosidade e não puder oferecer a Deus o que Este exige. (320.)

Essa surpreendente sexualização do estado de beatitude celestial sugere a possibilidade de que o conceito que Schreber tem do estado de beatitude derive de uma condensação dos principais significados da palavra alemã ‘selig‘, a saber, ‘falecido’ e ‘sensualmente feliz’. Mas esse exemplo de sexualização fornecer-nos-á também ocasião de examinar a atitude geral do paciente para com o lado erótico da vida e para com assuntos de indulgência sexual, pois nós, psicanalistas, até o presente apoiamos a opinião de que as raízes de todo distúrbio nervoso e mental devem se encontrar principalmente na vida sexual do paciente — alguns de nós baseados simplesmente em fundamentos empíricos, outros, influenciados, além disso, por considerações teóricas.

As amostras dos delírios de Schreber já fornecidas capacitam-nos, sem mais, a pôr de lado a suspeita de que exatamente esse distúrbio paranóide pudesse vir a ser o ‘caso negativo’ há tanto tempo procurado: um caso em que a sexualidade desempenhe apenas papel muito pouco importante. O próprio Schreber fala repetidas vezes como se partilhasse de nosso preconceito. Fala constantemente, e no mesmo alento, de ‘distúrbio nervoso’ e lapsos eróticos, como se as duas coisas fossem inseparáveis.

Antes de sua enfermidade, o Senatspräsident Schreber fora homem de moral estrita: ‘Poucas pessoas’, declara ele, e não vejo razão para duvidar de sua assertiva, ‘podem ter sido criadas segundo os estritos princípios morais em que fui, e poucas pessoas, durante toda a sua vida, podem ter exercido (especialmente em assuntos sexuais) uma autocoibição que se conformasse tão estritamente a esses princípios, como posso dizer de mim mesmo que exerci.’ (281.) Após o severo combate espiritual, do qual os fenômenos de sua moléstia foram os sinais exteriores, sua atitude para com o lado erótico da vida se alterou. Chegara a perceber que o cultivo da voluptuosidade lhe incumbia como um dever e que somente pelo cumprimento desse dever é que poderia terminar o grave conflito que irrompera dentro dele — ou, como pensava, a seu respeito. A voluptuosidade, assim as vozes lhe asseguravam, havia-se tornado ‘temente a Deus’, e só lhe restava lamentar que não se pudesse dedicar a seu cultivo durante todo o dia. (285.)

Foi esse, então, o resultado das modificações produzidas em Schreber por sua doença, tal como as encontramos expressas nas duas características principais de seu sistema delirante. Antes dela, inclinara-se ao ascetismo sexual e fora um descrente com referência a Deus, enquanto que, após a mesma, se tornou crente em Deus e devoto da voluptuosidade. Entretanto, assim como sua fé em Deus reconquistada era de tipo peculiar, assim também a fruição sexual que havia alcançado para si próprio era de caráter muito raro. Não era a liberdade sexual de um homem, mas os sentimentos sexuais de uma mulher. Ele assumiu uma atitude feminina para com Deus; sentiu que era a esposa de Deus.

Nenhuma outra parte de seus delírios é tratada pelo paciente tão exaustivamente, quase poder-se-ia dizer insistentemente, como sua alegada transformação em mulher. Os nervos por ele absorvidos, assim diz, assumiram em seu corpo o caráter de nervos femininos de voluptuosidade e lhe deram um molde mais ou menos feminil, e, mais particularmente, à sua pele, a suavidade peculiar ao sexo feminino. (87.) Se aperta levemente com os dedos qualquer parte do corpo, pode sentir esses nervos, sob a superfície da pele, como um tecido de textura fibrosa ou semelhante a fios; eles se acham especialmente presentes na região do tórax, onde, numa mulher, ficariam os seios. ‘Aplicando pressão a este tecido, sou capaz de evocar uma sensação de voluptuosidade, tal como as mulheres experimentam, e especialmente se penso em algo feminino ao mesmo tempo.’ (277.) Sabe com certeza que o tecido originalmente nada mais era que nervos de Deus, que dificilmente poderiam ter perdido o caráter de nervos simplesmente por terem passado para seu corpo. (279.) Por meio do que chama de ‘atrair’ (isto é, pela invocação de imagens visuais), é capaz de dar tanto a si quanto aos raios a impressão de que seu corpo se acha aparelhado com seios e órgãos genitais femininos: ‘Tornou-se tanto um hábito para mim atrair nádegas femininas para meu corpo — honi soit qui mal y pense — que o faço quase involuntariamente, a cada vez que me abaixo.’ (233.) É ‘ousado o bastante para asseverar que quem quer que tenha oportunidade de me ver diante do espelho com a parte superior de meu corpo desnuda — especialmente se a ilusão é auxiliada por estar eu usando algum atavio feminino — receberia uma impressão inequívoca de um busto feminino‘. (280.) Solicita exame médico, a fim de estabelecer o fato de que todo o seu corpo possui nervos de voluptuosidade dispersos sobre ele, da cabeça aos pés, situação, que, em sua opinião, só pode ser encontrada no corpo feminino, enquanto no indivíduo do sexo masculino, segundo melhor de seu conhecimento, os nervos da voluptuosidade existem apenas nos órgãos sexuais e em sua vizinhança imediata. (274.) A voluptuosidade espiritual que se desenvolveu devido a essa acumulação de nervos em seu corpo é tão intensa que exige apenas ligeiro esforço de sua imaginação (especialmente quando se acha deitado na cama) para proporcionar-lhe uma sensação de bem-estar sexual que permite um prenúncio mais ou menos claro do prazer sexual desfrutado por uma mulher durante a cópula. (269.)

Se recordamos agora o sonho que o paciente teve durante o período de incubação de sua enfermidade, antes de mudar-se para Dresden, tornar-se-á claro, acima de qualquer dúvida, que seu delírio de ser transformado em mulher nada mais era que a realização do conteúdo desse sonho. Naquela época, rebelou-se contra o sonho com máscula indignação, e, da mesma maneira, começou a lutar contra a sua realização na enfermidade e encarou sua transformação em mulher como uma catástrofe porque era ameaçado com intenções hostis. Mas chegou a ocasião (foi em novembro de 1895) em que começou a reconciliar-se com a transformação e a colocá-la em harmonia com os propósitos mais altos de Deus: ‘Desde então, e com plena consciência do que fiz, inscrevi em minha bandeira o cultivo da feminilidade.’ (177-8.)

Chegou então à firme convicção de que era o Próprio Deus que, para Sua satisfação, exigia dele a feminilidade:
‘Mal, contudo, acho-me a sós com Deus (se assim posso expressá-lo), torna-se uma necessidade para mim empregar todo artifício imaginável e convocar a totalidade de minhas faculdades mentais, e especialmente minha imaginação, a fim de fazer com que os raios divinos passam ter a impressão, tão continuamente quanto possível (ou, visto isto achar-se além do poder mortal, pelo menos em certas ocasiões do dia), de que sou uma mulher a deleitar-se com sensações voluptuosas.’ (281.)

‘Por outro lado, Deus exige um estado constante de prazer, tal como estaria de acordo com as condições de existência impostas às almas pela Ordem das Coisas; e é meu dever fornecer-lhe isso… sob a forma da maior geração possível de voluptuosidade espiritual. E se, nesse processo, um pouco de prazer sensual cabe a mim, sinto-me justificado em aceitá-lo como diminuta compensação pela excessiva quantidade de sofrimento e privação que foi minha por tantos anos passados…’ (283.)

‘…Penso que posso mesmo arriscar-me a apresentar a opinião, baseada em impressões que recebi, de que Deus nunca tomaria quaisquer medidas no sentido de efetuar uma retirada — cujo primeiro resultado é, invariavelmente, alterar minha condição física acentuadamente para pior —, mas quieta e permanentemente render-se-ia a meus poderes de atração, se me fosse possível estar sempre desempenhando o papel de uma mulher e jazer em meus próprios abraços amorosos, estar sempre modelando minha aparência em formas femininas, estar sempre contemplando retratos de mulheres, e assim por diante.’ (284-5.)

No sistema de Schreber, os dois elementos principais de seus delírios (sua transformação em mulher e sua relação favorecida com Deus) acham-se vinculados na adoção de uma atitude feminina para com Deus. Será parte inevitável de nossa tarefa demonstrar que existe uma relação genética essencial entre esses dois elementos. De outra maneira, nossas tentativas de elucidar os delírios de Schreber conduzir-nos-iam à posição absurda descrita no famoso símile de Kant na Crítica da Razão Puraseríamos como um homem a segurar uma peneira debaixo de um bode, enquanto alguém o ordenha.


II - TENTATIVAS DE INTERPRETAÇÃO

Existem dois ângulos a partir dos quais poderíamos tentar chegar a uma compreensão dessa história de um caso de paranóia e nela expor os conhecidos complexos e forças motivadoras da vida mental. Poderíamos partir das próprias declarações delirantes do paciente ou das causas ativadoras de sua moléstia.

O primeiro método deve parecer tentador, desde o brilhante exemplo fornecido por Jung [1907] em sua interpretação de um caso de demência precoce que era muito mais grave que este e exibia sintomas muito mais afastados do normal. O alto nível e inteligência de nosso paciente atual, também, e sua comunicatividade parecem ter probabilidades de facilitar a realização de nossa tarefa dentro dessa orientação. Ele próprio, não raro, oferece-nos a chave, pelo acréscimo de uma glosa, citação ou exemplo de alguma proposição delirante, de modo aparentemente acidental, ou mesmo por negar expressamente algum paralelo a ela, que tenha surgido em sua própria mente. Pois, quando isso acontece, temos apenas de seguir nossa técnica psicanalítica habitual — despir a frase de sua forma negativa, tomar o exemplo como sendo a coisa real, ou a citação ou glosa como a fonte original, e encontramo-nos de posse do que estamos procurando, a saber, uma tradução da maneira paranóica de expressão para a normal.

Talvez valha a pena fornecer uma ilustração mais pormenorizada desse procedimento. Schreber se queixa do aborrecimento criado pelos chamados ‘pássaros miraculados’ ou ‘pássaros falantes’, aos quais atribui certo número de qualidades extraordinárias. (208-14.) É crença sua que eles sejam formados de antigas ‘ante-salas do Céu’, isto é, almas humanas que ingressaram em estado de beatitude, e que foram impregnados com veneno de ptomaína e açulados contra ele. Foram condicionados a repetir ‘frases sem sentido, que aprenderam de cor’ e que ‘se lhes ofereceram como jantar’. Cada vez que descarregavam a carga de veneno ptomaínico sobre ele — isto é, cada vez que ‘desfiavam as frases que lhe foram oferecidas como jantar, por assim dizer’ — eram, até certo ponto, incorporados em sua alma, com as palavras ‘Diacho de sujeito!’ ou ‘O diabo o leve!’, que constituem as únicas que ainda são capazes de empregar para expressar um sentimento genuíno. Eles não podem entender o significado das palavras que dizem, mas são, por natureza, suscetíveis à similaridade de sons, embora a semelhança não precise necessariamente ser completa. Assim, é-lhes indiferente dizer:
Santiago‘ ou ‘Karthago‘,
Chinesentum‘ ou ‘Jesum Christum‘,
Abendrot‘ ou ‘Atemnot‘,
Ariman‘ ou ‘Ackermann‘ etc. (210.)

Quando lemos esta descrição, não podemos evitar a idéia de que ela deve realmente se referir a moças. Criticamente amiúde comparam-nas a gansos, pouco galantemente acusam-nas de terem ‘miolos de passarinho’ e declara-se que nada podem dizer além de frases aprendidas de cor e que revelam sua falta de instrução ao confundirem palavras estrangeiras que soam de modo semelhante. A frase ‘diacho de sujeito!’, única coisa sobre a qual são sérias, constituiria, no caso, uma alusão ao triunfo do jovem que conseguiu impressioná-la.

E, com efeito, algumas páginas adiante deparamo-nos com uma passagem em que Schreber confirma esta interpretação: ‘Para fins de distinção, de brincadeira dei nomes de moças a grande número das almas-pássaros restantes, visto que, por sua curiosidade, inclinação voluptuosa etc., elas, unânime e mui prontamente, sugerem uma comparação com menininhas. Alguns desse nomes de moças foram, desde então, adotados pelos raios de Deus e mantidos como designação das almas-pássaros em apreço.’ (214.) Essa fácil interpretação dos ‘pássaros miraculados’ fornece-nos uma sugestão que pode auxiliar-nos no sentido de compreender as enigmáticas ‘ante-salas do Céu’.

Dou-me perfeitamente conta de que um psicanalista necessita de certa quantidade de tato e reserva sempre que, no decurso de seu trabalho, vai além dos casos típicos de interpretação, e de que seus ouvintes ou leitores só o seguirão na medida em que a familiaridade deles com a técnica analítica lhes permita. Tem ele toda razão, portanto, de guardar-se contra o risco de que uma exagerada exibição de perspicácia de sua parte possa se fazer acompanhar de uma diminuição na certeza e fidedignidade dos seus resultados. Assim, é apenas natural que determinado analista tenda demasiadamente para a cautela e outro excessivamente para a ousadia. Não será possível definir os limites precisos da interpretação justificável até que se tenham realizado muitos experimentos e que o assunto se tenha tornado mais conhecido.

Trabalhando no caso de Schreber, uma política de restrição me foi forçada pela circunstância de que a oposição a que ele publicasse as Denkwürdigkeiten foi eficaz, a ponto de afastar do nosso conhecimento considerável parte do material — a parte também que, com toda probabilidade, teria lançado a luz mais importante sobre o caso. Assim, por exemplo, o terceiro capítulo do livro inicia com esse anúncio promissor: ‘Passarei agora a descrever certos acontecimentos ocorridos com outros membros de minha família e que podem, concebivelmente, se achar vinculados ao assassinato de alma que postulei; pois há, de qualquer modo, algo mais ou menos problemático a respeito de todos eles, algo não facilmente explicável segundo as linhas da experiência humana comum. (33.) Mas a frase posterior, que é também a última do capítulo, é a seguinte: ‘O restante deste capítulo foi retirado de impressão por ser impróprio para publicação.’ Desse modo, terei de dar-me por satisfeito se conseguir pelo menos, com algum grau de certeza, remontar o núcleo da estrutura delirante a motivos humanos familiares.

Com este objetivo em vista, mencionarei agora outro pequeno fragmento da história clínica ao qual não se deu peso suficiente nos relatórios, embora o próprio paciente tenha feito tudo o que pôde para colocá-lo em primeiro plano. Refiro-me às relações de Schreber com seu primeiro médico, o Geheimrat Prof. Flechsig, de Leipzig.

Conforme já sabemos, o caso de Schreber assumiu a princípio a forma de delírios de perseguição e só começou a perdê-la quando chegou ao ponto decisivo de sua moléstia (a ocasião de sua ‘reconciliação’). Dessa época em diante, as perseguições tornaram-se cada vez menos intoleráveis e o propósito ignominioso que a princípio fundamentava sua ameaçada emasculação começou a ser suplantado por um propósito em consonância com a Ordem das Coisas. Mas o primeiro autor de todos esses atos de perseguição foi Flechsig e permaneceu sendo seu instigador durante todo o curso da doença.

Sobre a natureza real da perversidade de Flechsig e seus motivos o paciente fala com a vagueza e a obscuridade características, que podem ser encaradas como sinais de um trabalho particularmente intenso de formação delirante, se é que é legítimo julgar a paranóia segundo o modelo de um fenômeno mental muito mais conhecido — o sonho. Flechsig, segundo o paciente, cometeu ou tentou cometer ‘assassinato de alma’ contra ele — ato que, pensava, era comparável aos esforços feitos pelo Diabo ou por demônios para tomar posse de uma alma, e que pode ter tido seu protótipo em acontecimentos ocorridos entre membros das famílias Flechsig e Schreber há muito falecidos. Alegrar-nos-íamos em saber mais sobre o significado desse ‘assassinato de alma’, mas nesse ponto nossas fontes mais uma vez recaem num silêncio tendencioso: ‘Quanto ao que constitui a verdadeira essência do assassinato de alma, e à sua técnica, se assim posso descrevê-la, nada mais posso dizer além do que já foi indicado. Existe apenas isto, talvez, a ser acrescentado.…) (A passagem que se segue é imprópria para publicação.)’ (28.) Em resultado dessa omissão, deixam-nos às escuras sobre a questão do que significa ‘assassinato de alma’. Referir-nos-emos mais à única alusão ao assunto que escapou à censura.

Seja como for, logo houve outra manifestação dos delírios de Schreber, que afetou suas relações com Deus sem alterar as relações com Flechsig. Até então, havia considerado Flechsig (ou melhor, a alma dele) seu único inimigo verdadeiro e encarado Deus Todo-Poderoso como aliado; mas, agora não podia evitar o pensamento de que o Próprio Deus havia desempenhado o papel de cúmplice, senão de instigador, na trama contra ele. (59.) Flechsig, contudo, permanecia sendo o primeiro sedutor, a cuja influência Deus se havia rendido. (60.) Ele conseguira abrir caminho até o Céu, com toda a sua alma ou parte dela, e tornar-se ‘líder dos raios’, sem morrer ou passar por qualquer purificação preliminar. (56.) A alma de Flechsig continuou a representar esse papel mesmo após o paciente ser removido da clínica de Leipzig para o asilo do Dr. Pierson. A influência do novo ambiente foi demonstrada pelo fato de a alma de Flechsig reunir-se à alma do assistente-chefe, a quem o paciente reconheceu como uma pessoa que anteriormente morara no mesmo bloco de apartamentos que ele próprio. Esta foi descrita como sendo a alma de von W. A alma de Flechsig introduziu então o sistema de ‘divisão de almas’, que assumiu grandes proporções. Em determinada época, chegou a haver de 40 a 60 subdivisões da alma de Flechsig; duas de suas divisões maiores eram conhecidas como o ‘Flechsig superior’ e o ‘Flechsig médio’. A alma de von W. (o assistente-chefe) comportava-se exatamente da mesma maneira. (111.) Era, às vezes, muito divertido observar a maneira pela qual essas duas almas, apesar de sua aliança, levavam adiante uma rixa mútua, com o orgulho aristocrático de uma oposto à vaidade professoral da outra. (113.) No decorrer de suas primeiras semanas em Sonnestein (para onde foi finalmente removido no verão de 1894), a alma de seu novo médico, Dr. Weber, entrou em jogo; e pouco após ocorreu, no desenvolvimento de seus delírios, a reviravolta que viemos a conhecer com sua ‘reconciliação’.

Durante essa estada posterior em Sonnestein, quando Deus começara a apreciá-lo melhor, fez-se uma incursão sobre as almas, que se haviam multiplicado a ponto de se tornarem um aborrecimento. Em resultado, a alma de Flechsig sobreviveu sob apenas uma ou duas formas e a de von W. sob uma única, que em breve desapareceu completamente. As divisões da alma de Flechsig, que lentamente perderam tanto a inteligência quanto o poder, passaram então a ser descritas como o ‘Flechsig posterior’ e o ‘Partido “Oh, bem!”’. Que a alma de Flechsig conservou sua importância até o fim é demonstrado por Schreber no preâmbulo ‘Carta Aberta ao Herr Geheimrat Prof. Dr. Flechsig’.

Nesse notável documento, Schreber expressa sua firme convicção de que o médico que o influenciou teve as mesmas visões e recebeu as mesmas revelações sobre coisas sobrenaturais que ele próprio. Protesta, já na primeira página, que o autor das Denkwürdigkeiten não tem a mais remota intenção de atacar a honra do médico, e o mesmo argumento é séria e enfaticamente repetido nas apresentações que o paciente faz de sua posição. (343, 445.) É evidente que se está esforçando por distinguir a ‘alma Flechsig’ do homem vivo de mesmo nome, o Flechsig de seus delírios, do Flechsig real.

O estudo de vários casos de delírios de perseguição levou-me, bem como a outros pesquisadores, à opinião de que a relação entre o paciente e o seu perseguidor pode ser reduzida a fórmula simples. Parece que a pessoa a quem o delírio atribui tanto poder e influência, a cujas mãos todos os fios da conspiração convergem, é, se claramente nomeada, idêntica a alguém que desempenhou papel igualmente importante na vida emocional do paciente antes de sua enfermidade, ou facilmente reconhecível como substituto dela. A intensidade da emoção é projetada sob a forma de poder externo, enquanto sua qualidade é transformada no oposto. A pessoa agora odiada e temida, por ser um perseguidor, foi, noutra época, amada e honrada. O principal propósito da perseguição asseverada pelo delírio do paciente é justificar a modificação em sua atitude emocional.

Mantendo esse ponto de vista em mente, examinemos agora as relações que haviam anteriormente existido entre Schreber e seu médico e perseguidor, Flechsig. Já soubemos que, nos anos de 1884 e 1885, Schreber sofrera uma primeira crise de distúrbio nervoso, que seguiu seu curso ‘sem a ocorrência de quaisquer indigentes que tocassem as raias do sobrenatural’. (35.) Enquanto se achava nesse estado, que foi descrito como ‘hipocondria’ e não parece ter ultrapassado os limites de uma neurose, Flechsig atuou como seu médico. Nessa ocasião, Schreber passou seis meses na Clínica da Universidade, em Leipzig. Sabemos que, após o restabelecimento, ele manteve sentimentos cordiais em relação ao médico. ‘O principal foi que, após período bastante longo de convalescença, que passei viajando, fiquei finalmente curado; e, portanto, era impossível que, àquela época, sentisse algo a não ser a mais viva gratidão para com o Professor Flechsig. Expressei de forma acentuada esse sentimento não só em visita pessoal que subseqüentemente lhe fiz quanto no que considerei serem honorários apropriados.’ (35-6.) É verdade que o encômio de Schreber nas Denkwürdigkeiten sobre esse primeiro tratamento de Flechsig não é inteiramente sem reservas; mas estas podem ser facilmente entendidas, se considerarmos que sua atitude, nesse meio tempo, fora alterada. A passagem imediatamente seguinte à que acabou de ser citada dá testemunho da cordialidade original de seus sentimentos para com o médico que o havia tratado com tanto sucesso: ‘A gratidão de minha esposa foi talvez ainda mais sincera, pois reverenciava o Professor Flechsig como o homem que lhe havia restituído o marido; daí ter ela, durante anos, mantido o retrato dele sobre a escrivaninha.’ (36.)

Visto não podermos conseguir nenhuma compreensão interna das causas da primeira doença (cujo conhecimento é sem dúvida indispensável para elucidar apropriadamente a segunda enfermidade, mais grave), temos agora de mergulhar ao acaso numa concatenação desconhecida de circunstâncias. Durante o período de incubação de sua doença, como sabemos (isto é, entre junho de 1893, quando foi nomeado para novo posto, e o outubro seguinte, quando assumiu seus encargos), ele sonhou repetidamente que seu antigo distúrbio nervoso havia retornado. Além disso, certa vez, quando se achava semi-adormecido, teve a impressão de que, afinal de contas, deveria ser bom ser mulher e submeter-se ao ato da cópula. Os sonhos e a fantasia são comunicados por Schreber em sucessão imediata; e, se também reunirmos o tema geral de ambos, poderemos inferir que, ao mesmo tempo em que rememorava a doença, uma recordação de seu médico foi-lhe despertada na mente, e que a atitude feminina que assumiu na fantasia foi, desde o início, dirigida para o médico. Ou pode ser que o fato de o sonho de sua enfermidade haver retornado simplesmente expressasse algum anseio tal como ‘Quisera poder ver Flechsig novamente!’

A ignorância do conteúdo mental da primeira doença barra nosso caminho nessa direção. Talvez ela houvesse deixado no paciente um sentimento de dependência afetuosa do médico, o qual havia agora, por alguma razão desconhecida, aumentado até chegar ao grau de intensidade de um desejo erótico. Essa fantasia feminina, que se havia conservado impessoal, defrontou-se imediatamente com um repúdio indignado — um verdadeiro ‘protesto masculino’, para utilizar a expressão de Adler, mas num sentido diferente do seu.

Na aguda psicose que irrompeu logo após, porém, a fantasia feminina venceu todas as dificuldades; e só é preciso ligeira correção da imprecisão paranóica característica do modo de expressão de Schreber, para permitir-nos adivinhar o fato de que o paciente temia um abuso sexual das mãos do próprio médico. A causa ativadora de sua doença, então, foi uma manifestação de libido homossexual; o objeto desta libido foi provavelmente, desde o início, o médico, Flechsig, e suas lutas contra o impulso libidinal produziram o conflito que deu origem aos sintomas.

Farei uma pausa aqui, por um momento, para enfrentar uma tempestade de protestos e objeções. Quem quer que esteja familiarizado com o estado atual da psiquiatria deve estar preparado para enfrentar problemas.

Não constitui um ato de irresponsável leviandade, uma indiscrição e uma calúnia acusar um homem de posição ética tão elevada quanto o ex-Senatspräsident Schreber, de homossexualismo? — Não. O próprio paciente informou o mundo em geral de sua fantasia de ser transformado em mulher, e permitiu que todas as considerações pessoais fossem superadas por interesses de natureza mais alta. Desse modo, ele próprio concedeu-nos o direito de ocupar-nos com sua fantasia, e, ao traduzi-la para a terminologia técnica da medicina, não efetuamos a menor adição a seu conteúdo.

‘Sim, mas ele não estava em seu pleno juízo quando o fez. O delírio de estar sendo transformado em mulher era uma idéia patológica.’ Não esquecemos isso. Na verdade, nosso único interesse é o significado e a origem dessa idéia patológica. Apelaremos para a distinção que ele próprio traça entre o homem Flechsig e a ‘alma Flechsig’. Não lhe estamos fazendo censuras de espécie alguma, quer por ter tido impulsos homossexuais quer por ter-se esforçado por suprimi-los. Os psiquiatras deveriam, pelo menos, tirar uma lição desse paciente, ao vê-lo tentando, apesar de seus delírios, não confundir o mundo do inconsciente com o da realidade.

‘Mas em parte alguma acha-se expressamente afirmado que a transformação em mulher que ele tanto temia devesse realizar-se em benefício de Flechsig.’ Isso é verdade e não é difícil compreender que, ao preparar suas memórias para publicação, visto estar ansioso por não insultar o ‘homem Flechsig’, ele evitasse acusação tão grosseira. Mas a moderação de sua linguagem, devido a essas considerações, não chega ao ponto de poder esconder o verdadeiro significado da acusação. Na verdade, pode-se sustentar que, afinal de contas, ela se acha visivelmente expressa numa passagem como a seguinte: ‘Desse modo, uma conspiração contra mim foi levada ao ponto culminante (por volta de março ou abril de 1894). Seu objetivo era conseguir que, uma vez minha doença nervosa houvesse sido reconhecida como incurável ou assim admitida, eu fosse entregue a certa pessoa de maneira que minha alma lhe fosse entregue, mas meu corpo… fosse transformado num corpo feminino e como tal entregue à pessoa em apreço, com vistas a abusos sexuais…' (56.) É desnecessário observar que não é sequer nomeado algum outro indivíduo que pudesse ser colocado no lugar de Flechsig.

Perto do fim da estada de Schreber na clínica de Leipzig, veio-lhe à mente o temor de que ele ‘deveria ser jogado aos assistentes’ para fins de abusos sexuais. (98.) Quaisquer dúvidas remanescentes sobre a natureza do papel originalmente atribuído ao médico dissipam-se quando, nos estágios posteriores de seu delírio, vemos Schreber admitir abertamente sua atitude feminina para com Deus. A outra acusação contra Flechsig ecoa excessivamente alto por todo o livro, Flechsig, diz, tentou cometer assassinato de alma contra ele. Como já sabemos, o próprio paciente não foi claro quanto à natureza real desse crime, mas a mesma estava ligada a questões de discrição que impediram sua publicação (como percebemos pelo terceiro capítulo suprimido).

A partir deste ponto, um único fio conduz-nos à frente. Schreber ilustra a natureza do assassinato de alma referindo-se às lendas corporificadas no Fausto de Goethe, no Manfred de Byron, no Freichütz de Weber etc. (22), e um desses casos é citado em outra passagem, mais adiante. Ao examinar a divisão de Deus em duas pessoas, Schreber identifica seu ‘Deus inferior’ e ‘Deus superior’ com Arimã e Ormuzd, respectivamente (19); e, pouco depois, ocorre uma nota de rodapé casual: ‘Além disso, o nome de Arimã também aparece em vinculação com um assassinato de alma no Manfred de Byron, por exemplo.’ (20.) Na peça mencionada, dificilmente existe algo comparável à barganha da alma de Fausto, e procurei em vão a expressão ‘assassinato de alma’. Mas a essência e o segredo de toda a obra residem numa relação incestuosa entre irmão e irmã. E aqui nosso fio se rompe abruptamente.

Em estádio posterior deste trabalho, pretendo retornar ao exame de algumas outras objeções; entrementes, porém, considerar-me-ei justificado em manter a opinião de que a base da moléstia de Schreber foi a irrupção de um impulso homossexual. Esta hipótese se harmoniza com importante pormenor da história clínica, que do contrário permanece inexplicável. O paciente teve novo ‘colapso nervoso’, que exerceu efeito decisivo sobre o curso de sua doença, na ocasião em que sua esposa estava tirando umas pequenas férias por causa da própria saúde. Até então, ela havia passado diversas horas com ele todo dia e feito as refeições de meio-dia com ele. Entretanto, quando retornou após uma ausência de quatro dias, encontrou-o muito tristemente alterado, tanto, na verdade, que ele próprio não mais queria vê-la. ‘O que determinou particularmente meu colapso mental foi uma noite específica, durante a qual tive um número extraordinário de emissões [ejaculações] — positivamente meia-dúzia, todas naquela noite.’ (44.) É fácil compreender que a simples presença da esposa deve ter atuado como proteção contra o poder atrativo dos homens a seu redor, e, se estivermos preparados para admitir que uma emissão não pode ocorrer num adulto sem algum acompanhamento mental, poderemos suplementar as emissões do paciente naquela noite presumindo que elas se fizeram acompanhar de fantasias homossexuais que permaneceram inconscientes.

A razão de essa irrupção de libido homossexual ter dominado o paciente exatamente nesse período (isto é, entre as datas de sua nomeação e da mudança para Dresden) não pode ser explicada na ausência de um conhecimento mais preciso da história de sua vida. Falando de modo geral, todo ser humano oscila, ao longo da vida, entre sentimentos heterossexuais e homossexuais e qualquer frustração ou desapontamento numa das direções pode impulsioná-lo para outra. Nada sabemos desses fatores no caso de Schreber, mas não devemos deixar de chamar atenção para um fator somático que pode muito bem ter sido relevante. Na época dessa doença, o Dr. Schreber contava 51 anos e, portanto, atingira uma idade de importância decisiva na vida sexual. É um período no qual, nas mulheres, a função sexual, após uma fase de atividade intensificada, ingressa num processo de involução de grandes conseqüências; tampouco os homens parecem estar isentos de sua influência, pois tanto eles quanto as mulheres estão sujeitos a um ‘climatério’ e às suscetibilidades a doença que o acompanham.

Bem posso imaginar que hipótese dúbia deve parecer a suposição de que o sentimento amistoso de um homem para com seu médico possa repentinamente surgir sob forma intensificada, após um lapso de oito anos, e ocasionar tão grave doença mental. Mas não acho que seja justo pôr de lado tal hipótese simplesmente por causa de sua inerente improbabilidade, se ela se recomenda a nós por outros motivos; devemos antes indagar até onde chegaremos, se a seguirmos. Pois a improbabilidade pode ser de tipo passageiro e devido ao fato de a hipótese duvidosa ainda não ter sido relacionada com outras parcelas de conhecimento, e de ser ela a primeira hipótese com que o problema foi abordado. Mas, em benefício daqueles que são incapazes de manter o julgamento em suspenso e que encaram nossa hipótese como inteiramente insustentável, é fácil sugerir uma possibilidade que a despojaria de seu caráter desconcertante. O sentimento amistoso do paciente para com o médico bem se pode ter devido a um processo de ‘transferência’, por meio do qual uma catexia emocional se transpôs de alguma pessoa que lhe era importante para o médico que, na realidade, era-lhe indiferente; de maneira que o último terá sido escolhido como representante ou substituto de alguém muito mais chegado ao paciente. Para colocar o assunto de forma mais concreta: o paciente lembrou-se de seu irmão ou de seu pai ante a figura do médico; redescobriu-os nele; então, não causará espanto que, em certas circunstâncias, um anseio pela figura substituta reaparecesse nele e operasse com uma violência que só pode ser explicada à luz de sua origem e significação primária.

Com o fito de acompanhar essa tentativa de explicação, naturalmente achei que valeria a pena descobrir se o pai do paciente ainda se achava vivo à época em que ele caiu doente, se tivera um irmão e, nesse caso, se ainda se achava vivo ou entre os ‘abençoados’. Fiquei satisfeito, portanto, quando, após prolongada busca pelas páginas das Denkwürdigkeiten, deparei por fim com uma passagem em que o paciente aplaca estas dúvidas: ‘A memória de meu pai e meu irmão… é tão sagrada para mim como…’ etc. (442.) De modo que ambos eram falecidos por ocasião do desencadeamento de sua segunda doença (e, é possível, também da primeira).

Não levantaremos, portanto, penso eu, novas objeções à hipótese de que a causa ativadora da enfermidade foi o aparecimento de uma fantasia feminina (isto é, homossexual passiva) de desejo, que tomou por objeto a figura do médico. Uma resistência intensa a esta fantasia surgiu por parte da personalidade de Schreber, e a luta defensiva que se seguiu, e que talvez pudesse ter assumido alguma outra forma, tomou, por razões que nos são desconhecidas, a forma de delírio de perseguição. A pessoa por que agora ansiava tornou-se seu perseguidor, e a essência da fantasia de desejo tornou-se a essência da perseguição. Pode-se presumir que o mesmo delineamento esquemático se tornará aplicável a outros casos de delírios de perseguição. O que distingue o caso de Schreber dos outros, contudo, é seu desenvolvimento ulterior, e a transformação que sofreu no decurso deste.

Uma das modificações foi a substituição de Flechsig pela figura superior de Deus. Isto parece, a princípio, um sinal de agravamento do conflito, uma intensificação da perseguição insuportável, mas logo se torna evidente que preparava o caminho para a segunda mudança, e, com esta, a solução do conflito. Era impossível para Schreber resignar-se a representar o papel de uma devassa para com seu médico, mas a missão de fornecer ao Próprio Deus as sensações voluptuosas que Este exigia não provocava tal resistência por parte de seu ego. A emasculação, agora, não era mais uma calamidade; tornava-se ‘consonante com a Ordem das Coisas’, assumia seu lugar numa grande cadeia cósmica de eventos e servia de instrumento para a recriação da humanidade, após a extinção desta. ‘Uma nova raça de homens, nascida do espírito de Schreber’, assim pensava ele, reverenciaria como ancestral esse homem que se acreditava vítima de perseguição. Por esse meio, fornecia-se uma saída que satisfaria ambas as forças em contenda. Seu ego encontrava satisfação na megalomania, enquanto que sua fantasia feminina de desejo avançava e tornava-se aceitável. A luta e a doença podiam cessar. O senso de realidade do paciente, contudo, que nesse meio tempo tornara-se mais forte, compelia-o a adiar a solução do presente para o futuro remoto, e a contentar-se com o que poderia ser descrito como uma realização de desejo assintótica. A qualquer momento, previa ele, sua transformação em mulher ocorreria; até então, a personalidade do Dr. Schreber permaneceria indestrutível.

Em compêndios de psiquiatria, freqüentemente deparamos com afirmações segundo as quais a megalomania pode desenvolver-se a partir de delírios de perseguição. Imagina-se que o processo seja o seguinte: o paciente é primariamente vítima de um delírio de estar sendo perseguido por forças de máximo poder. Sente então necessidade de explicar isto a si próprio e, dessa maneira, ocorre-lhe a idéia de que ele próprio é personagem muito eminente e digna de tal perseguição. O desenvolvimento da megalomania é assim atribuído, pelos livros didáticos, a um processo que (tomando de empréstimo a Ernest Jones [1908] uma palavra útil) podemos descrever como ‘racionalização’. Mas atribuir conseqüências afetivas tão importantes a uma racionalização é, segundo nos parece, procedimento inteiramente não psicológico e, conseqüentemente, traçaríamos a divisão nítida entre nossa opinião e aquela que citamos, dos livros didáticos. Não estamos reivindicando, por enquanto, conhecer a origem da megalomania.

Voltando mais uma vez ao caso de Schreber, somos obrigados a admitir que qualquer tentativa de lançar luz sobre a transformação de seu delírio faz-nos defrontar com dificuldades extraordinárias. De que maneira e por que meios foi realizada a ascensão de Flechsig para Deus? De que fonte derivou ele a megalomania que tão afortunadamente o capacitou a resignar-se a essa perseguição, ou em fraseologia analítica, a aceitar a fantasia de desejo que tivera de ser reprimida? As Denkwürdkeiten dão-nos uma primeira pista, pois mostram-nos que, na mente do paciente, ‘Flechsig’ e ‘Deus’ pertenciam à mesma classe. Numa de suas fantasias, ele escutou por acaso uma conversa entre Flechsig e a esposa deste, na qual o primeiro asseverava ser ‘Deus Flechsig’, de modo que a esposa pensou que ele ficara louco. (82.)

Mas há outro aspecto no desenvolvimento dos delírios de Schreber que exige nossa atenção. Se efetuarmos um levantamento das ilusões como um todo, veremos que o perseguidor se acha dividido em Flechsig e Deus; exatamente da mesma maneira, o próprio Flechsig, subseqüentemente, cinde-se em duas personalidades, o ‘superior’ e o ‘médio’ Flechsig, e Deus, em Deus ‘inferior’ e ‘superior’. Nos estágios posteriores da doença, a decomposição de Flechsig progride ainda mais. (193.)

Um processo de decomposição desse tipo é muito característico da paranóia. A paranóia decompõe, tal como a histeria condensa. Ou antes, a paranóia reduz novamente a seus elementos os produtos das condensações e identificações realizadas no inconsciente. A freqüente repetição do processo de decomposição no caso de Schreber seria, de acordo com Jung, expressão da importância que a pessoa em apreço possuía para ele. Toda essa divisão de Flechsig e Deus em certo número de pessoas possuía assim o mesmo significado que a cisão do perseguidor em Flechsig e Deus. Todas eram duplicações do mesmo importante relacionamento.

Mas, a fim de interpretar todos estes pormenores, temos ainda de chamar atenção para nossa visão da decomposição do perseguidor em Flechsig e Deus como uma reação paranóide a uma identificação previamente estabelecida das duas figuras ou a pertencerem elas à mesma classe. Se o perseguidor Flechsig fora originalmente uma pessoa a quem Schreber amara, então também Deus deveria ser simplesmente o reaparecimento de alguém mais que ele amara, e, provavelmente, alguém de maior importância.

Se acompanharmos essa seqüência de pensamento, que parece ser legítima, seremos levados à conclusão de que esta outra pessoa deve ter sido seu pai; isso torna ainda mais claro que Flechsig deve ter representado o irmão, que, esperemos, pode ter sido mais velho que ele próprio. A fantasia feminina, que despertou uma oposição tão violenta no paciente, tinha assim suas raízes num anseio, intensificado até um tom erótico, pelo pai e pelo irmão. Esse sentimento, na medida em que se referia ao irmão, passou, por um processo de transferência, para o médico, Flechsig; e, quando foi devolvido ao pai, chegou-se a uma estabilização do conflito.

Não acharemos que tivemos razão de introduzir assim o pai de Schreber em seus delírios, a menos que a nova hipótese mostre, ela própria, ser de alguma utilidade para compreensão do caso e a elucidação de pormenores dos delírios que ainda são ininteligíveis. Recordar-se-á que o Deus de Schreber e as relações deste com Ele exibiam as características mais curiosas: como apresentavam uma estranha mistura de crítica blasfema e insubordinação amotinada, por um lado, e de devoção reverente, por outro. Deus, segundo ele, sucumbira à influência desencaminhadora de Flechsig: era incapaz de aprender qualquer coisa pela experiência e não compreendia os homens vivos, porque só sabia lidar com cadáveres, e manifestava o Seu poder numa sucessão de milagres que, por espantosos que fossem, eram, todavia, fúteis e ridículos.

Ora, o pai do Senatspräsident Dr. Schreber não era pessoa insignificante. Era o Dr. Daniel Gottlob Moritz Schreber, cuja memória é mantida viva até os dias de hoje pelas numerosas Associações Schreber que florescem especialmente na Saxônia; e, além disso, era médico. Suas atividades em favor da promoção da criação harmoniosa dos jovens, de assegurar uma coordenação entre a educação no lar e na escola, de introduzir a cultura física e o trabalho manual com vistas a elevar os padrões de saúde, tudo isto exerceu influência duradoura sobre seus contemporâneos. Sua grande reputação como fundador da ginástica terapêutica na Alemanha é ainda comprovada pela ampla circulação de seus Ärztliche Zimmergymnastik nos círculos médicos e pelas numerosas edições que teve.

Um pai como esse de maneira alguma seria inadequado para a transfiguração em Deus na lembrança afetuosa do filho de quem tão cedo havia sido separado pela morte. É verdade que não podemos deixar de achar que existe um abismo intransponível entre a personalidade de Deus e a de qualquer ser humano, por eminente que este possa ser, mas devemos lembrar que isto nem sempre foi assim. Os deuses dos povos da antiguidade achavam-se em relacionamento humano mais estreito com eles. Os romanos costumavam deificar seus imperadores mortos, como questão de rotina, e o Imperador Vespasiano, homem sensato e competente, exclamou quando pela primeira vez caiu doente: ‘Ai de mim! Parece-me que me estou transformando em Deus!’

Estamos perfeitamente familiarizados com a atitude infantil dos meninos para com o pai; ela se compõe da mesma mistura de submissão reverente e insubordinação amotinada que encontramos na relação de Schreber com o seu Deus, e é o protótipo inequívoco dessa relação, fielmente copiada dela. Mas a circunstância de o pai de Schreber ter sido médico, e médico dos mais eminentes, que sem dúvida foi muito respeitado por seus pacientes, é que explica as características mais notáveis de seu Deus e aquelas sobre as quais se demora, de maneira tão crítica. Poderia um escárnio mais acerbo ser demonstrado por um médico, do que declarar que ele nada compreende sobre os homens vivos e só sabe lidar com cadáveres? Sem dúvida, constitui atributo essencial de Deus realizar milagres, mas um médico os realiza também; ele efetua curas miraculosas, como seus clientes entusiásticos proclamam. De maneira que, quando vemos que esses próprios milagres (para os quais o material foi fornecido pela hipocondria do paciente) mostram ser incríveis, absurdos e, até certo ponto, positivamente ridículos, lembramo-nos da asserção feita em A Interpretação de Sonhos, de que o absurdo nos sonhos expressa ridículo e derrisão. Evidentemente, portanto, ele é utilizado com os mesmos propósitos na paranóia. Com referência a algumas das outras censuras que ele dirige contra Deus, tais como, por exemplo, a de que nada aprendeu pela experiência, é natural supor que constituem exemplos do mecanismo tu quoque empregado pelas crianças, que, quando recebem uma reprovação, dirigem-na de volta, inalterada, à pessoa que a originou. Semelhantemente, as vozes dão-nos fundamentos para suspeitar que a acusação de assassinato de alma levantada contra Flechsig foi, desde o início, uma auto-acusação.

Encorajados pela descoberta de que a profissão do pai auxilia a explicar as peculiaridades do Deus de Schreber, aventurar-nos-emos agora a uma interpretação que pode lançar certa luz sobre a extraordinária estrutura desse Ser. O mundo celestial consistia, como sabemos, nos ‘domínios anteriores de Deus’, também chamados de ‘ante-salas do Céu’ e que continham as almas dos mortos, e de deus ‘inferior’ e Deus ‘superior’ que, juntos, constituíam os ‘domínios posteriores de Deus’. (19.) Embora devamos estar preparados para descobrir que existe aqui uma condensação que não poderemos solucionar, todavia vale a pena referir-nos a uma pista que já se acha em nossas mãos. Se os pássaros ‘miraculados’, que se demonstrou serem moças, foram originalmente ante-salas do Céu, não poderá acontecer que os domínios anteriores de Deus e as ante-salas do Céu devam ser encarados como símbolo do que é feminino, e os domínios posteriores de Deus, do que é masculino? Se tivéssemos certeza de que o irmão falecido de Schreber era mais velho que ele, poderíamos supor que a decomposição de Deus em inferior e superior expressava a recordação do paciente de que, após a morte prematura do pai, o irmão mais velho ocupara seu lugar.

Com relação a isso, finalmente, gostaria de chamar a atenção para o tema do Sol, que, através de seus ‘raios’, veio a ter tanta importância na expressão dos delírios. Schreber mantém uma relação bastante peculiar com o Sol. Este lhe fala em linguagem humana, e assim se lhe revela como um ser humano, ou como o órgão de um ser superior, que está por trás dele. (9.) Somos informados, por um relatório médico, de que, em determinada ocasião, Schreber ‘costumava gritar-lhe ameaças e insultos, e positivamente berrar com ele’ (382) e gritar-lhe que deveria rastejar para longe e esconder-se. Ele próprio nos conta que o Sol empalidece na sua frente.

A maneira pela qual o Sol se encontra ligado a seu destino é demonstrada pelas importantes alterações que aquele experimenta logo que ele sofre mudanças, assim como, por exemplo, durante suas primeiras semanas em Sonnenstein. (135.) Schreber facilita-nos a interpretação deste seu mito solar. Ele identifica o Sol diretamente com Deus, às vezes com o Deus inferior (Arimã), outras com o superior. ‘No dia seguinte… vi o Deus superior (Ormuzd), e desta vez não com meus olhos espirituais, mas com os corporais. Era o Sol, mas não o Sol em seu aspecto comum, como é conhecido de todos os homens; era…’ (137-8.) Portanto, não é mais que coerente de sua parte tratá-lo do mesmo modo que trata o Próprio Deus.

O Sol, por conseguinte, nada mais é que outro símbolo sublimado do pai, e, salientando isto, devo declinar de toda responsabilidade pela monotonia das soluções fornecidas pela psicanálise. Neste caso, o simbolismo ignora o gênero gramatical, pelo menos no que concerne ao alemão, pois na maioria das outras línguas o Sol é masculino. Seu correspondente neste quadro dos dois pais é a ‘Terra Mãe’, como é geralmente chamada. Freqüentemente deparamos com confirmações dessa afirmação, ao solucionar as fantasias patogênicas dos neuróticos por meio da psicanálise.

Não posso fazer mais que simples alusão à relação de tudo isso com os mitos cósmicos. Um de meus pacientes, que perdera o pai muito cedo, estava sempre procurando redescobri-lo no que era grande e sublime na Natureza. Desde que soube disto, pareceu-me provável que o hino de Nietzsche, ‘Vor Sonnenaufgang’ (‘Antes do Amanhecer’), constitua expressão do mesmo anseio. Outro paciente, que se tornou neurótico após a morte do pai, foi acometido da primeira crise de ansiedade e tonturas quando o Sol resplandeceu sobre ele, no momento em que estava trabalhando no jardim com uma pá. Apresentou espontaneamente, como interpretação, o fato de se ter assustado porque o pai o olhara enquanto trabalhava na mãe com um instrumento pontudo. Quando me aventurei a uma suave admoestação, deu ar de maior plausibilidade à sua opinião dizendo que, mesmo em vida do pai, ele o havia comparado ao Sol, ainda que em sentido satírico. Sempre que lhe perguntavam onde seu pai ia passar o verão, respondia nestas sonoras palavras do ‘Prólogo no Céu’:
Und seine vorgeschrieb’ne ReiseVollendet er mit Donnergang.

O pai, a conselho médico, costumava fazer uma visita anual a Marienbad. A atitude infantil deste paciente para com ele manifestou-se em duas fases sucessivas. Enquanto o pai estava vivo, revelou-se em rebeldia indomável e franca discórdia, mas, imediatamente após sua morte, assumiu a forma de uma neurose baseada em submissão abjeta e obediência tardia para com ele.

Assim, no caso de Schreber, mais uma vez encontramo-nos no terreno familiar do complexo paterno. A luta do paciente com Flechsig revelou-se a ele como um conflito com Deus, e temos portanto de explicá-la como um conflito infantil com o pai que amava; os pormenores desde conflito (sobre o qual nada sabemos) foram o que determinou o conteúdo de seus delírios. Nenhum material que, em outros casos dessa natureza, é revelado pela análise, acha-se ausente no caso atual: todo elemento é sugerido, de uma maneira ou de outra. Em experiência infantis como essa, o pai interfere com a satisfação que a criança está tentando obter; esta é geralmente de caráter auto-erótico, embora, posteriormente, seja amiúde substituída na fantasia por alguma outra satisfação de tipo menos inglório. No estágio final do delírio de Schreber, vitória magnífica foi alcançada pelo impulso sexual infantil, pois a voluptuosidade tornou-se temente a Deus e o Próprio Deus (o pai) nunca se cansava de exigi-la dele. A ameaça paterna mais temida, a castração, na realidade forneceu o material para sua fantasia de desejo (a princípio combatida mas depois aceita) de ser transformado em mulher. Sua alusão a um delito acobertado pela idéia substituta de ‘assassinato de alma’ não poderia ser mais transparente. Descobriu-se que o assistente-chefe era idêntico a seu vizinho von W., que, conforme as vozes, havia-o falsamente acusado de masturbação. (108.) As vozes diziam, como se fornecendo fundamentos para a ameaça de castração: ‘Pois você deve ser representado como sendo dado a excessos voluptuosos.’ (127-8.)

Finalmente, chegamos ao pensamento forçado (47) a que o paciente se submeteu porque supunha que Deus acreditaria que ele se havia tornado idiota e se afastaria dele se deixasse de pensar por um só momento. Trata-se de reação (com a qual estamos também familiarizados, sob outros aspectos) à ameaça ou temor de perder a razão por entregar-se a práticas sexuais e, especialmente, à masturbação. Considerando o enorme número de idéias delirantes de natureza hipocondríaca que o paciente desenvolveu, talvez não se deva dar grande importância ao fato de algumas delas coincidirem, palavra por palavra, com os temores hipocondríacos dos masturbadores.

Qualquer um que fosse mais audacioso do que eu em efetuar interpretações, ou estivesse em contato com a família de Schreber e, conseqüentemente, mais familiarizado com a sociedade em que se movimentava e com os pequenos fatos de sua vida, acharia fácil remontar inumeráveis pormenores de seus delírios às fontes e descobrir assim seu significado; e isso apesar da censura a que as Denkwürdigkeiten foram submetidas. Sendo como é, porém, devemos necessariamente contentar-nos com este enevoado esboço do material infantil que foi utilizado pelo distúrbio paranóico ao retratar o conflito atual.

Talvez me seja permitido acrescentar umas poucas palavras, com vistas a estabelecer as causas deste conflito que irrompeu em relação à fantasia feminina de desejo. Como sabemos, quando uma fantasia feminina de desejo aparece, nossa tarefa é associá-la com alguma frustração, alguma privação na vida real. Ora, Schreber admite haver sofrido privação deste tipo. Seu casamento, que descreve como feliz, sob outros aspectos, não lhe deu filhos; e, em particular, não lhe trouxe o filho homem que poderia tê-lo consolado da perda do pai e do irmão e sobre quem poderia ter drenado suas afeições homossexuais insatisfeitas. Sua linha familiar ameaçava perecer e parece que ele sentia bastante orgulho de seu nascimento e linhagem: ‘Tanto os Flechsigs quanto os Schrebers eram membros da “mais alta nobreza do Céu”, como diz a expressão. Os Schrebers, em particular, portavam o título de “Margraves da Toscana e Tasmânia”; pois as almas, instigadas por algum tipo de vaidade pessoal, têm o costume de adornar-se com títulos um tanto antissonantes, tomados de empréstimos a este mundo.’ (24.) O grande Napoleão obteve divórcio de Josefina (embora somente após graves lutas internas) porque ela não poderia propagar a dinastia. O Dr. Schreber pode ter formado uma fantasia de que, se fosse mulher, trataria o assunto de ter filhos com mais sucesso; e pode ter assim retornado à atitude feminina em relação ao pai que apresentaria nos primeiros anos de sua infância. Se assim fosse, então o delírio de que, por causa de sua emasculação, o mundo se povoaria de ‘uma nova raça de homens nascidos no espírito de Schreber’ (288) — delírio cuja realização continuamente adiava para um futuro cada vez mais remoto — teria também a intenção de oferecer-lhe uma saída para sua falta de filhos. Se os ‘homenzinhos’ que o próprio Schreber acha tão enigmáticos fossem crianças, então não teríamos dificuldade em compreender por que se achavam reunidos em tão grande número em sua cabeça (158): eles eram, verdadeiramente, os ‘filhos de seu espírito’.

III - SOBRE O MECANISMO DA PARANÓIA

Estivemos até aqui lidando com o complexo paterno, elemento dominante no caso de Schreber, e com a fantasia de desejos em torno da qual a doença se centralizou. Mas, em tudo isso, nada existe de característico da enfermidade conhecida como paranóia, nada que não possa ser encontrado (e que não tenha sido, em verdade, encontrado) em outros tipos de neuroses. O caráter distintivo da paranóia (ou da dementia paranoides) deve ser procurar alhures, a saber, na forma específica assumida pelos sintomas; e esperamos descobrir que esta é determinada, não pela natureza dos próprios complexos, mas pelo mecanismo mediante o qual os sintomas são formados ou a repressão é ocasionada. Tenderíamos a dizer que caracteristicamente paranóico na doença foi o fato de o paciente, para repelir uma fantasia de desejo homossexual, ter reagido precisamente com delírios de perseguição desta espécie.

Estas considerações emprestam, portanto, peso adicional à circunstância de que somos, na realidade, levados pela experiência a atribuir às fantasias de desejo homossexuais uma relação íntima (talvez invariável) com essa forma específica de enfermidade. Duvidando de minha própria experiência no assunto, durante os últimos anos reuni-me a meus amigos C.G. Jung, de Zurique, e Sándor Ferenczi, de Budapest, para pesquisar, sob esta única característica, certo número de casos de distúrbio paranóide que tinham estado sob observação. Os pacientes cujas histórias forneceram o material para esta pesquisa incluíam tanto homens quanto mulheres e variavam quanto à raça, ocupação e posição social. Ainda assim, ficamos estupefatos ao descobrir que, em todos esses casos, uma defesa contra o desejo homossexual era claramente identificável no próprio centro do conflito subjacente à moléstia, e que fora numa tentativa de dominar uma corrente inconscientemente reforçada de homossexualismo que todos eles haviam fracassado.

Isso certamente não era o que havíamos esperado. A paranóia constitui exatamente um distúrbio no qual a etiologia sexual de maneira alguma é óbvia; longe disso, as características notavelmente relevantes na origem da paranóia, particularmente entre indivíduos do sexo masculino, são as humilhações e desconsiderações sociais. Mas, se nos aprofundarmos apenas um pouco mais no assunto, poderemos perceber que o fator realmente eficaz nessas afrontas sociais reside na parte que nelas desempenham os componentes homossexuais da vida emocional. Enquanto o indivíduo age normalmente e é, por conseguinte, impossível perscrutar as profundezas de sua vida psíquica, podemos duvidar que suas relações emocionais com o próximo na sociedade tenham algo a ver com a sexualidade, concretamente ou em sua gênese. Mas os delírios nunca deixam de revelar estas relações e de remontar os sentimentos sociais às suas raízes num desejo erótico positivamente sensual. Enquanto foi sadio, também o Dr. Schreber, cujos delírios culminaram por uma fantasia de desejo de natureza inequivocamente homossexuais, não havia, segundo afirmam todos, demonstrado quaisquer sinais de homossexualismo no sentido comum da palavra.

Esforçar-me-ei agora (e penso que a tentativa não é desnecessária nem injustificável) por demonstrar que o conhecimento dos processos psicológicos, que graças à psicanálise hoje possuímos, já nos permite compreender o papel desempenhado por um desejo homossexual no desenvolvimento da paranóia. Pesquisas recentes dirigiram nossa atenção para um estádio do desenvolvimento da libido, entre o auto-erotismo e o amor objetal. Este estádio recebeu o nome de narcisismo. O que acontece é o seguinte: chega uma ocasião, no desenvolvimento do indivíduo, em que ele reúne seus instintos sexuais (que até aqui haviam estado empenhados em atividades auto-eróticas), a fim de conseguir um objeto amoroso; e começa por tomar a si próprio, seu próprio corpo, como objeto amoroso, sendo apenas subseqüentemente que passa daí para a escolha de alguma outra pessoa que não ele mesmo, como objeto. Essa fase eqüidistante entre o auto-erotismo e o amor objetal pode, talvez, ser indispensável normalmente; mas parece que muitas pessoas se demoram por tempo inusitadamente longo nesse estado e que muitas de suas características são por elas transportadas para os estádios posteriores de seu desenvolvimento.

De importância principal no eu (self) do sujeito assim escolhido como objeto amoroso já podem ser os órgãos genitais. A linha de desenvolvimento, então, conduz à escolha de um objeto externo com órgãos genitais semelhantes — isto é, a uma escolha objetal homossexual — e daí ao heterossexualismo. As pessoas que se tornam homossexuais manifestas mais tarde, nunca se emanciparam, pode-se presumir, da condição obrigatória de que o objeto de sua escolha deve possuir órgãos genitais como os seus; e, com relação a isto, as "teorias" sexuais infantis [isto é, as crenças das crianças pequenas sobre sexualidade] que atribuem o mesmo tipo de órgãos genitais a ambos os sexos exercem muita influência. [Cf. Freud, 1908c.]

Após o estádio de escolha objetal heterossexual ter sido atingido, as tendências homossexuais [presentes em todos os seres humanos] não são, como se poderia supor, postas de lado ou interrompidas; são simplesmente desviadas de seu objetivo sexual e aplicadas a novas utilizações. Combinam-se agora com partes dos instintos do ego e, como componentes ‘ligados’, ajudam a constituir os instintos sociais, contribuindo assim como um fator erótico para a amizade e a camaradagem, para o esprit de corps e o amor à humanidade em geral. Quão grande é a contribuição realmente derivada de fontes eróticas (com o objetivo sexual inibido) dificilmente poder-se-ia adivinhar pelas relações sociais normais da humanidade. Mas não é irrelevante observar que são precisamente os homossexuais manifestos, e entre eles exatamente aqueles que se colocam contra a tolerância quanto a atos sensuais, que se distinguem por participação particularmente ativa nos interesses gerais da humanidade — interesses que por si mesmo se originaram de uma sublimação de instintos eróticos.

Em meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, expressei a opinião de que cada estádio no desenvolvimento da psicossexualidade fornece uma possibilidade de ‘fixação’, e, assim, de um ponto disposicional. As pessoas que não se libertaram completamente do estádio de narcisismo — que, equivale a dizer, têm nesse ponto uma fixação que pode operar como disposição para uma enfermidade posterior — acham-se expostas ao perigo de que alguma vaga de libido excepcionalmente intensa, não encontrando outro escoadouro, possa conduzir a uma sexualização de seus instintos sociais e desfazer assim as sublimações que haviam alcançado no curso de seu desenvolvimento. Este resultado pode ser produzido por qualquer coisa que faça a libido fluir regressivamente (isto é, que causa uma ‘regressão’): quer, por um lado, a libido se torne colateralmente reforçada, devido a algum desapontamento com uma mulher, ou seja diretamente represada devido a um infortúnio nas relações sociais com outros homens, ambos os casos sendo exemplos de ‘frustração’; quer, por outro lado, haja uma intensificação geral da libido, de maneira que ela se torne poderosa demais para encontrar um escoadouro ao longo dos canais que já lhe estão abertos, e, conseqüentemente, irrompa por suas margens no ponto mais fraco.

Visto nossas análises demonstrarem que os paranóicos se esforçam por proteger-se contra esse tipo de sexualização de suas catexias sociais instintuais, somos levados a supor que o ponto fraco em seu desenvolvimento deve ser procurado em algum lugar entre os estádios de auto-erotismo, narcisismo e homossexualismo, e que sua disposição à enfermidade (que talvez seja suscetível de definição mais precisa) deve estar localizada nessa região. Uma disposição semelhante teria de ser atribuída aos pacientes que sofrem da demência precoce de Kraepelin ou de (como Bleuler a denominou esquizofrenia); e esperamos, posteriormente, encontrar pistas que nos permitam remontar às diferenças entre os dois distúrbios (com referência tanto à forma que assumem quanto ao curso que seguem), a diferenças correspondentes nas fixações disposicionais dos pacientes.

Assumindo então o ponto de vista de que o que jaz no cerne do conflito, nos casos de paranóia entre indivíduos do sexo masculino, é uma fantasia de desejo homossexual de amar um homem, certamente não esqueceremos que a confirmação de hipótese tão importante só pode decorrer da investigação de um grande número de exemplos de toda espécie de distúrbio paranóide. Temos, portanto, de estar preparados, se preciso for, para limitar nossa assertiva a um único tipo de paranóia. Não obstante, constitui fato notável que as principais formas de paranóia conhecidas podem ser todas representadas como contradições da proposição única ‘eu (um homem) o amo (um homem)’, e que, na verdade, exaurem todas as maneiras possíveis em que tais contradições poderiam ser formuladas.

A proposição ‘eu (um homem) o amo’ é contraditada por:

(a) Delírios de perseguição, pois eles ruidosamente asseveram:
‘Eu não o amo — Eu o odeio.’
Esta contradição, que deve ter sido enunciada assim no inconsciente, não pode, contudo, tornar-se consciente para um paranóico sob essa forma. O mecanismo de formação de sintomas na paranóia exige que as percepções internas — sentimentos — sejam substituídas por percepções externas. Conseqüentemente, a proposição ‘eu o odeio’ transforma-se, por projeção, em outra: ‘Ele me odeia (persegue), o que me desculpará por odiá-lo.’ E, assim, o sentimento inconsciente compulsivo surge como se fosse a conseqüência de uma percepção externa:
‘Eu não o amo — eu o odeio, porque ele me persegue.’
A observação não deixa lugar para dúvidas de que o perseguidor é alguém que foi outrora amado.

(b) Outro elemento é escolhido para a contradição na erotomania, que permanece totalmente ininteligível sob qualquer outro ponto de vista:
‘Eu não o amo — eu a amo.’
E, em obediência à mesma necessidade de projeção, a proposição é transformada em: ‘Eu noto que ela me ama.’
‘Eu não o amo — eu a amo, porque ela me ama.’
É possível a muitos casos de erotomania dar a impressão de que poderiam ser satisfatoriamente explicados como fixações heterossexuais exageradas ou deformadas, se nossa atenção não fosse atraída pela circunstância de que essas afeições começam invariavelmente não por qualquer percepção interna de amar, mas por uma percepção externa de ser amado. Nessa forma de paranóia, porém, a proposição intermediária ‘eu a amo’ também se pode tornar consciente, porque a contradição entre ela e a proposição original não é diametral nem tão irreconciliável como a existente entre amor e ódio; afinal de contas, é possível amar tanto ela quanto ele. Assim, pode acontecer que a proposição que foi substituída por projeção (‘ela me ama‘) abra caminho novamente para a proposição da ‘língua básica’ ‘eu a amo’.

(c) A terceira modalidade pela qual a proposição original pode ser contraditada seria por delírios de ciúme, que podemos estudar nas formas características sob que aparecem em cada sexo.

Delírios alcoólicos de ciúme. O papel desempenhado pelo álcool nesse distúrbio é, sob todos os aspectos, inteligível. Sabemos que aquela fonte de prazer [o álcool] afasta inibições e desfaz sublimações. Não é raro que o desapontamento com uma mulher leve um homem a beber — mas isso significa, geralmente, que ele recorre ao bar e à companhia de homens, que lhe proporcionam a satisfação emocional que deixou de conseguir de sua mulher em casa. Se então esses homens se tornarem os objetos de uma forte catexia libidinal em seu inconsciente, ele a repelirá com o terceiro tipo de contradição:
‘Não sou eu quem ama o homem — ela o ama’, e suspeita da mulher em relação a todos os homens a quem ele próprio é incitado a amar.
A deformação por meio da projeção acha-se necessariamente ausente nesse caso, visto que, com a mudança do sujeito que ama, todo o processo é, de qualquer modo, lançado para fora do ego. O fato de a mulher amar os homens constitui matéria de percepção externa para ele, ao passo que os fatos de que ele próprio não ama, mas odeia, ou de que ele mesmo ama, não esta, mas aquela pessoa, são assuntos de percepção interna.

* Os delírios de ciúme nas mulheres são exatamente análogos.
‘Não sou eu quem ama as mulheres — ele as ama.’ A mulher ciumenta suspeita do marido em relação a todas as mulheres por quem ela própria é atraída, devido ao seu homossexualismo e ao efeito disposicional de seu narcisismo excessivo. A influência da época da vida em que sua fixação ocorreu é claramente demonstrada pela seleção dos objetos amorosos que imputa ao marido; são amiúde velhas e inteiramente inapropriadas para uma relação amorosa real — revivescência das babás, criadas e meninas que foram suas amigas na infância, ou das irmãs, que foram suas rivais verdadeiras.

Ora, poder-se-ia supor que uma proposição composta de três termos, tal como ‘eu o amo‘, só pudesse ser contestada por três maneiras diferentes. Os delírios de ciúme contradizem o sujeito, os delírios de perseguição contradizem o predicado, e a erotomania contradiz o objeto. Na realidade, porém, é possível um quarto tipo de contradição — a saber, aquele que rejeita a proposição como um todo:
Não amo de modo algum — não amo ninguém‘. E visto que, afinal de contas, a libido tem de ir para algum lugar, essa proposição parece ser o equivalente psicológico da proposição: ‘Eu só amo a mim mesmo’. Desta maneira, esse tipo de contradição dar-nos-ia a megalomania, que podemos encarar como uma supervalorização sexual do ego e ser assim colocada ao lado da supervalorização do objeto amoroso, com a qual já nos achamos familiarizados.

É de alguma importância, com relação a outras partes da teoria da paranóia, observar que podemos detectar um elemento de megalomania na maioria das outras formas de distúrbio paranóide. É justo presumir que a megalomania é essencialmente de natureza infantil e que, à medida que o desenvolvimento progride, ela é sacrificada às considerações sociais. Do mesmo modo, a megalomania de um indivíduo nunca é tão veementemente abafada como quando ele se acha em poder de um amor irresistível:
Denn wo die Lieb’ erwachet, stirbt
das Ich, der finstere Despot.

Após este exame do papel inesperadamente importante desempenhado pelas fantasias de desejo homossexuais na paranóia, retornemos aos dois fatores em que esperávamos, desde o princípio, encontrar os sinais característicos da paranóia, a saber, o mecanismo pelo qual os sintomas são formados e o mecanismo pelo qual a repressão é ocasionada.

Certamente não temos direito de começar por presumir que estes dois mecanismos são idênticos e que a formação de sintomas segue o mesmo caminho que a repressão, cada qual avançando ao longo dele, talvez, em direção oposta. Tampouco parece haver qualquer grande possibilidade de que tal identidade exista. Não obstante, abster-nos-emos de expressar qualquer opinião sobre o assunto até termos completado nossa pesquisa.

A característica mais notável da formação de sintomas na paranóia é o processo que merece o nome de projeção. Uma percepção interna é suprimida e, ao invés, seu conteúdo, após sofrer certo tipo de deformação, ingressa na consciência sob a forma de percepção externa. Nos delírios de perseguição, a deformação consiste numa transformação do afeto; o que deveria ter sido sentido internamente como amor é percebido externamente como ódio.

Deveríamos sentir-nos tentados a encarar esse processo notável como o elemento mais importante na paranóia e dela absolutamente patognomônico, se oportunamente não nos lembrássemos de duas coisas. Em primeiro lugar, a projeção não desempenha o mesmo papel em todas as formas de paranóia; e, em segundo, ela faz seu aparecimento não apenas na paranóia mas também sob outras condições psicológicas, e de fato é-lhe concedida participação regular em nossa atitude para com o mundo externo. Pois, quando atribuímos as causas de certas sensações ao mundo externo, ao invés de procurá-las (como fazemos no caso dos outros) dentro de nós mesmos, esse procedimento normal também merece ser chamado de projeção.

Cientes de que problemas psicológicos mais gerais acham-se envolvidos na questão da natureza da projeção, decidamos adiar sua investigação (e, com ela, a do mecanismo da formação paranóide de sintomas em geral) para outra ocasião, e passemos agora a considerar que idéias podemos reunir sobre o tema do mecanismo da repressão na paranóia. Gostaria de dizer ao mesmo tempo, para justificar esta renúncia temporária, que descobriremos que a maneira pela qual o processo de repressão ocorre acha-se muito mais intimamente vinculada à história do desenvolvimento da libido e à disposição a que ele dá origem, do que a maneira pela qual os sintomas se formam.

Na psicanálise, acostumamo-nos a encarar os fenômenos patológicos como derivados, de maneira geral, da repressão. Se examinarmos mais de perto o que é chamado de ‘repressão’, encontraremos razões para dividir o processo em três fases que são facilmente distinguíveis uma da outra, conceptualmente.

(1) A primeira fase consiste na fixação, que é a precursora e condição necessária de toda ‘repressão’. A fixação pode ser descrita da seguinte maneira: determinado instinto ou componente instintual deixa de acompanhar os demais ao longo do caminho normal previsto de desenvolvimento, e, em conseqüência desta inibição em seu desenvolvimento, é deixado para trás, num estádio mais infantil. A corrente libidinal em apreço comporta-se então, em relação a estruturas psicológicas posteriores, como se pertencesse ao sistema do inconsciente, como reprimida. Já demonstramos que essas fixações instintuais constituem a base para a disposição à enfermidade subseqüente, e podemos agora acrescentar que elas constituem, acima de tudo, a base para a determinação do resultado da terceira fase da repressão.

(2) A segunda fase da repressão é a da repressão propriamente dita — fase à qual foi dada, até aqui, a máxima atenção. Provém dos sistemas mais altamente desenvolvidos do ego — sistemas capazes de serem conscientes — e pode, na realidade, ser descrita como um processo de ‘pós-pressão’. Aparenta ser um processo essencialmente ativo, ao passo que a fixação parece de fato constituir um retardamento passivo. Podem sofrer repressão quer os derivados psíquicos dos instintos retardados originais, quando estes se reforçam e entram assim em conflito com o ego (ou instintos egossintônicos), quer tendências psíquicas que, por outras razões, despertaram uma forte aversão. Mas esta aversão, em si própria, não conduziria à repressão, a menos que alguma vinculação tenha sido estabelecida e entre as tendências indesejáveis que têm de ser reprimidas e aquelas que já o foram. Onde isso acontece, a repulsa exercida pelo sistema consciente e a atração exercida pelo inconsciente tendem na mesma direção, no sentido de ocasionar a repressão. As duas possibilidades que são aqui isoladamente tratadas podem, talvez, ser menos nitidamente diferençadas na prática, e a distinção entre elas pode depender simplesmente do maior ou menor grau em que os instintos primariamente reprimidos contribuem para o resultado.

(3) A terceira fase, e a mais importante no que se refere aos fenômenos patológicos, é a do fracasso da repressão, da irrupção, do retorno do reprimido. Esta irrupção toma seu impulso do ponto de fixação, e implica uma regressão do desenvolvimento libidinal a esse ponto.

Já aludimos à multiplicidade dos pontos possíveis de fixação; existem na realidade, tantos quantos são os estádios no desenvolvimento da libido. Devemos estar preparados para encontrar uma multiplicidade semelhante de mecanismos da repressão propriamente dita e de mecanismos de irrupção (ou de formação de sintomas), e já podemos começar a suspeitar que não será possível remontar todas essas multiplicidades somente à história desenvolvimental da libido.

É fácil perceber que esse exame está começando a invadir o problema da ‘escolha da neurose’, que, contudo, não pode ser abordado até que um trabalho preliminar de outro tipo tenha sido realizado. Mantenhamos em mente, por enquanto, que já tratamos da fixação, e que adiamos o assunto da formação de sintomas; e restrinjamo-nos à questão de saber se a análise do caso de Schreber lança alguma luz sobre o mecanismo da repressão propriamente dita que predomina na paranóia.

No clímax de sua moléstia, sob a influência de visões que eram ‘parcialmente de caráter terrificante, mas em parte, também, de grandeza indescritível’ (73), Schreber convenceu-se da iminência de uma grande catástrofe, do fim do mundo. Vozes disseram-lhe que o trabalho dos 14.000 anos passados viera agora a dar em nada, e que o período de vida concedido à Terra era apenas 212 anos mais (71); durante a última parte de sua estada na clínica de Flechsig, acreditou que esse período já havia passado. Ele próprio era ‘o único homem real deixado vivo’ e as poucas formas humanas que ainda via — o médico, os assistentes, os outros pacientes — explicava-as como ‘miraculadas, homens apressadamente improvisados.’ Ocasionalmente, a corrente inversa de sentimento também aparecia: foi colocado em suas mãos um jornal no qual havia um comunicado de sua própria morte (81); ele próprio existia sob forma secundária, inferior, e sob esta forma secundária, certo dia tranqüilamente faleceu (73). Mas a forma de seu delírio, em que seu ego era mantido e o mundo sacrificado, mostrou ser, de longe, a mais poderosa.

Ele tinha várias teorias sobre a causa da catástrofe. Certa ocasião, teve em mente um processo de glaciação devido a retirada do Sol; em outra, seria a destruição por um terremoto, ocorrência na qual ele, com sua capacidade de ‘vidente de espíritos’, deveria representar papel dominante, tal como se alega que outro vidente desempenhou no terremoto de Lisboa de 1755. (91.) Ou, então, Flechsig era o culpado, visto que através de suas artes mágicas semeara o medo e o terror entre os homens, destruíra os fundamentos da religião e disseminara distúrbios nervosos gerais e imoralidades, de modo que pestilências devastadoras se haviam abatido sobre a humanidade. (91.) Em qualquer caso, o fim do mundo era a conseqüência do conflito que irrompera entre ele Flechsig ou, de acordo com a etiologia adotada na segunda fase de seu delírio, do vínculo indissolúvel que se formara entre ele e Deus; era, na realidade, o resultado inevitável de sua doença.

Anos após, quando o Dr. Schreber retornou à sociedade humana, e não podia encontrar os livros, nas partituras musicais ou nos outros artigos de uso cotidiano que lhe caíam mais uma vez nas mãos traço algum que corroborasse sua teoria de que tinha havido um hiato de imensa duração na história da humanidade, ele admitiu que sua opinião não era mais sustentável: ‘Não posso mais evitar reconhecer que, considerado externamente, tudo está como costumava ser. Se, todavia, não pode ter havido uma profunda mudança interna é uma questão a que retornarei mais tarde.’ (84-5.) Ele não se podia permitir duvidar que, durante sua moléstia, o mundo havia chegado ao fim e que, apesar de tudo, aquele que agora via diante de si era um mundo diferente.

Uma catástrofe mundial deste tipo não é infreqüente durante o estádio agitado em outros casos de paranóia. Se nos basearmos em nossa teoria da catexia libidinal, e seguirmos a sugestão dada pela visão que Schreber tinha das outras pessoas como ‘homens apressadamente improvisados’, não acharemos difícil explicar estas catástrofes. O paciente retirou das pessoas de seu ambiente, e do mundo externo em geral, a catexia libidinal que até então havia dirigido para elas. Assim, tudo tornou-se indiferente e irrelevante para ele, e tem de ser explicado através de uma racionalização secundária, como ‘miraculado, apressadamente improvisado’. O fim do mundo é a projeção dessa catástrofe interna; seu mundo subjetivo chegou ao fim, desde o retraimento de seu amor por ele.

Após Fausto ter pronunciado as maldições que o liberam do mundo, o coro dos Espíritos canta:
Weh! Weh!
Du hast sie zerstort,
die schöne Welt,
mit mächtiger Faust!
sie stürzt, sie zerfällt!
Ein Halbgott hat sie zerschlagen!
…………………………………
Mächtiger
der Erdensöhne,
Prächtiger
baue sie wieder,
in deinem Busen baue sie auf!

E o paranóico constrói-o de novo, não mais esplêndido, é verdade, mas pelo menos de maneira a poder viver nele mais uma vez. Constrói-o com o trabalho de seus delírios. A formação delirante, que presumimos ser o produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução. Tal reconstrução após a catástrofe é bem sucedida em maior ou menor grau, mas nunca inteiramente; nas palavras de Schreber, houve uma ‘profunda mudança interna’ no mundo. Mas o indivíduo humano recapturou uma relação, e freqüentemente uma relação muito intensa, com as pessoas e as coisas do mundo, ainda que esta seja agora hostil, onde anteriormente fora esperançosamente afetuosa.

Podemos dizer, então, que o processo da repressão propriamente dita consiste num desligamento da libido em relação às pessoas — e coisas — que foram anteriormente amadas. Acontece silenciosamente; dele não recebemos informações, só podemos inferi-lo dos acontecimentos subseqüentes. O que se impõe tão ruidosamente à nossa atenção é o processo de restabelecimento, que desfaz o trabalho da repressão e traz de volta novamente a libido para as pessoas que ela havia abandonado. Na paranóia, este processo é efetuado pelo método da projeção. Foi incorreto dizer que a percepção suprimida internamente é projetada para o exterior; a verdade é, pelo contrário, como agora percebemos, que aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora. O exame completo do processo de projeção, que adiamos para outra ocasião, esclarecerá as dúvidas remanescentes sobre o assunto.

Entrementes, contudo, constitui fonte de alguma satisfação descobrir que o conhecimento que acabamos de adquirir nos envolve em várias argumentações adicionais.

(1) Nossa primeira reflexão revelar-nos-á que não é possível que esse desligamento da libido ocorra exclusivamente na paranóia; tampouco pode acontecer que, em outra parte que ocorra, tenha as mesmas conseqüências desastrosas. É bem possível que um desligamento da libido seja o mecanismo essencial e regular de toda repressão. Não podemos ter conhecimento positivo sobre esse ponto até que as outras perturbações que se baseavam na repressão tenham sido similarmente examinadas. Mas é certo que, na vida mental normal (e não apenas em períodos de luto), estamos constantemente desligando nossa libido, desta maneira, de pessoas ou de outros objetos, sem cairmos enfermos. Quando Fausto se libertou do mundo pela enunciação de suas maldições, o resultado não foi uma paranóia ou qualquer outra neurose, mas simplesmente uma exata estrutura geral da mente.

Por conseguinte, o desligamento da libido não pode, em si próprio, ser o fator patogênico na paranóia; tem de haver alguma característica especial que distinga o desligamento paranóico da libido dos outros tipos. Não é difícil sugerir qual possa ser essa característica. Que emprego se faz da libido após ela ter sido liberada pelo processo de desligamento? Uma pessoa normal começará imediatamente a procurar um substituto para a ligação perdida e, até que esse substituto seja encontrado, a libido liberada será mantida em suspenso dentro da mente, e aí dará origem a tensões e alterará o seu humor. Na histeria, a libido liberada transforma-se em inervações somáticas ou em ansiedade. Na paranóia, porém, a evidência clínica vai demonstrar que a libido, após ter sido retirada do objeto, é utilizada de modo especial. Recordar-se-á que a maioria dos casos de paranóia exibe traços de megalomania, e que a megalomania pode, por si mesma, constituir uma paranóia. Disto pode-se concluir que, na paranóia, a libido liberada vincula-se ao ego e é utilizada para o engrandecimento deste. Faz-se assim um retorno ao estádio do narcisismo (que reconhecemos como estádio do desenvolvimento da libido), no qual o único objeto sexual de uma pessoa é seu próprio ego. Com base nesta evidência clínica, podemos supor que os paranóicos trouxeram consigo uma fixação no estádio do narcisismo, e podemos asseverar que a extensão do retrocesso do homossexualismo sublimado para o narcisismo constitui medida da quantidade de regressão característica da paranóia.

(2) Objeção igualmente plausível pode-se basear na história clínica de Schreber, bem como em muitas outras. Pois pode-se alegar que os delírios de perseguição (que eram dirigidos contra Flechsig) inquestionavelmente surgiram em data anterior à da fantasia de fim do mundo; de maneira que o que se supõe ter sido um retorno do reprimido, realmente precedeu a própria repressão … o que é absurdo patente. A fim de enfrentar esta objeção, temos de abandonar o campo elevado da generalização e descer à consideração pormenorizada das circunstâncias concretas, que são, indubitavelmente, muitíssimo mais complicadas.

Temos de admitir a possibilidade de que um desligamento da libido como o que estamos examinando pudesse ser tanto parcial — um recuo a partir de algum complexo isolado — quanto geral. Um desligamento parcial seria, de longe, o mais comum dos dois, e deveria preceder o geral, visto que, inicialmente, é apenas para o desligamento parcial que as influências da vida fornecem motivo. O processo pode então interromper-se no estádio de um desligamento parcial ou pode estender-se ao geral, que em alta voz proclamará sua presença nos sintomas da megalomania.

Dessa maneira, o desligamento da libido em relação à figura de Flechsig pode, não obstante, ter constituído o elementar no caso de Schreber; foi imediatamente seguido pelo aparecimento do delírio, que trouxe a libido de volta novamente para Flechsig (embora com sinal negativo, para assinalar o fato de que a repressão se efetuara) e anulou assim o trabalho da repressão. E então a batalha da repressão irrompe de novo, mas desta vez com armas mais poderosas. Na proporção em que o objeto de disputa se tornou a coisa mais importante do mundo externo, tentando, por um lado, arrastar a totalidade da libido para si, e, por outro, mobilizando todas as resistências contra si, assim também a luta que se trava em torno desse objeto único tornou-se cada vez mais comparável a um conflito geral; até que, por fim, uma vitória para a forças da repressão expressou-se na convicção de que o mundo chegara ao fim e de que somente o eu sobrevivia.

Se passarmos em revista as engenhosas construções erigidas pelo delírio de Schreber no campo da religião — a hierarquia de Deus, as almas provadas, as antes-salas do Céu, o Deus inferior e o superior — podemos avaliar, retrospectivamente, a quantidade de sublimações transformadas em ruínas pela catástrofe do desligamento geral da libido.

(3) Uma terceira consideração que surge das opiniões desenvolvidas nestas páginas é a seguinte: devemos supor que um desligamento geral da libido do mundo externo constitua agente eficaz o bastante para explicar o ‘fim do mundo’? Ou as catexias pelo ego ainda efetivas não teriam sido suficientes para manter rapport com o mundo externo?

Para enfrentar esta dificuldade, teríamos ou de presumir que aquilo que chamamos de catexia libidinal (isto é, um interesse que emana de fontes eróticas) coincide com o interesse em geral, ou de considerar a possibilidade de que um distúrbio muito disseminado na distribuição da libido possa ocasionar perturbação correspondente nas catexias pelo ego. Mas estes são problemas que ainda nos achamos inteiramente impotentes e incompetentes para resolver. Seria diferente se pudéssemos partir de alguma teoria bem fundamentada dos instintos, mas, na realidade, nada disso possuímos à nossa disposição. Consideramos o instinto como sendo o conceito sobre a fronteira entre o somático e o mental, e vemos nele o representante psíquico de forças orgânicas. Ademais, aceitamos a distinção popular entre instintos do ego e instinto sexual, pois tal distinção parece concordar com a concepção biológica de que o indivíduo possui dupla orientação, visando, por um lado, à autopreservação e, por outro, à preservação da espécie.

Além disso, porém, existem apenas hipóteses, que encampamos — e estamos inteiramente prontos a abandonar de novo — para que nos ajudassem a encontrar orientação no caso dos processos mais obscuros da mente. O que esperamos das investigações psicanalíticas dos processos patológicos mentais é exatamente que nos levem a algumas conclusões sobre questões vinculadas à teoria dos instintos. Estas investigações, contudo, acham-se no começo, e são realizadas apenas por pesquisadores isolados, de maneira que as esperanças que nelas depositamos devem ainda permanecer irrealizadas. Não podemos mais pôr de lado a possibilidade de que distúrbios da libido reajam sobre as catexias pelo ego. Na verdade, é provável que processos deste tipo constituam a característica istintiva das psicoses.

O quanto de tudo isso se pode aplicar à paranóia é impossível dizer presentemente. Existe uma consideração, contudo, que gostaria de acentuar. Não se pode asseverar que um paranóico, mesmo no auge da repressão, retire completamente seu interesse do mundo externo — como se julga ocorrer em alguns outros tipos de psicose alucinatória (tais como a amência de Meynert). O paranóico percebe o mundo externo e leva em consideração quaisquer alterações que nele possam acontecer, e o efeito que aquele lhe causa estimula-o a inventar teorias explanatórias (tais como os ‘homens apressadamente improvisados’, de Schreber). Parece-me, portanto, muito mais provável que a relação alterada do paranóico com o mundo deva ser explicada inteira ou principalmente pela perda de seu interesse libidinal.

(4) É impossível evitar perguntar, em vista da estreita vinculação entre os dois distúrbios, até onde esta concepção de paranóia afetará a nossa concepção de demência precoce. Sou de opinião que Kraepelin estava inteiramente justificado em tomar a medida de separar grande parte do que até então havia sido chamado de paranóia e fundi-la, junto com a catatonia e certas outras formas de doença, numa nova entidade clínica — embora ‘demência precoce’ fosse um nome particularmente infeliz de se escolher para ela.

A designação escolhida por Bleuler para o mesmo grupo de formas — ‘esquizofrenia’ — acha-se também exposta à objeção, de que o nome parece apropriado contanto que esqueçamos seu significado literal, pois, de outro modo, ele cria prevenção contra o assunto, visto basear-se numa característica da moléstia postulada teoricamente — característica, além disso, que não pertence exclusivamente a essa doença, e que, à luz de outras considerações, não pode ser encarada como sendo a essencial.

Em geral, contudo, não são de muito grande importância as denominações, que damos aos quadros clínicos. O que me parece mais essencial é que a paranóia deve ser mantida com um tipo clínico independente, por mais freqüentemente que o quadro que ofereça possa ser complicado pela presença de características esquizofrênicas. Do ponto de vista da teoria da libido, embora se assemelhe à demência precoce na medida em que a repressão propriamente dita em ambas as moléstias teria o mesmo aspecto principal — desligamento da libido, juntamente com sua regressão para o ego —, ela se distinguiria da demência precoce por ter sua fixação disposicional diferentemente localizada e por possuir um mecanismo diverso para o retorno do reprimido (isto é, para a formação de sintomas).

Parecer-me-ia plano mais conveniente dar à demência precoce o nome de parafrenia. Este termo não possui conotação especial e serviria para indicar um relacionamento com a paranóia (nome que não pode ser modificado) e, além disso, relembraria a hebefrenia, entidade que hoje se acha fundida com a demência precoce. É verdade que o nome já foi proposto para outros fins, mas isto não precisa nos preocupar, visto que as aplicações alternativas ainda não passaram para uso geral.

Abraham muito convincentemente demonstrou que o afastamento da libido do mundo externo é uma característica particular e claramente marcada da demência precoce. Desta característica inferimos que a repressão é efetuada por meio do desligamento da libido. Aqui, mais uma vez, podemos considerar a fase de alucinações violentas como uma luta entre a repressão e uma tentativa de restabelecimento, por devolver a libido novamente a seus objetos. Jungcom extraordinário acume analítico, percebeu que os delírios (delíria) e estereótipos motores que ocorrem nessa perturbação são os resíduos de antigas catexias objetais, que se apegam com grande persistência.

Essa tentativa de restabelecimento, que os observadores equivocadamente tomam pela própria doença, não faz uso da projeção, como na paranóia, mas emprega um mecanismo alucinatório (histérico). Este é um dos principais aspectos em que a demência precoce difere da paranóia e esta diferença pode ser geneticamente explicada a partir de outro ângulo.

A segunda diferença é demonstrada pelo resultado da doença naqueles casos em que o processo não permaneceu demasiadamente restrito. O prognóstico, em geral, é mais desfavorável do que na paranóia. A vitória fica com a reconstrução. A regressão estende-se não simplesmente ao narcisismo (manifestando-se sob a forma de megalomania), mas a um completo abandono do amor objetal e um retorno ao auto-erotismo infantil. A fixação disposicional deve, portanto, achar-se situada mais atrás do que na paranóia, e residir em algum lugar no início do curso do desenvolvimento entre o auto-erotismo e o amor objetal. Além disso, não é de modo algum provável que impulsos homossexuais, tão freqüentemente — talvez invariavelmente — encontrados na paranóia, desempenham papel igualmente importante na etiologia dessa enfermidade muito mais abrangente, a demência precoce.

Nossas hipóteses quanto às fixações disposicionais na paranóia e na parafrenia tornam fácil perceber que um caso pode começar por sintomas paranóides e, apesar disso, transformar-se em demência precoce, e que fenômenos paranóides e esquizofrênicos podem achar-se combinados em qualquer proporção. E podemos compreender como um quadro clínico como o de Schreber pode ocorrer, e merecer o nome de demência paranóide, a partir do fato de que, na produção de uma fantasia de desejo e de alucinações, ele apresenta traços parafrênicos, enquanto que, na causa ativadora, no emprego do mecanismo da projeção, e no desfecho, exibe um caráter paranóide. Porque é possível que diversas fixações sejam abandonadas no curso do desenvolvimento, e cada uma delas, sucessivamente, pode permitir uma irrupção da libido que havia sido impelida para fora — começando talvez com as últimas fixações adquiridas, e passando, à medida que a moléstia se desenvolve, às originais, que se acham mais perto do ponto de partida.

Gostaríamos de saber a que condições o resultado relativamente favorável do presente caso se deve; pois não podemos de bom grado atribuir toda a responsabilidade pelo desfecho a algo tão casual quanto a ‘melhora devido à mudança de domicílio’, que se estabeleceu após a remoção do paciente da clínica de Flechsig. Mas nosso conhecimento insuficiente das circunstâncias íntimas da história clínica torna impossível fornecer resposta a essa interessante questão. Pode-se suspeitar, contudo, que aquilo que capacitou Schreber a reconciliar-se com sua fantasia homossexual, e possibilitou à sua moléstia terminar em algo que se aproxima de um restabelecimento, pode ter sido o fato de que seu complexo paterno se achava, principalmente, afinado de maneira positiva, e que, na vida real, os anos finais de seu relacionamento com um pai excelente provavelmente não foram tempestuosos.

Visto não temer a crítica dos outros nem esquivar-me de criticar a mim próprio, não tenho motivos para evitar a menção de uma semelhança que tem possibilidade de prejudicar nossa teoria da libido na opinião de muitos de meus leitores. Os ‘raios de Deus’ de Schreber, que se constituíam de uma condensação de raios de Sol, fibras nervosas e espermatozóides, nada mais são, na realidade, que uma representação concreta e uma projeção para o exterior de catexias libidinais, e emprestam assim a seus delírios uma conformidade marcante com nossa teoria. A crença de que o mundo deveria acabar porque seu ego estava atraindo todos os raios para si, a preocupação ansiosa num período posterior, durante o processo de reconstrução, de que Deus rompesse Sua vinculação de raios com ele — esses e muitos outros pormenores da estrutura delirante de Schreber soam quase como percepções endo-psíquicas dos processos cuja existência presumi nestas páginas, como base de nossa explicação da paranóia. Posso, não obstante, invocar um amigo e colega especialista para testemunhar que desenvolvi minha teoria da paranóia antes de me familiarizar com o conteúdo do livro de Schreber. Compete ao futuro decidir se existe mais delírio em minha teoria do que eu gostaria de admitir, ou se há mais verdade no delírio de Schreber do que outras pessoas estão, por enquanto, preparadas para acreditar.

Por fim, não posso concluir o presente trabalho — que, mais uma vez, constitui apenas fragmento de um todo maior — sem prenunciar as duas teses principais no sentido de cujo estabelecimento a teoria da libido das neuroses e das psicoses está avançando: a saber, que as neuroses surgem, principalmente, de um conflito entre o ego e o instinto sexual, e que as formas que elas assumem guardam a marca do curso do desenvolvimento seguido pela libido — e pelo ego.

PÓS-ESCRITO (1912)

Ao lidar com a história clínica do Senatspräsident Schreber, propositadamente restringi-me a um mínimo de interpretação; e sinto-me confiante de que todo leitor com um conhecimento de psicanálise terá apreendido, a partir do material que apresentei, mais do que foi explicitamente afirmado por mim, e que não terá encontrado dificuldade em juntar mais os fios e em chegar a conclusões que apenas insinuei. Por um feliz acaso, o mesmo número da revista em que meu próprio artigo apareceu mostrou que a atenção de alguns outros colaboradores fora dirigida para a autobiografia de Schreber e tornou fácil adivinhar quanto material mais resta a ser coletado do conteúdo simbólico das fantasias e delírios desse talentoso paranóico.

Desde que publiquei meu trabalho sobre Schreber, uma aquisição fortuita de conhecimento colocou-me em posição de apreciar mais adequadamente uma de suas crenças delirantes e de reconhecer a riqueza de sua relação com a mitologia. Mencionei a estranha relação do paciente com o Sol e fui levado a explicar este último como um ‘símbolo paterno’ sublimado. O Sol costumava falar-lhe em linguagem humana e assim se revelou a ele como ser vivo. Schreber tinha o hábito de vituperá-lo e de gritar-lhe ameaças; declara, além disso, que quando se detinha a encará-lo e falava alto, seus raios empalideciam perante ele. Após seu ‘restabelecimento’, gaba-se de poder olhá-lo fixamente sem qualquer dificuldade e sem ficar mais que ligeiramente ofuscado, coisa que, naturalmente, ter-lhe-ia sido impossível previamente.

É a este privilégio delirante de ser capaz de olhar fixamente o Sol sem ficar ofuscado que o interesse mitológico se prende. Lemos em Reinach que os autores de histórias naturais da antigüidade atribuíam esse poder somente à águia, que, como moradora das mais altas regiões do ar, era colocada em relação especialmente íntima com os céus, com o Sol e com o relâmpago. Aprendemos das mesmas fontes, ademais, que a águia submete seus filhotes a um teste, antes de reconhecê-los como sua descendência legítima: a menos que consigam olhar para o Sol sem piscar, são arrojados para fora do ninho.

Não pode haver dúvida sobre o significado deste mito animal. É certo que ele está simplesmente atribuindo a animais algo que constitui costume sagrado entre os homens. O processo usado pela águia com seus filhotes é um ordálio, teste de linhagem, tal como é transmitido das mais diversas raças da antigüidade. Assim, os celtas, que viviam nas margens do Reno, costumavam confiar seus bebês recém-nascidos às águas do rio, a fim de determinar se eles eram verdadeiramente do seu próprio sangueO clã dos psilos, que habitavam o que hoje é Trípoli, gabava-se de serem descendentes de serpentes e costumavam expor os filhos ao contato destas; aqueles que eram filhos verdadeiramente nascidos do clã não eram picados ou restabeleciam-se rapidamente dos efeitos da picada. A suposição subjacente a esses testes conduz-nos profundamente aos hábitos totêmicos de pensamento dos povos primitivos. O totem — um animal, ou uma força natural, animisticamente concebido, ao qual a tribo remonta sua origem — poupa os membros da tribo como sendo seus próprios filhos, tal como ele próprio é por estes honrado como ancestral e por eles poupado. Chegamos aqui à consideração de assuntos que, segundo me parece, podem tornar possível chegar-se a uma explicação psicanalítica das origens da religião.

A águia, pois, que faz os filhotes olharem para o Sol e deles exige que não sejam ofuscados por sua luz, comporta-se como se ela própria fosse descendente do Sol e estivesse submetendo os filhos a um teste de linhagem. E quando Schreber se gaba de poder olhar para o Sol ileso e não ofuscado, redescobriu o método mitológico de expressar sua relação filial com o Sol, e mais uma vez confirmou nossa opinião de que o Sol é um símbolo do pai. Recordar-se-á que, durante sua enfermidade, Schreber deu livre expressão ao seu orgulho familiar, e que descobrimos no fato de sua falta de filhos um motivo humano para ele ter caído enfermo com uma fantasia feminina de desejo. Assim, a vinculação entre seu privilégio delirante e a origem de sua moléstia se torna evidente.

Este breve pós-escrito à minha análise de um paciente paranóide pode servir para demonstrar que Jung tinha excelentes fundamentos para sua asserção de que as forças criadoras de mitos da humanidade não se acham extintas, mas que, até o dia de hoje, originam nas neuroses os mesmos produtos psíquicos que originaram nas mais remotas eras passadas. Gostaria de retomar uma sugestão que eu próprio fiz há algum tempo, e acrescentar que a mesma é válida para as forças que constroem as religiões. E sou de opinião que em breve chegará a hora propícia para efetuarmos a ampliação de uma tese que há muito tempo foi sustentada por psicanalistas, e completar o que até aqui teve apenas aplicação individual e ontogenética acrescentando-lhe o correspondente antropológico, que deve ser concebido filogeneticamente. ‘Nos sonhos e nas neuroses”, assim dizia nossa tese, ‘deparamos mais uma vez com a criança e as peculiaridades que caracterizam suas modalidades de pensamento e sua vida emocional.’ ‘E deparamos também com o selvagem‘, podemos agora acrescentar, ‘com o homem primitivo, tal como se nos revela à luz das pesquisas da arqueologia e da etnologia.’



 

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