quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A inutilidade social do clero (Voltaire)

(Capítulo 8 da obra "O homem dos quarenta escudos", de VOLTAIRE)


O Homem dos Quarenta Escudos torna-se pai
e discorre sobre os monges

Quando se viu pai de um menino, o homem dos quarenta escudos começou a julgar-se de algum peso no Estado; esperava dar ao menos dez súbditos ao rei, e todos eles úteis. Era o melhor cesteiro do mundo, e sua mulher uma excelente costureira. Nascera ela nas proximidades de uma grande abadia de cem mil libras de renda. Seu marido perguntou-me um dia por que motivo aqueles senhores, que eram tão pouco numerosos, haviam embolsado tantas porções de quarenta escudos. 

— São mais úteis à pátria do que eu? 

— Não, meu caro vizinho. 

— Concorrem, como eu, para o povoamento do país? 

— Não, pelo menos aparentemente

— Cultivam a terra? Defendem o Estado quando este sofre uma agressão? 

— Não; apenas rezam pelo senhor. 

— Pois bem! Eu rezarei por eles, e dividamos. Quantos desses úteis indivíduos, entre homens e mulheres, encerram os conventos do reino? 

— Segundo os memoriais dos intendentes de fins do século passado, havia cerca de noventa mil. 

— Por nossa velha conta, a quarenta escudos por cabeça, eles só deveriam possuir dez milhões e oitocentas mil libras. Quanto possuem? 

— Chega a uns cinqüenta milhões, contando as missas e coletes dos monges mendicantes, que na verdade agravam consideravelmente o povo. Um irmão pedinte de um convento de Paris vangloriou-se publicamente de que a sua sacola dava oitenta mil libras de renda. 

— E divididos os cinqüenta milhões pelas noventa mil cabeças tonsuradas, quanto toca a cada uma? 

— Quinhentas e cinqüenta e cinco libras. É uma soma considerável numa sociedade numerosa, em que as despesas diminuem devido à própria quantidade dos consumidores; pois custa muito menos a dez pessoas viverem juntas do que se cada uma tivesse o teto e a mesa em separado. 

- E os ex-jesuítas, a quem dão hoje quatrocentas libras de pensão, perderam então nesse negócio? 

— Não o creio: pois estão quase todos morando com parentes que os ajudam; vários dizem missa a dinheiro, o que não faziam antes; outros se fizeram preceptores, outros são sustentados por devotas, e cada qual se arranjou à sua maneira; e talvez poucos existam hoje que, tendo provado do mundo e da liberdade, queiram retomar as antigas cadeias. A vida monacal, por mais que se diga, não é de todo invejável. É máxima bastante conhecida que os monges são criaturas que se unem sem conhecer-se, vivem sem estimar-se, e morrem sem se lamentarem

— Acha então que se lhes prestaria um grande serviço, desfradando-os [isto é, secularizando-os] a todos? 

— Ganhariam bastante, sem dúvida, e o Estado ainda maisdevolver-se-iam à pátria cidadãos e cidadãs que sacrificaram temerariamente a sua liberdade em uma época em que as leis não permitem que se disponha de um fundo de dez soldos de renda; tirar-se-iam esses cadáveres dos túmulos: seria uma verdadeira ressurreiçãoAs suas casas seriam prefeituras, hospitais, escolas, fábricas. A população aumentaria e todas as artes seriam melhor cultivadas. Poder-se-ia ao menos limitar o número dessas vítimas voluntárias, fixando o número dos noviços. A pátria teria mais homens úteis e menos infelizes. É o sentir de todos os magistrados, é o desejo unânime do público, desde que os espíritos se esclareceram, e o exemplo da Inglaterra e de tantos outros Estados é uma prova evidente da necessidade de tal reforma. Que seria hoje da Inglaterra se, em vez de quarenta mil marinheiros tivesse quarenta mil padres? Quanto mais se multiplicam as artes, mais necessário é o número de súditos laboriosos. Há sem dúvida pelos claustros muitas inteligências sepultas, que estão perdidas para o Estado. É preciso, para que um reino floresça, o mínimo possível de padres e o máximo possível de artesãos. A ignorância e barbaria de nossos país, longe de constituir uma regra para nós, não são mais que um aviso para fazermos o que eles fariam, se estivessem em nosso lugar, com as nossas luzes

— Quer dizer que não é por ódio aos monges que deseja o senhor aboli-los? É por piedade deles? E por amor à pátria? Sou do seu parecer. Não desejaria que meu filho fosse padre. E, se sonhasse que iria ter filhos para o claustro, não deitaria com a minha mulher

— Qual é, com efeito, o bom pai de família que não chore ao ver seu filho ou filha perdidos para a sociedade? Chamam a isto salvar-se; mas um soldado que se salva quando deve combater, é punido. Somos todos soldados do Estado; estamos a soldo da sociedade, e tornamo-nos desertores quando a deixamos. Que digo? Os monges são parricidas que aniquilam uma posteridade inteira. Noventa mil enclausurados, que berram ou fanhoseiam latim, poderiam dar, cada um, dois súditos ao Estado: o que soma cento e oitenta mil homens que eles fazem perecer ainda em germe. Ao cabo de cem anos, a perda é imensa, coisa que se demonstra por si mesma. 

— Por que então prevaleceu o monaquismo? 

— Porque o governo, desde Constantino, foi, quase por toda parte, detestável e absurdo; porque o império romano teve mais sacerdotes que soldados; porque só no Egito havia cem mil; porque eram isentos de trabalho e impostos; porque os chefes das nações bárbaras que destruíram o império, tendo-se feito cristãos para governar cristãos, exerceram a mais horrível tirania; porque as pessoas se lançavam em multidão nos claustros para escapar ao furor desses tiranos, e mergulhavam numa escravidão para evitar uma outra; porque os papas, instituindo tantas ordens diferentes de mandriões sagrados, constituíram outros tantos súditos nos outros Estados; porque um camponês prefere ser chamado meu reverendo padre e distribuir bênçãos a conduzir a charrua; porque não sabe que a charrua é mais nobre que a batina; porque gosta mais de viver à custa dos tolos do que por um trabalho honrado; enfim, porque não sabe que, fazendo-se monge, reserva para si mesmo dias infelizes, tecidos de tédio e arrependimento. 

— Basta, pois, de monges, para felicidade nossa e dos próprios monges. Mas causa-me aflição ouvir ao senhor de minha aldeia, pai de quatro filhos e três filhas, que não saberá como os estabelecer se não mandar as filhas para um convento. 

— Essa alegação, tantas vezes repetida, é inumana, antipatriótica e destrutora da sociedade. Todas as vezes que se possa dizer de uma condição, qualquer que seja: “Se todos se submetessem a esta condição, estaria perdido o gênero humano”, está demonstrado que essa condição não vale nada e que aquele que a abraça prejudica o gênero humano. Ora, é claro que, se todos os jovens de ambos os sexos se enclausurassem, o mundo pereceria; já só por isso, a fradaria é inimiga da natureza humana, independentemente dos terríveis males que efetivamente algumas vezes lhe causou

— Não se poderia dizer o mesmo dos soldados? 

— Certamente que não: pois, se cada cidadão se exercita nas armas, como outrora em todas as Repúblicas, e sobretudo na de Roma, não deixa o soldado de ser melhor cultivador; o soldado cidadão casa-se, e combate pela mulher e pelos filhos. Prouvera a Deus que todos os lavradores fossem soldados e esposos! Seriam assim excelentes cidadãos. Mas um monge só serve, como monge, para devorar a substância de seus compatriotas. Não há verdade mais reconhecida. 

— Mas e as filhas dos gentis-homens pobres, que não podem casar, que farão elas? 

— Farão, como já se disse mil vezes, o que fazem as da Inglaterra, da Escócia, da Irlanda, da Suíça, da Holanda, de metade da Alemanha, da Suécia, da Noruega, da Dinamarca, da Tartária, da Turquia, da África, e de quase todo o resto da terra. Serão melhores esposas e mães, quando os homens se tiverem acostumado, tal como na Alemanha, a tomar esposas sem dote. Uma mulher laboriosa e afeita às lides domésticas será de mais utilidade numa casa do que a filha de um financista, que, só em superfluidades, gasta mais do que trouxe ao marido. Cumpre que haja casas de retiro para a velhice, para a invalidez, para a deformidade. Mas devido ao mais detestável dos abusos, só existem fundações para a juventude e para as pessoas bem conformadas. Começa-se, nos claustros, por obrigar os noviços de um e outro sexo a patentear sua nudez, apesar de todas as leis do pudor; são atentamente examinados por diante e por trás. Vá uma velha corcunda apresentar-se para entrar num convento, e será ignominiosamente escorraçada, a menos que contribua com um dote imenso. Que digo? Toda religiosa deve trazer seu dote, sem o que se transformará no rebotalho do convento. Nunca se viu mais intolerável abuso. 

— Bem, senhor, juro-lhe que as minhas filhas jamais serão religiosas. Aprenderão a fiar, a coser, a fazer renda, a bordar, a ser úteis, em sumaConsidero os votos como um atentado contra a pátria e contra si mesmo. Mas como se explica que um de meus amigos, para contrariar o gênero humano, alegue que os monges são muito úteis à população de um estado, porque as suas casas têm melhor passadio que as dos senhores e as suas terras melhor cultivo? 

— E que amigo é esse, que faz uma asserção tão estranha? 

— É o Amigo dos Homens, ou antes, dos monges. 

— Estava brincando, com certeza; bem sabe ele que dez famílias, cada uma com cinco mil libras de rendas da terra, são cem vezes, mil vezes mais úteis do que um convento que desfruta de uma renda de cinqüenta mil libras e que tem sempre um tesouro secreto. Louva as belas casas construídas pelos monges, e é precisamente o que irrita os cidadãos; é motivo das queixas da Europa. O voto de pobreza condena os palácios, assim como o voto de aniquilar a própria raça está em contradição com a natureza. 

— Começo a crer que se deve desconfiar dos livros. 



— Deve-se é proceder com eles como com os homens, escolher os mais razoáveis, examiná-los, e só se render à evidência...

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O Santo que não acreditava em Deus (João Ubaldo Ribeiro)


(Extraído da obra "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século")

Temos várias espécies de peixe neste mundo, havendo o peixe que come lama, o peixe que come baratas do molhado, o peixe que vive tomando sopa fazendo chupações na água, o peixe que, quando vê a fêmea grávida pondo ovos, não pode se conter e com agitações do rabo lava a água de esporras a torto e a direito ficando a água leitosa, temos o peixe que persegue os metais brilhantes, umas cavalas que pulam para fora bem como tainhas, umas corvinas quase que atômicas, temos por exemplo o niquim, conhecido por todas as orlas do Recôncavo, o qual peixe não somente fuma cigarros e cigarrilhas, preferindo a tálvis e o continental sem filtro, hoje em falta, mas também ferreia pior do que uma arraia a pessoa que futuca suas partes, rendendo febre e calafrios, porventura caganeiras, mormente frios e tantas coisas, temos os peixes tiburones e cações, que nunca podem parar de nadar para não morrer afogados.

É engraçado que eu entenda tanto de peixe e quase não pegue, mas entendo. Os peixes miúdos de moqueca são: o carapicu, o garapau, o chicharro e a sardinha. Entremeados, podemos ferrar o baiacu e o barrigame-dói, o qual o primeiro é venenoso e o segundo causa bostas soltas e cólicas. De uma ponte igual a essa, que já foi bastante melhor, podemos esperar também peixes de mais de palmo, porém menos de dois, que por aqui passam, dependendo do que diz o rei dos peixes, dependendo de uma coisa e outra. Um budião, um cabeçudo, um frade, um barbeiro. Pode ser um robalo ou uma agulha ou ainda uma moréia, isto dificilmente. O bom da  pesca do peixe miúdo é quando estão mordendo verdadeiramente e sentamos na rampa ou então vamos esfriando as virilhas nestas águas de agosto e ficamos satisfeitos com aquela expedição de pescaria e nada mais desejamos da vida.

Ou quando estamos como assim nesta canoa, porém nada mordendo, somente carrapatos. Nesses peixes miúdos de moqueca, esquecia eu de mencionar o carrapato, que não aparece muito a não ser em certas épocas, devendo ter recebido o nome de carrapato justamente por ser uma completa infernação, como os carrapatos do ar. Notadamente porque esse peixe carrapato tem a boca mais do que descomunal para o tamanho, de modo que botamos um anzol para peixes mais fundos, digamos um vermelho, um olho-de-boi, um peixe-tapa, uma coisa decente, quando que me vem lá de baixo, parecendo uma borboletinha pendurada na ponta da linha, um carrapato. Revolta a pessoa.

E estou eu colocando uma linha de náilon que me veio de Salvador por intermédio de Luiz Cuiúba, que me traz essa linha verde e grossa, com dois chumbos de cunha e anzóis presos por uma espécie de rosca de arame, linha esta que não me dá confiança, agora se vendo que é especializada em carrapatos. Mas temos uma vazante despreocupada, vem aí setembro com suas arraias no céu e, com esses dois punhados de camarão miúdo que Sete Ratos me deu, eu amarro a canoa nos restos da torre de petróleo e solto a linha pelos bordos, que não vou me dar ao desfrute de rodar essa linha esquisita por cima da cabeça como é o certo, pode ser que alguém me veja. Daqui diviso os fundos da Matriz e uns meninos como formiguinhas escorregando nas areias descarregadas pelos saveiros, mas o barulho deles chega a mim depois da vista e assim os gritos deles parecem uns rabos compridos. Temos uma carteira quase cheia de cigarros; uma moringa, fresca, fresca; meia quartinha de batida de limão; estamos sem cueca, a água, se não fosse a correnteza da vazante, era mesmo um espelho; não falta nada e então botamos o chapéu um pouco em cima do nariz, ajeitamos o corpo na popa, enrolamos a linha no tornozelo e quedamos, pensando na vida.

Nisso começa o carrapato, que no princípio tive na conta de baiacus ladrões. Quem está com dois anzóis dos grandes, pegou isca de graça e a mulher já mariscou a comida do meio-dia pode ser imaginado que não vai dar importância a beliscão leve na linha. Nem leve nem pesado. Se quiser ferrar, ferre, se não quiser não ferre. Isso toda vez eu penso, como todo mundo que tem juízo, mas não tem esse santo que consiga ficar com aqueles puxavantes no apeador sem se mexer e tomar uma providência. Estamos sabendo: é um desgraçado de um baiacu. Se for, havendo ele dado todo esse  trabalho, procuremos arrancar o anzol que o miserável engole e estropia e trataremos de coçar a barriga dele e, quando inchar, dar-lhe um pipoco, pisando com o calcanhar. Mas como de fato não é um baiacu, mas um carrapato subdesenvolvido, um carrapatinho de merda, com mais boca do que qualquer outra coisa, boca essa assoberbando um belo anzol preparado pelo menos para um dentão, não se pode fazer nada. Um carrapato desses a pessoa come com uma exclusiva dentada com muito espaço de sobra, se valesse a pena gastar fogo com um infeliz desses. Vai daí, carrapato na poça d'água do fundo da canoa e, dessa hora em diante, um carrapato por segundo mordendo o anzol, uma azucrinarão completa. Foi ficando aquela pilha de carrapatinhos no fundo da canoa e eu pensei que então não era eu quem ia aparecer com eles em casa, porque com certeza iam perguntar se eu tinha catado as costas de um jegue velho e nem gato ia querer comer aquilo. Pode ser que essa linha de Cuiúba tenha especialidade mesmo em carrapato, pode ser qualquer coisa, mas chega a falta de vergonha ficar aqui fisgando esses carrapatos, de maneira que só podemos abrir essa quartinha, retirar o anzol da água, verificar se vale a pena remar até o pesqueiro de Paparrão nesta soalheira, pensar que pressa é essa que o mundo não vai acabar, e ficar mamando na quartinha, viva a fruta limão, que é curativa.

 Nisto que o silêncio aumenta e, pelo lado, eu sinto que tem alguma coisa em pé pelas biribas da torre velha e eu não tinha visto nada antes, não podendo também ser da aguardente, pois que muito mal tomei dois goles. Ele estava segurando uma biriba coberta de ostras com a mão direita, em pé numa escora, com as calças arregaçadas, um chapéu velho e um suspensório por cima da camisa.

— Ai égua! — disse eu. — Veio nadando e está enxuto?

—  Eu não vim nadando — disse ele. — Muito peixe?

— Carrapato miúdo.

— Olhe ali — disse ele, mostrando um rebrilho na água mais para o lado da Ilha do Medo. — Peixe.

Ora, uma manta de azeiteiras vem vindo bendodela, costeando o perau. É conhecida porque quebra a água numa porção de pedacinhos pela flor e aquilo vai igual a muitas lâminas, bordejando e brilhando. Mas dessas azeiteiras, como as peixas chamadas solteiras, não se pode esperar que mordam anzol, nem mesmo morram de bomba.

— Azeiteira — disse eu. — Só mesmo uma bela rede. E mais canoa e mais braço.

— Mas eles ficam pulando — disse ele, que tinha um sorriso entusiasmado, possivelmente porque era difícil não perceber que a água em cima como que era o aço de um espelho, só que aço mole como o do termômetro, e então cada peixe que subia era um orador. Aí eu disse, meu compadre, se vosmecê botar um anzol e uma dessas meninas gordurentas morder esse tal anzol, eu dou uma festa para você no hotel — ainda que mal pergunte, como é a sua graça?
Assim levamos um certo tempo, porque ele se encabulou, me afirmando que não apreciava mentir, razão por que preferia não se apresentar, mas eu disse que não botava na minha canoa aquele de quem não saiba o nome e então ficasse ele ali o resto da manhã, a tarde e a noite pendurado nas biribas, esperando Deus dar bom tempo. Mas que coisa interessante, disse ele dando um suspiro, isso que você falou.

— É o seguinte — disse ele, dando outro suspiro. — É porque eu sou Deus.

Ora, ora me veja-me. Mas foi o que ele disse e os carrapatinhos, que já gostam de fazer corrote-corrote com a garganta quando a gente tira a linha da água ficaram muitíssimo assanhados.

— É mais o seguinte — continuou ele, com a expressão de quem está um pouco enfadado. — Está vendo aqui? Não tem nada. Está vendo alguma coisa aqui? Nada! Muito bem, daqui eu vou tirar uma porção de linhas e jogar no meio dessas azeiteiras. E dito e feito, mais ligeiro que o trovão, botou os braços para cima e tome tudo quanto foi tipo de linha saindo pelos dedos dele, parecia um arco-íris. Ele aí ficou todo monarca, olhando para mim com a cara de quem eu não sou nem principiante em peixe e pesca. Mas o que aconteceu? Aconteceu que, na mesma hora, cada um dos anzóis que ele botou foi mordido por um carrapato e, quando ele puxou, foi aquela carrapatada no meio da canoa. Eu fiz: quá-quá-quá, não está vendo tu que temos somente carrapatos? Carrapato, carrapato, disse eu, está vendo a cara do besta? Ele, porém, se retou.

— Não se abra, não — disse ele — que eu mando o peixe lhe dar porrada.

— Porrada dada, porrada respostada — disse eu.

Para que eu disse isto, amigo, porque me saiu um mero que não tinha mais medida, saiu esse mero de junto assim da biriba, dando um pulo como somente cavacos dão e me passou uma rabanada na cara que minha cara ficou vermelha dois dias depois disto.

— Donde saiu essa, sai mais uma grosa! — disse ele dando risada, e o mero ficou a umas três braças da canoa, mostrando as gengivas com uma cara de puxa-saco.

— Não procure presepada, não — disse ele. — Senão eu mando dar um banho na sua cara.

— Mande seu banho — disse eu, que às vezes penso que não tenho inteligência.

Pois não é que ele mandou esse banho, tendo saído uma onda da parte da Ponta de Nossa Senhora, curvando como uma alface aborrecida a ponta da coroa, a qual onda deu tamanha porrada na canoa que fiquemos flutuando no ar vários momentos.

— Então? — disse ele. — Eu sou Deus e estou aqui para tomar um par de providências, sabe vosmecê onde fica a feira de Maragogipe?

— Qual é feira de Maragogipe nem feira de Gogiperama — disse eu, muito mais do que emputecido, e fui caindo de pau no elemento, nisso que ele se vira num verdadeiro azougue e me desce mais que quatrocentos sopapos bem medidos, equivalentemente a um catavento endoidado e, cada vez que eu levantava, nessa cada vez eu tomava uma porrada encaixada. Terminou nós caindo das nuvens, não sei qual com mais poeira em torno da garupa. Ele, no meio da queda, me deu uns dois tabefes e me disse: está convertido, convencido, inteirado, percebido, assimilado, esclarecido, explicado, destrinchado, compreendido, filho de uma puta? E eu disse sim senhor, Deus é mais. Pare de falar em mim, sacaneta, disse ele, senão lhe quebro todo de porrada. Reze aí um padre-nosso antes que eu me aborreça, disse ele. Cale essa matraca, disse ele.

Então eu fui me convencendo, mesmo porque ele não estava com essas paciências todas, embora se estivesse vendo que ele era boa pessoa. Esclareceu que, se quisesse, podia andar em cima do mar, mas era por demais escandaloso esse comportamento, podendo chamar a atenção. Que qualquer coisa que ele resolvesse fazer ele fazia e que eu não me fizesse de besta e que, se ele quisesse, transformava aqueles carrapatos todos em lindos robalos frescos. No que eu me queixei que dali para Maragogipe era um bom pedaço e que era mais fácil um boto aparecer para puxar a gente do que a gente conseguir chegar lá antes que a feira acabasse e aí ele mete dois dedos dentro da água e a canoa sai parecendo uma lancha da Marinha, ciscando por cima dos rasos e empinando a proa como se fosse coisa, homem ora. Achei falta de educação não oferecer um pouco do da quartinha, mas ele disse que não estava com vontade de beber.

Nisso vamos chegando muito rapidamente a Maragogipe e Deus puxa a poita desparramando muitos carrapatos pelos lados e fazendo a alegria dos siris que por ali pastejam e sai como que nem um peixe-voador. No meio do caminho, ele passa bastante desencalmado e salva duas almas com um toque só, uma coisa de relepada como somente quem tem muita prática consegue fazer, vem com a experiência. Porque ele nem estava olhando para essas duas almas, mas na passagem deu um toque na orelha de cada uma e as duas saíram voando ali mesmo, igual aos martins depois do mergulho. Mas aí ele ficou sem saber para onde ia, na beira da feira, e então eu cheguei perto dele.

— Tem um rapaz aqui — disse Deus, coçando a gaforinha meio sem jeito — que eu preciso ver.

— Mas por que vosmecê não faz um milagre e não acha logo essa pessoa? — perguntei eu, usando o vosmecê, porque não ia chamar Deus de você, mas também não queria passar por besta se ele não fosse.

— Não suporto fazer milagre — disse ele. — Não sou mágico. E, em vez de me ajudar, por que é que fica aí falando besteira?

Nessa hora eu quase ia me aborrecendo, mas uma coisa fez que eu não mandasse ele para algum lugar, por falar dessa maneira sem educação. É que, sendo ele Deus, a pessoa tem de respeitar. Minto: três coisas, duas além dessa. A segunda é que pensei que ele, sendo carpina por profissão, não estava acostumado a finuras, o carpina no geral não alimenta muita conversa nem gosta de relambórios. A terceira coisa é que, justamente por essa profissão e acho que pela extração dele mesmo, ele era bastante desenvolvidozinho, aliás, bem dizendo, um pau de homem enormíssimo, e quem era que estava esquecendo aquela chuva de sopapos e de repente ele me amaldiçoa feito a figueira e eu saio por aí de perna peca no mínimo, então vamos tratar ele bem, quem se incomoda com essas bobagens? Indaguei com grande gentileza como é que eu ia ajudar que ele achasse essa bendita dessa criatura que ele estava procurando logo na feira de Maragogipe, no meio dos cajus e das rapaduras, que ele me desculpasse, mas que pelo menos me dissesse o nome do homem e a finalidade da procura. Ele me olhou assim na cara, fez até quase que um sorriso e me explicou que ia contar tudo a mim, porque sentia que eu era um homem direito, embora mais cachaceiro do que pescador. Em outro caso, ele podia pedir segredo, mas em meu caso ele sabia que não adiantava e não queria me obrigar a fazer promessa vã. Que então, se eu quisesse, que contasse a todo mundo, que ninguém ia acreditar de qualquer jeito, de forma que tanto faz como tanto fez. E que escutasse tudo direito e entendesse de uma vez logo tudo, para ele não ter de repetir e não se aborrecer. Mas Deus, ah, você não sabe de nada, meu amigo, a situação de Deus não está boa. Você imagine como já é difícil ser santo, imagine ser Deus. Depois que eu fiz tudo isto aqui, todo mundo quer que eu resolva os problemas todos, mas a questão é que eu já ensinei como é que resolve e quem tem de resolver é vocês, senão, se fosse para eu resolver, que graça tinha? É homens ou não são? Se fosse para ser anjo, eu tinha feito todo mundo logo anjo, em vez de procurar tanta chateação com vocês, que eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança. Mas, não: fiz homem, fiz mulher, fiz menino, entreguei o destino: está aqui, vão em frente, tudo com liberdade. Aí fica formada por vocês mesmos a pior das situações, com todo mundo passando fome sem necessidade e cada qual mais ordinário do que o outro, e aí o culpado sou eu? Inclusive, toda hora ainda tenho de suportar ouvir conselhos: se eu fosse Deus, eu fazia isto, se eu fosse Deus eu fazia aquilo. Deus não existe porque essa injustiça e essa outra e eu planejava isso tudo muito melhor e por aí vai. Agora, você veja que quem fala assim é um pessoal que não acerta nem a resolver um problema de uma tabela de campeonato, eu sei porque estou cansado de escutar rezas de futebol, costumo mandar desligar o canal, só em certos casos não. Todo dia eu digo: chega, não me meto mais. Mas fico com pena, vou passando a mão pela cabeça, pai é pai, essas coisas. Agora, milagre só em último caso. Tinha graça eu sair fazendo milagres, aliás tem muitos que me arrependo por causa da propaganda besta que fazem, porque senão eu armava logo um milagre grande e todo mundo virava anjo e ia para o céu, mas eu não vou dar essa moleza, está todo mundo querendo moleza. A dar essa moleza, eu vou e descrio logo tudo e pronto e ninguém fica criado, ninguém tem alma, pensamento nem vontade, fico só eu sozinho por aí no meio das estrelas me distraindo, aliás tenho sentido muita falta. É porque eu não posso me aporrinhar assim, tenho que ter paciência. Senão, disse ele, senão... e fez uma menção que ia dar um murro com uma mão na palma da outra e eu aqui só torcendo para que ele não desse, porque, se ele desse, o mínimo que ia suceder era a refinaria de Mataripe pipocar pelos ares, mas felizmente ele não deu, graças a Deus.

Então, explicou Deus, eu vivo procurando um santo aqui, um santo ali, parecendo até que sou eu quem estou precisando de ajuda, mas não sou eu, é vocês, mas tudo bem. Agora, é preciso que você me entenda: o santo é o que faz alguma coisa pelos outros, porque somente fazendo pelos outros é que se faz por si, ao contrário do que se pensa muito por aí. Graças a mim que de vez em quando aparece um santo, porque senão eu ia pensar que tinha errado nos cálculos todos. Fazer por si é o seguinte: é não me envergonhar de ter feito vocês igual a mim, é só o que eu peço, é pouco, é ou não é? Então quem colabora para arrumar essa situação eu tenho em grande apreço. Agora, sem milagre. Esse negócio de milagre é coisa para a providência, é negócio de emergência, uma correçãozinha que a gente dá. Esse pessoal não entende que, toda vez que eu faço um milagre, tem de reajustar tudo, é uma trabalheira que não acaba, a pessoa se afadiga. Buliu aqui, tem de bulir ali, é um inferno, com perdão da má palavra. O santo anda dificílimo. Quando eu acho um, boto as mãos para o céu.
Tendo eu perguntado como é que ele botava as mãos para o céu e tendo ele respondido que eu não entendia nada de Santíssima Trindade e calasse minha boca, esclareceu que estava procurando um certo Quinca, conhecido como Das Mulas, que por ali trabalhava. Mas como esse Quinca, perguntei, não pode ser o mesmo Quinca! Pois esse Quinca era chamado Das Mulas justamente por viver entre burros e mulas e antigamente podendo ter sido um rapaz rico, mas havendo dado tudo aos outros e passando o tempo causando perturbação, ensinando besteiras e fazendo questão de dar uma mão a todos que ele dizia que eram boas pessoas, sendo estas boas pessoas dele todas desqualificadas. Porém ninguém fazia nada com ele porque o povo gostava muito dele e, quando ele falava, todo mundo escutava. Além de tudo, gastava tudo com os outros e vivia dando risadas e tomava poucos banhos e era um homem desaforado e bebia bastante cana, se bem que só nas horas que escolhia, nunca em outras. E, para terminar, todo mundo sabia que ele não acreditava em Deus, inclusive brigava bastante com o padre Manuel, que é uma pessoa distintíssima e sempre releva.

— Eu sei — respondeu Deus. — Isto é mais uma dificuldade.

E, de fato, fomos vendo que a vida de Deus e dos santos é muito dificultosa desde aí, porque tivemos de catar toda a feira atrás desse Quinca e sempre onde a gente passava ele já tinha passado. Ele foi encontrado numa barraca, falando coisas que a mulher de Lóide, aquela outra santa, fingia que achava besteira, mas estava se convencendo e então eu vi que aquilo ia acabar dando problema. Olha aí, mostrei eu, ele ali causando divergência. É isso mesmo, disse Deus com olhar de grande satisfação, certa feita eu também disse que tinha vindo separar homem e mulher. Não quero nem saber, me apresente.
E então tivemos um belo dia, porque depois da apresentação parece que Quinca já tinha tomado algumas e fomos comer um sarapatel, tudo na maior camaradagem, porque estava se vendo que Quinca tinha gostado de Deus e Deus tinha gostado dele, de maneira que ficaram logo muitíssimo amigos e foi uma conversa animada que até às vezes eu ficava meio de fora, eles tinham muita coisa a palestrar. Nisso tome sarapatel até as três e todo mundo já de barriga altamente estufada, quando que Quinca me resolve tomar uma saideira com Deus e essa saideira é nada mais nada menos do que na casa de Adalberta, a qual tem mulheres putas. Nessa hora, minha obrigação, porque estou vendo que Deus está muito distraído e possa ser que não esteja acostumado com essas aguardentes de Santo Amaro que ele tomou mais de uma vintena, é alertar. Chamei assim Deus para o canto da barraca enquanto Quinca urinava e disse olhe, você é novo por aqui, pelo menos só conhecíamos de missa, de maneira que essa Adalberta, não sei se você sabe, é cafetina, não deve ficar bem, não tenho nada com isso, mas não custa um amigo avisar. Ora, rapaz, você tem medo de mulher, disse Deus, que estava mais do que felicíssimo e, se não fosse Deus, eu até achava que era um pouco do efeito da bebida. Mas, se é ele que fala assim, não sou eu que fala assado, vá ver que temos lá alguma rapariga chamada Madalena, resolvi seguir e não perguntar mais nada.

Pois tomaram mais e fizeram muito grande sucesso com as mulheres e era uma risadaria, uma coisa mesmo desproporcionada, havendo mesmo um serviço de molho pardo depois das seis, que a fome apertou de novo, e bastantes músicas. Cada refrão que Quinca mandava, cada refrão Deus repicava, estava uma farra lindíssima, porém sem maldade, e Deus sabia mais sambas de roda que qualquer pessoa, leu mãos, recitou, contou passagens, imitou passarinho com perfeição, tirou versos, ficou logo estimadíssimo. Eu, que estava de reboque bebendo de graça e já tinha aprendido que era melhor ficar calado, pude ver com o rabo do olho que ele estava fazendo uns milagres disfarçados, a mim ele não engana. As mulheres todas parece que melhoraram de beleza, o ambiente ficou de uma grande leveza, a cerveja parecia que tinha saído do congelador porém sem empedrar e, certeza eu tenho mas não posso provar, pelo menos umas duas blenorragias ele deve de ter curado, só pelo olhar de simpatia que ele dava. E tivemos assim belas trocas de palavras e já era mais do que onze quando Quinca convidou Deus para ver as mulas e foram vendo mulas que parecia que Deus, antes de fazer o mundo, tinha sido tropeiro. E só essa tropica e essa não tropica, essa empaca e essa não empaca, essa tem a andadura rija, essa pisa pesado, essa está velha, um congresso de muleiros, essa é que é a verdade.

É assim que vemos a injustiça, porque, a estas alturas, eu já estou sabendo que Deus veio chamar Quinca para santo e que dava um trabalho mais do que lascado, só o que ele teve de estudar sobre mulas e decorar de sambas de roda deve ter sido uma esfrega. Mas eu já estava esperando que, de uma hora para outra, Deus desse o recado para esse Quinca das Mulas. Como de fato, numa hora que a conversa parou e Quinca estava só estalando a língua da cachaça e olhando para o espaço, Deus, como quem não quer nada, puxou a prosa de que era Deus e tal e coisa.

Ah, para quê? Para Quinca dizer que não acreditava em Deus. E para Deus, no começo com muita paciência, dizer que era Deus mesmo e que provava. Fez uns dois milagres só de efeito, mas Quinca disse que era truques e que, acima de tudo, o homem era homem e, se precisasse de milagre, não era homem. Deus, por uma questão de honestidade, embora o coração pedisse contra nessa hora, concordou. Então ande logo por cima da água e não me abuse, disse Quinca. E eu só preocupado com a falta de paciência de Deus, porque, se ele se aborrecesse, eu queria pelo menos estar em Valença, não aqui nesta hora. Mas ele só patati-patatá, que porque ser santo era ótimo, que tinha sacrifícios mas também tinha recompensas, que deixasse daquela besteira de Deus não existir, só faltou prometer dez por cento. Mas Quinca negaceava e a coisa foi ficando preta e os dois foram andando para fora, num particular e, de repente, se desentenderam. Eu, que fiquei sentado longe, só ouvia os gritos, meio dispersados pelo vento.

— Você tem que ser santo, seu desgraçado! — gritava Deus. — Faz-se de besta! — dizia Quinca.

E só quebrando porrada, pelo barulho, e eu achando que, se Deus não ganhasse na conversa, pelo menos ganhava na porrada, eu já conhecia. Mas não era coisa fácil. De volta de meia-noite e meia até umas quatro, só se ouvia aquele cacete: deixe de ser burro, infeliz! cale essa boca, mentiroso! E por aí ia. Eu só sei que, umas cinco horas mais ou menos, com Gerdásia do mercado trazendo um mingau do que ela ia vender na praça e fazendo a caridade de dar um pouco para mim e para Deus, por sinal que ele toma mingau como se fosse acabar amanhã e não tivesse mais tempo, os dois resolveram apertar a mão, porém não resolveram mais nada: nem Deus desistia de chamar Quinca para o cargo de santo, nem Quinca queria aceitar esse cargo.

— Muito bem — disse Deus, depois de uma porção de vezes que todo mundo dizia que já ia, mas enganchava num resto de conversa e regressava. — Eu volto aqui outra vez.

— Voltar, pode voltar, terá comida e bebida — disse Quinca. — Mas não vai me convencer!

— Rapaz, deixe de ser que nem suas mulas!

— Posso ser mula, mas não tenho cara de jegue!

E aí mais pau, mas, quando o dia já estava moço, aí por umas seis ou sete horas da manhã, estamos Deus e eu navegando de volta para Itaparica, nenhum dos dois falando nada, ele porque fracassou na missão e eu porque não gosto de ver um amigo derrotado. Mas, na hora que nós vamos passando pelas encostas do Forte, quase nos esquecendo da vida pela beleza, ele me olhou com grande simpatia e disse: fracasso nada, rapaz. não falei nada, disse eu. Mas sentiu, disse ele. Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes. E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu."


* * * 

O conto acima, publicado em "Já Podeis da Pátria Filhos e Outras Histórias", Editora Nova Fronteira, 1991, foi selecionado por Ítalo Moriconi e consta do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 478.
O filme "Deus é brasileiro", dirigido por Cacá Diegues, produzido em 2002, foi baseado no conto acima.

sábado, 15 de agosto de 2015

lps vida real nino cantando musica de amor

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Análise de uma "possessão diabólica" (FREUD)




ANÁLISE DE UM CASO DE POSSESSÃO DIABÓLICA


- UMA NEUROSE DEMONÍACA DO SÉCULO XVII -


SIGMUND FREUD



NOTA DO EDITOR INGLÊS

EINE TEUFELSNEUROSE IM SIEBZEHNTEN JAHRHUNDERT
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1923 Imago, 9, (1), 1-34
1924 G. S., 10, 404-45.
1924 Leipzig, Viena e Zurique: Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 43 págs.
1928 Edição limitada dos ‘Bibliophiles’, com 7 gravuras. Mesmos editores, 81 págs.
1940 G. W., 13, 317-53.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

‘A Neurosis of Demoniacal Possession in the Seventeenth Century’

1925 C.P., 4, 436-72. (Trad. de E. Glover.)

A presente tradução inglesa, sob novo título, é versão consideravelmente modificada da publicada em 1925. A edição dos ‘Bibliófilos’ foi produzida para o Congresso dos Bibliófilos Alemães de 1928, em Viena. Continha reproduções em preto e branco de três das pinturas (representando a primeira, a segunda e a quinta aparição do Demônio) e de quatro fólios do manuscrito.

Este trabalho foi escrito nos últimos meses de 1922 (Jones, 1957, 105). O próprio Freud explica suficientemente sua origem no começo da Seção I. O interesse dele pela feitiçaria, possessões e fenômenos afins já vinha de longa data. Parece possível que tenha sido estimulado por seus estudos na Salpêtrière em 1885-6. O próprio Charcot concedera muita atenção aos aspectos históricos da neurose, fato mencionado em mais de um ponto do ‘Relatório’ de Freud sobre sua visita a Paris (1956a [1886]). Há uma descrição de um caso de possessão no século XVI no início da Conferência XVI da primeira série de conferências de Charcot traduzidas por Freud (1886f) e um debate sobre a natureza histérica das ‘demoniomanias’ medievais na sétima das Leçons du mardi, na segunda série de traduções de Freud (1892-94). Além disso, em seu necrológio de Charcot (1893f), concedeu ele ênfase especial a esse aspecto da obra de seu mestre. Duas cartas a Fliess, de 17 a 24 de janeiro de 1897 (Freud, 1950a, Cartas 56 e 57), que tratam de feiticeiras e de sua relação com o Demônio, demonstram que esse interesse não diminuíra de fato, na primeira delas fala como se o assunto fosse debatido com freqüência entre ele e Fliess. Já há uma sugestão de que o Demônio possa ser uma figura paterna, e Freud insiste particularmente no papel desempenhado pelo material anal nas crenças medievais sobre feiticeiras. Ambos os temas reaparecem numa breve alusão ao assunto no artigo sobre ‘Character and Anal Erotism’ (1908b), Standard Ed., 9, 174. Informa-nos Jones (1957, 378) que em 27 de janeiro de 1909 Hugo Heller, livreiro e editor vienense, leu para a Sociedade Psicanalítica de Viena, da qual era membro, um trabalho sobre ‘A História do Demônio’. As minutas da Sociedade, infelizmente, não foram postas à nossa disposição, mas, segundo Jones, Freud falou demoradamente sobre a composição psicológica da crença no Demônio, evidentemente, em grande parte, segundo as mesmas linhas da Seção III do presente artigo. Também nessa seção, Freud passa da discussão de um caso individual e do limitado problema demonológico para a consideração de algumas das questões mais amplas envolvidas na adoção, por parte de indivíduos do sexo masculino, de uma atitude feminina para com o pai. E aqui ele levanta a história do Dr. Schreber como paralelo, ainda que em parte alguma classifique o presente caso como sendo de paranóia.

Um suntuoso volume apareceu recentemente, sob o título de Schizophrenia 1677 (Londres, 1956, Dawson), da autoria da Dra. Ida Macalpine e do Dr. R. A. Hunter. Inclui um fac-símile do manuscrito da ‘Relíquia de Mariazell’ e reproduções coloridas das nove pinturas a ele ligadas. Um exame dessas pinturas tornou possível efetuar uma ou duas adições e correções à descrição, feita por Freud, do manuscrito, que sem dúvida se baseava inteiramente na transcrição e relatório do Dr. Payer-Thurn. Deve-se acrescentar que os extensos comentários da Dra. Macalpine e do Dr. Hunter dirigem-se em grande parte à crítica das conceituações de Freud sobre o caso; infelizmente, foi impossível adotar sua tradução das muitas passagens do manuscrito citadas por Freud, visto que em dois ou três pontos importantes a sua versão do original discorda da de Freud. Mais recentemente, o Dr. G. Vandendriessche descobriu uma quantidade de material histórico — desconhecido para Freud — referente a Christoph Haizmann, incluindo novas transcrições de partes do Trophaeum, as quais o capacitaram a efetuarcorreções no texto do manuscrito de Viena e a reconstruir suas partes danificadas. Seus achados estão incorporados, com detalhes, em um exame crítico do artigo de Freud (The Parapraxis in the Haizmann Case of Sigmund Freud, Louvain e Paris, 1965).

Não se tentou, na presente tradução inglesa, imitar o estilo do alemão do século XVII do manuscrito.
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UMA NEUROSE DEMONÍACA DO SÉCULO XVII 

- Sigmund Freud -

INTRODUÇÃO

As neuroses da infância ensinaram-nos que nelas pode ser percebida facilmente a olho nu uma série de coisas que, em idade posterior, só se pode descobrir após investigação exaustiva. Podemos esperar que isso mesmo seja verdade quanto às doenças neuróticas em séculos anteriores, desde que estejamos preparados para reconhecê-las sob outros nomes que não os de nossas neuroses atuais. Não precisamos ficar surpresos em descobrir que, ao passo que as neuroses de nossos dias assumem um aspecto hipocondríaco e aparecem disfarçadas como enfermidades orgânicas, as neuroses daqueles antigos tempos surgem em trajes demoníacos. Diversos autores, e dentre eles Charcot é o principal, identificaram, como sabemos, manifestações de histeria nos retratos de possessão e êxtase que nos foram preservados nas produções artísticas. Se se tivesse concedido maior atenção às histórias de tais casos na época, não teria sido difícil retraçar neles o tema geral de uma neurose.

A teoria demonológica daquelas épocas sombrias levou a melhor, ao final, sobre todas as visões somáticas do período da ciência ‘exata’. Os estados de possessão correspondem às nossas neuroses, para cuja explicação mais uma vez recorremos aos poderes psíquicosA nossos olhos, os demônios são desejos maus e repreensíveis, derivados de impulsos instintuais que foram repudiados e reprimidosNós simplesmente eliminamos a projeção dessas entidades mentais para o mundo externo, projeção esta que a Idade Média fazia; em vez disso, hoje encaramo-las como tendo surgido na vida interna do paciente, onde têm sua morada.

I - A HISTÓRIA DE CHRISTOPH HAIZMANN, O PINTOR

Estou em débito para com o interesse amistoso do Dr. Payer-Thurn, diretor da antiga Fideikommissbibliothek  Imperial de Viena, pela oportunidade de estudar uma neurose demoníaca do século XVII deste tipo.

Payer-Thurn descobriu nessa biblioteca um manuscrito originário do santuário de Mariazell e no qual havia uma descrição pormenorizada da redenção miraculosa de um pacto com o Demônio, mediante a graça da Santa Virgem Maria. Seu interesse foi despertado pela semelhança dessa história com a lenda de Fausto, e levou-o a empreender a exaustiva publicação e coordenação do material. Descobrindo, contudo, que a pessoa cuja redenção era descrita estivera sujeita a crises convulsivas e visões, procurou-me em busca de uma opinião médica sobre o caso. Chegamos a um acordo em publicar nossas investigações de modo independente e separado. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer-lhe por sua sugestão original e pelas muitas maneiras por que me auxiliou no estudo do manuscrito.

Esse caso clínico de demonologia conduz a achados realmente valiosos, que podem ser trazidos à luz sem muita interpretação — aproximadamente como às vezes se dá com um veio de metal puro, o qual, em outros lugares, tem de ser laboriosamente extraído do minério.

O manuscrito, do qual uma cópia exata está à minha frente, divide-se em duas seções inteiramente distintas. Uma delas é um relatório, escrito em latim, da autoria de um escriba ou compilador monástico; a outra é um fragmento do diário do paciente, escrito em alemão. A primeira seção contém um prefácio e uma descrição da cura miraculosa real. A segunda dificilmente fora de significação para os reverendos padres, mas tanto maior é seu valor para nós. Ela serve, em grande parte, para confirmar nosso julgamento do caso, que de outra maneira teria sido hesitante, e temos boas razões para sermos gratos ao clero pela preservação do documento, embora ele nada acrescentasse em apoio do teor de suas opiniões; antes, pode mesmo havê-lo enfraquecido.

Antes, porém, de ir adiante na composição desta pequena brochura manuscrita, que traz o título de Trophaeum Mariano-Cellense, devo relatar uma parte de seu conteúdo, que extraio do prefácio.

Em 5 de setembro de 1677, o pintor Christoph Haizmann, bávaro, foi trazido a Mariazell, com uma carta de apresentação do pároco da aldeia de Pottenbrunn (na Áustria inferior), não muito longe dali. A carta declara que o homem estivera morando em Pottenbrunn durante alguns meses, exercendo sua ocupação de pintor. Em 29 de agosto, enquanto se encontrava na igreja da aldeia, fora tomado por convulsões assustadoras. Como as convulsões tornaram a apresentar-se durante os dias seguintes, fora examinado pelo Praefectus Dominii Pottenbrunnensis, com vistas a descobrir o que o oprimia e se ele não havia assumido intercâmbio ilícito com o Espírito Mau. A seguir, o homem havia admitido que, nove anos antes, encontrando-se em estado de desalento quanto à sua arte e duvidoso sobre a possibilidade de se sustentar, entregara-se ao Demônio, que o havia tentado nove vezes, e dera-lhe seu compromisso por escrito de pertencer-lhe em corpo e alma após um período de nove anos. Esse período expiraria no 24º dia do mês corrente. A carta prosseguia dizendo que o infeliz se havia arrependido e estava convencido de que só a graça da Mãe de Deus em Mariazell poderia salvá-lo, obrigando o Maligno a liberá-lo do compromisso, escrito com sangue. Por essa razão, o padre da aldeia aventurara-se a recomendar miserum hunc hominem omni auxilio destitutum  à benevolência dos padres de Mariazell.

Aqui termina a narrativa de Leopoldus Braun, o padre da aldeia de Pottenbrunn, datada de 1º de setembro de 1677. Podemos agora prosseguir com a análise do manuscrito. Ele consiste em três partes:

(1) Uma página de rosto colorida, representando a cena da assinatura do pacto e a cena da redenção, na capela de Mariazell. Na folha seguinte  encontram-se oito quadros, também coloridos, representando as aparições subseqüentes do Demônio, com uma breve legenda em alemão referida a cada um deles. Esses quadros não são os originais; trata-se de cópias — cópias fiéis, asseguram-nos solenemente — das pinturas originais de Christoph Haizmann.

(2) O Trophaeum Mariano-Cellense real (em latim), trabalho de um compilador clerical que se assina ‘P.A.E.’ ao pé da página, e apensa a estas iniciais quatro linhas de versos contendo sua biografia. O Trophaeum termina com um depoimento do Abade Kilian de São Lamberto, datado de 9 [Assim está no manuscrito. Erroneamente indicado por Freud como ‘12 de setembro’, conforme aponta Vandendriessche (1965).] de setembro de 1729, em caligrafia diferente da do compilador. Ele testifica a correspondência exata do manuscrito e dos quadros com os originais preservados nos arquivos. Não há menção do ano em que o Trophaeum foi compilado. Ficamos livres para presumir que a compilação se fez no mesmo ano em que o Abade Kilian apresentou seu depoimento — isto é, em 1729; ou, de vez que a última data mencionada no texto é 1714, podemos localizar o trabalho do compilador entre os anos de 1714 e 1729. O milagre que deveria ser preservado do olvido por meio desse manuscrito, ocorrera em 1677 — o que equivale a dizer: de 37 a 52 anos mais cedo.

(3) O diário do pintor, escrito em alemão e abrangendo o período de sua redenção na capela até 13 de janeiro do ano seguinte, 1678. Está inserido no texto do Trophaeum, junto ao final.

O cerne do Trophaeum real consiste em dois documentos: a carta de apresentação, acima mencionada, do pároco da aldeia, Leopold Braun, de Pottenbrunn, datada de 1º de setembro de 1677, e o relatório do Abade Franciscus de Mariazell e São Lamberto, descrevendo a cura miraculosa, datado de 12 de setembro de 1677, isto é, de apenas alguns dias mais tarde. A atividade do editor ou compilador, F.A.E., forneceu um prefácio que, por assim dizer, funde o conteúdo desses dois documentos; acrescentou também algumas passagens de vinculação de pequena importância, e, ao final, um relato das vicissitudes subseqüentes do pintor, baseado em indagações feitas no ano de 1714.

A história anterior do pintor é assim contada três vezes no Trophaeum: (1) na carta de apresentação do pároco da aldeia de Pottenbrunn; (2) no relatório formal de autoria do Abade Franciscus; e (3) no prefácio do editor. Uma comparação dessas três fontes revela certas discrepâncias que não nos será sem importância acompanhar.

Posso prosseguir agora com a história do pintor. Após ter passado por um prolongado período de penitência e oração em Mariazell, o Demônio apareceu-lhe na sagrada capela à meia-noite de 8 de setembro, dia da Natividade da Virgem, sob a forma de um dragão alado, e devolveu-lhe o compromisso, que estava escrito com sangue. Aprenderemos mais tarde, para nossa surpresa, que dois compromissos com o Demônio aparecem na história de Christoph Haizmann — um anterior, escrito em tinta preta, e um posterior, redigido com sangue. O mencionado na descrição da cena de exorcismo, como se pode ver no quadro da página de rosto, é o escrito com sangue — isto é, o posterior.

A essa altura, uma dúvida quanto à credibilidade dos relatores clericais bem pode despertar em nossas mentes e avisar-nos para não desperdiçar nosso trabalho com um produto da superstição monástica. É-nos dito que diversos clérigos, mencionados pelo nome, assistiram ao exorcismo e estavam presentes na capela quando o Diabo apareceu. Se tivesse sido afirmado que também eles viram o Demônio aparecer sob a forma de dragão e oferecer ao pintor o documento redigido em vermelho (Schedam sibi porrigentem conspexisset), depararíamos com diversas possibilidades desagradáveis, dentre elas a de uma alucinação coletiva seria a mais branda. Mas o testemunho do Abade Franciscus dissipa essa dúvida. Longe de asseverar que os clérigos assistentes também viram o Diabo, declara apenas, em palavras francas e sóbrias, que o pintor subitamente se desvencilhou dos padres que o seguravam, correu para o canto da capela onde vira a aparição, e depois retornou com o documento na mão.

O milagre era grande, e a vitória da Santa Mãe sobre Satã, indiscutível; infelizmente, porém, a cura não foi duradouraMais uma vez conta em favor do clero não terem eles ocultado isso. Após curto tempo, o pintor deixou Mariazell com a melhor saúde e foi para Viena, onde residiu com uma irmã casada. Em 11 de outubro, começaram novas crises, algumas delas muito graves, as quais foram relatadas no diário até 13 de janeiro [de 1678]. Consistiam em visões e ‘absences‘, nas quais via e experimentava todo tipo de coisas, em acessos convulsivos acompanhados das sensações mais penosas; em certa ocasião, com paralisia das pernas, e assim por diante. Desta vez, porém, não era o Demônio que o atormentava, mas por figuras sagradas é que era afligido — por Cristo e pela própria Santa Virgem. É digno de nota que ele não sofresse menos por essas manifestações celestiais e pelos castigos que lhe infligiam, do que anteriormente sofrera por seu intercâmbio com o Demônio. Em seu diário, em verdade, incluiu essas novas experiências também como manifestações do Diabo, e quando, em maio de 1678, retornou a Mariazell, queixou-se de maligni Spiritûs manifestationes [‘manifestações do Espírito Mau’].

Contou aos reverendos padres que sua razão para retornar era ter de solicitar ao Demônio devolver-lhe outro compromisso anterior, que fora escrito a tinta. Ainda desta vez a Santa Virgem e os piedosos padres ajudaram-no a conseguir o atendimento de seu pedido. Quanto à maneira por que isso aconteceu, no entanto, o relatório silencia. Ele simplesmente declara de modo sucinto: quâ iuxta votum redditâ [‘quando este foi devolvido de acordo com sua prece’] — ele orou de novo e recebeu de volta o pacto. Passado isso, sentiu-se inteiramente livre e ingressou na Ordem dos Irmãos Hospitalários.

Mais uma vez temos ocasião de reconhecer que, apesar do intuito óbvio de seus esforços, o compilador não foi tentado a apartar-se da veracidade exigida de um caso clínico, pois não esconde o resultado da indagação que em 1714 foi feita pelo Superior do Mosteiro dos Irmãos Hospitalários [em Viena], com referência à história posterior do pintor. O reverendo Pater Provincialis comunicou que o Irmão Crisóstomo havia sido repetidamente tentado pelo Espírito Mau, que tentara seduzi-lo a fazer um novo pacto (embora isso só acontecesse ‘quando ele bebera vinho um pouco em demasia’). Mas, pela graça de Deus, sempre fora possível repelir essas tentativas. Irmão Crisóstomo morrera de febre héctica, ‘pacificamente e bem confortado’, no ano de 1700, no Mosteiro da Ordem, em Neustatt sobre a Moldávia.

II - O MOTIVO PARA O PACTO COM O DEMÔNIO

Se examinarmos esse compromisso com o Demônio como se fosse o caso clínico de um neurótico, nosso interesse se voltará, em primeira instância, para a questão de sua motivação, que, naturalmente, está intimamente vinculada à sua causa excitante. Por que alguém assina um compromisso com o Demônio? Fausto, é verdade, indagou desdenhosamente: ‘Was willst du armer Teufel geben?’ [‘O que tens a dar, pobre Diabo?’] Mas ele estava errado. Em troca de uma alma imortal, o Demônio tem muitas coisas a oferecer, que são altamente prezadas pelos homens: riqueza, segurança quanto ao perigo, poder sobre a humanidade e as forças da natureza, até mesmo artes mágicas, e, acima de tudo o mais, o gozo — o gozo de mulheres belas. Esses serviços desempenhados ou empreendimentos efetuados pelo Demônio são geralmente mencionados de modo específico no acordo que com ele é feito. Qual, então, foi o motivo que induziu Christoph Haizmann a fazer seu pacto?

De modo bastante curioso, não foi nenhum desses desejos muito naturais. Para deixar o assunto além de qualquer dúvida, há apenas que ler as breves observações apostas pelo pintor às suas ilustrações das aparições do Demônio. Por exemplo, a legenda da terceira visão diz: ‘Na terceira ocasião dentro de um ano e meio, ele me apareceu sob essa forma abominável, em sua mão um livro que estava cheio de magia e artes negras…’  Mas, da legenda aposta a uma aparição posterior, ficamos sabendo que o Diabo censurou-o violentamente por haver ‘queimado seu livro anteriormente mencionado’, e ameaçou despedaçá-lo se não o devolvesse.

Em sua quarta aparição, o Demônio mostrou-lhe um grande saco amarelo de dinheiro e um grande ducado, e prometeu dar-lhe tantos deles quantos ele quisesse, em qualquer ocasião. Mas o pintor pode gabar-se de que ‘nada aceitou dessa espécie’.

Noutra ocasião, o Demônio pediu-lhe para voltar-se para o gozo e a diversão, mas o pintor observa que ‘isso, em verdade, veio a ocorrer por seu desejo, mas eu não continuei por mais que três dias e logo após fui novamente liberado’.

Visto ter rejeitado as artes mágicas, o dinheiro e os prazeres quando lhe foram oferecidos pelo Demônio, e tampouco os tornado condições do pacto, fica realmente imperativo saber o que o pintor de fato queria do Diabo, quando assinou um compromisso com ele. Algum motivo ele deve ter tido para seus tratos com o Demônio.

Também sobre esse ponto o Trophaeum nos proporciona informações fidedignas. Ele ficara abatido, era incapaz ou não tinha disposição de trabalhar adequadamente, e estava preocupado sobre como ganhar a vida; isso equivale a dizer que sofria de depressão melancólica, com uma inibição em seu trabalho e temores (justificados) quanto ao seu futuro. Podemos ver que estamos tratando realmente com um caso clínico. Ficamos sabendo também a causa excitante da doença, que o próprio pintor, na legenda a um de seus retratos do Diabo, chama realmente de melancolia (‘que eu procurasse diversão e banisse a melancolia’). A primeira de nossas três fontes de informação, a carta de apresentação do pároco da aldeia, fala, é verdade, apenas no estado de depressão (‘dum artis suae progressum emolumentumque secuturum pusillaminis perpenderet‘), mas a segunda fonte, o relatório do Abade Franciscus, conta-nos também a causa desse desalento ou depressão. Diz ele: ‘acceptâ aliquâ pusillanimitate ex morte parentis’, e no prefácio do compilador são usadas as mesmas palavras, embora em ordem inversa: (‘ex morte parentis acceptâ aliquâ pusillanimitate‘). Seu pai, portanto, falecera, e, em conseqüência, ele havia caído em um estado de melancolia, após o que o Demônio se aproximara dele e lhe perguntara por que estava tão abatido e triste, e prometera ‘auxiliá-lo de todas as maneiras e dar-lhe apoio’.

Temos aqui, portanto, uma pessoa que assinou um compromisso com o Diabo, a fim de ser libertado de um estado de depressão. Um motivo excelente, indubitavelmente, como concordará quem quer que possa ter um senso compreensivo dos tormentos de tal estado e que saiba bem quão pouco os remédios podem fazer para aliviar essa enfermidade. Entretanto, ninguém que tenha acompanhado a história até aqui seria capaz de adivinhar qual foi realmente o fraseado desse compromisso (ou melhor, desses dois compromissos) com o Demônio.

Esses compromissos nos trazem duas grandes surpresas. Em primeiro lugar, não mencionam nenhuma promessa feita pelo Demônio, em troca de cuja efetivação o pintor comprometa a sua felicidade eterna, mas apenas uma exigência efetuada pelo Diabo, que o pintor deve satisfazer. Impressiona-nos como inteiramente ilógico e absurdo que esse homem deva entregar sua alma, não por algo que deva conseguir do Demônio, mas por algo que tem de fazer para este. A promessa feita pelo pintor, porém, parece ainda mais estranha.

O primeiro ‘syngrapha’ [compromisso], redigido a tinta, diz o seguinte: ‘Ich Christoph Haizmann vndterschreibe mich disen Herrn sein leibeigener Sohn auff 9. Jahr. 1669 Jahr.’  O segundo, escrito com sangue, diz:
            ‘Anno 1669.
‘Christoph Haizmann. Ich verschreibe mich disen Satan ich sein leibeigner Sohn zu sein, und in 9. Jahr ihm mein Lieb und Seel zuzugeheren.’

Todo o nosso espanto se desfaz, contudo, se lermos o texto dos compromissos no sentido de que aquilo que é representado neles como uma exigência feita pelo Demônio, é, pelo contrário, um serviço por ele desempenhado — quer dizer, trata-se de um pedido feito pelo pintor. O pacto incompreensível teria, nesse caso, um significado direto e poderia ser assim parafraseado: o Demônio compromete-se a substituir o pai perdido pelo pintor durante nove anos. Ao final desse tempo, o pintor se torna propriedade, em corpo e alma, do Demônio, como era o costume usual em tais barganhas. A seqüência de pensamento que motivou o pintor a fazer o pacto parece ter sido esta: a morte do pai o fizera perder sua disposição de ânimo e capacidade de trabalhar; se pudesse conseguir um substituto paterno, poderia esperar reconquistar o que perdera.

Um homem que caiu em melancolia por causa da morte do pai deve realmente ter gostado muito dele. Se assim foi, no entanto, é muito estranho que esse homem tenha tido a idéia de aceitar o Demônio como substituto do pai que amara.

III - O DEMÔNIO COMO SUBSTITUTO PATERNO

Temo que os críticos sóbrios não estarão preparados para admitir que essa nova interpretação tenha esclarecido o significado desse pacto com o Demônio. Terão duas objeções a fazer-lhe.

Em primeiro lugar, dirão que não é necessário encarar o pacto como um contrato em que os compromissos de ambas as partes foram estabelecidos. Pelo contrário, argumentarão, ele contém apenas a promessa do pintor; a do Diabo é omitida do texto, sendo, por assim dizer, sousentendueo pintor faz duas promessas — primeiro, ser o filho do Demônio durante nove anos, e, segundo, pertencer-lhe inteiramente após a morte. Assim, uma das premissas em que nossa conclusão se funda, seria dispensada.

A segunda objeção será a de não termos justificativa para ligar qualquer importância especial à expressão ‘filho obrigado do Demônio’; que ela não é mais que uma figura comum de retórica, que qualquer um poderia interpretar da mesma maneira como os reverendos Padres podem ter feito, pois, em sua tradução latina, eles não mencionam o relacionamento filial prometido nos compromissos, mas simplesmente dizem que o pintor ‘mancipavit‘ a si próprio — tornava-se mancípio — ao Maligno e empreendia levar uma vida pecaminosa e negar Deus e a Santíssima Trindade. Por que afastarmo-nos dessa visão óbvia e natural do assunto? A posição seria simplesmente a de um homem que, no tormento e perplexidade de uma depressão melancólica, assina um compromisso com o Demônio, a quem atribui o maior poder terapêutico. Que a depressão fosse ocasionada pela morte do pai seria então irrelevante; a ocasião poderia tão bem ter sido outra qualquer.

Tudo isso soa convincente e razoável. A psicanálise mais uma vez tem de enfrentar a censura de fazer complicações bizantinas das coisas mais simples e de ver mistérios e problemas onde nenhum deles existe, e que assim procede por dar ênfase indevida a pormenores insignificantes e irrelevantes, tais como ocorrem em todas as partes, e transformá-los na base das mais estranhas e exageradas conclusões. Seria inútil apontarmos que essa rejeição de nossa interpretação negaria muitas notáveis analogias e romperia certo número de sutis conexões que pudemos demonstrar nesse caso. Nossos opositores dirão que essas analogias e conexões não existem de fato, mas que as trouxemos para o caso com engenhosidade totalmente dispensável.

Não prefaciarei minha resposta com as palavras ‘para ser honesto’ ou ‘para ser sincero’, porque ser um ou outro é sempre uma necessidade que dispensa quaisquer preliminares especiais. Em vez disso, simplesmente direi saber muito bem que nenhum leitor que já não acredite na justificabilidade do modo de pensamento psicanalítico adquirirá essa crença com o caso do pintor do século XVII, Christoph Haizmann. Tampouco é minha intenção usar esse caso como prova da validade da psicanálise. Pelo contrário, pressuponho sua validade e estou empregando-a para lançar luz sobre a moléstia demoníaca do pintor. Minha justificação para assim proceder reside no sucesso de nossas investigações da natureza das neuroses em geral. Podemos dizer, com toda a modéstia, que hoje mesmo os mais obtusos de nossos colegas e contemporâneos estão começando a entender que nenhuma compreensão dos estados neuróticos pode ser alcançada sem o auxílio da psicanálise.

Estas lanças podem conquistar Tróia, estas lanças sozinhas
como confessa Odisseu, no Filocteto, de Sófocles.

Se estamos com a razão em considerar o compromisso de nosso pintor com o Demônio como uma fantasia neurótica, não há necessidade de novas escusas para considerá-la psicanaliticamente. Mesmo pequenas indicações possuem significado e importância, e muito especialmente quando se acham relacionadas às condições em que uma neurose se origina. Com efeito, é tão possível supervalorizá-las quanto subvalorizá-las, sendo questão de julgamento saber até onde se pode ir no explorá-las. Mas a todo aquele que não acredite na psicanálise — ou, a propósito, nem mesmo no Diabo — deve-se deixar que faça o que puder do caso do pintor, seja ele capaz de fornecer uma explicação própria, seja que nada veja ali que necessite de explicação.

Retornemos portanto à nossa hipótese de que o Demônio, com quem o pintor assinou o compromisso, era um substituto direto de seu pai. E isso é confirmado pela forma sob a qual o Diabo pela primeira vez lhe apareceu — como um honesto cidadão de idade, de barbas castanhas, vestido com uma capa vermelha e apoiando-se com a mão direita numa bengala, com um cão negro ao lado (cf. a primeira ilustração). Posteriormente, sua aparência torna-se cada vez mais terrificante — mais mitológica, dir-se-ia. Está aparelhado com chifres, garras de água e asas de morcego. Teremos de retornar mais tarde a um pormenor específico de sua forma corporal.

De fato, soa estranho que o Diabo seja escolhido como substituto para um amado pai. Porém, só à primeira vista, pois sabemos de muitas coisas que irão abrandar nossa surpresaPara começar, sabemos que Deus é um substituto paterno, ou, mais corretamente, que ele é um pai exalçado, ou, ainda, que constitui a cópia de um pai tal como este é visto e experimentado na infância — pelos indivíduos em sua própria infância, e pela humanidade em sua pré-história, como pai da horda primitiva e primeva. Posteriormente na vida, o indivíduo vê seu pai como algo diferente e menor. Porém, a imagem ideativa que pertence à infância é preservada e se funde com os traços da memória [inconsciente] herdados do pai primevo para formar a idéia que o indivíduo tem de Deus. Sabemos também, da vida secreta do indivíduo revelada pela análise, que sua relação com o pai foi talvez ambivalente desde o início, ou, pelo menos, cedo veio a ser assim. Isso equivale a dizer que ela continha dois conjuntos de impulsos emocionais que se opunham mutuamente; continha não apenas impulsos de natureza afetuosa e submissa, mas também impulsos hostis e desafiadores. É nossa opinião que a mesma ambivalência dirige as relações da humanidade com sua Divindade. O problema não solucionado entre o anseio pelo pai, por um lado, e, por outro, o medo dele e o seu desafio pelo filho, nos proporcionou uma explicação de importantes características da religião e de decisivas vicissitudes nela.

Com respeito ao Demônio Maligno, sabemos que ele é considerado como a antítese de Deus, e, contudo, está muito próximo dele em sua natureza. Sua história não foi bem estudada como a de Deus; nem todas as religiões adotaram o Espírito Maligno, o oponente de Deus, e seu protótipo na vida do indivíduo até o presente permaneceu obscuro. Uma coisa, porém, é certa: os deuses podem transformar-se em demônios maus quando novos deuses os expulsam. Quando determinado povo foi conquistado por outro, seus deuses caídos não raramente se transformam em demônios aos olhos dos conquistadores. O demônio mau da fé cristã — o diabo da Idade Média — foi, de acordo com a mitologia cristã, ele próprio um anjo caído e de natureza semelhante a Deus. Não é preciso muita perspicácia para adivinhar que Deus e o Demônio eram originalmente idênticos — uma figura única posteriormente cindida em duas figuras com atributos opostosNas épocas primitivas da religião o próprio Deus ainda possuía todos os aspectos terrificantes que mais tarde se combinaram para formar uma contraparte dele.

Temos aqui um exemplo do processo, com que estamos familiarizados, pelo qual uma idéia que possui um conteúdo contraditório — ambivalente —, se divide em dois opostos nitidamente contrastados. As contradições da natureza original de Deus, contudo, constituem um reflexo da ambivalência que governa a atitude do indivíduo com seu pai pessoal. Se o Deus benevolente e justo é um substituto do pai, não é de admirar que também sua atitude hostil para com o pai, que é uma atitude de odiá-lo, temê-lo e fazer queixas contra ele, ganhe expressão na criação de Satã. Assim, o pai, segundo parece, é o protótipo individual tanto de Deus quanto do Demônio. Mas deveríamos esperar que as religiões portassem marcas indeléveis do fato de que o primitivo pai primevo era um ser de maldade ilimitada — um ser mais semelhante ao Demônio do que a Deus.

É verdade que de modo algum é fácil demonstrar os traços dessa visão satânica do pai na vida mental do indivíduo. Quando um menino desenha rostos grotescos e caricaturas, podemos francamente demonstrar que neles está escarnecendo de seu pai, e quando uma pessoa de qualquer sexo tem medo de ladrões e arrombadores à noite, não é difícil identificá-los como partes expelidas (split-off) do pai. Também os animais que aparecem nas fobias animais das crianças são muito amiúde substitutos paternos, como o foram os animais totêmicos das épocas primevas. Que o Demônio, porém, seja uma duplicata do pai e possa agir como substituto dele, não fora demonstrado tão claramente noutra parte como na neurose demoníaca desse pintor do século XVII. Foi por isso que, no início deste artigo, predisse que um caso clínico de demonologia desse tipo produziria, sob a forma de metal puro, um material que nas neuroses de uma época posterior (não mais supersticiosas, mas antes hipocondríacas) tem de ser laboriosamente extraído, pelo trabalho analítico, do minério das associações livres e dos sintomas. Uma penetração mais profunda na análise da moléstia de nosso pintor provavelmente trará uma convicção mais forte. Não é algo fora do comum para um homem adquirir uma depressão melancólica e uma inibição em seu trabalho, em resultado da morte do seu pai. Quando isto acontece, concluímos que o homem fora ligado ao pai por um amor especialmente intenso e recordamos com quanta freqüência uma melancolia grave surge como forma neurótica de luto.

Nesse ponto, estamos indubitavelmente certos. Mas não se concluirmos, ademais, que essa relação foi simplesmente de amor. Ao contrário, seu luto pela perda do pai tem mais probabilidade de se transformar em melancolia, quanto mais sua atitude para com ele portar a marca da ambivalência. Essa ênfase na ambivalência, contudo, prepara-nos para a possibilidade de o pai ser submetido a um aviltamento, como vemos acontecer na neurose demoníaca do pintor. Se pudéssemos conhecer tanto sobre Christoph Haizmann quanto conhecemos sobre um paciente que faz análise conosco, seria assunto fácil trazer à tona essa ambivalência, fazê-lo recordar quando e face a quais provocações ele encontrou motivos para temer e odiar o pai, e acima de tudo, descobrir quais foram os fatores acidentais que se acrescentaram aos motivos típicos para o ódio ao pai, inerentes ao relacionamento natural de filho e pai. Talvez pudéssemos então encontrar uma explicação especial para a inibição do pintor no trabalho. É possível que seu pai se tivesse oposto ao seu desejo de se tornar pintor. Se assim foi, sua incapacidade de exercer sua arte após a morte do pai seria, por um lado, expressão do conhecido fenômeno de ‘obediência adiada’  e, por outro, tornando-o incapaz de ganhar a vida, seria compelida a aumentar seu anseio pelo pai como protetor contra os cuidados da vida. Em seu aspecto de obediência adiada, seria também expressão de remorso e uma autopunição bem-sucedida.

Visto, contudo, não podermos efetuar uma análise desse tipo com Christoph Haizmann, que faleceu no ano de 1700, temos de contentar-nos com salientar aqueles aspectos de seu caso clínico que possam apontar as causas excitantes típicas de uma atitude negativa para com o pai. Há apenas alguns desses aspectos, sequer muito notáveis, porém são de grande interesse.

Consideremos primeiramente o papel desempenhado pelo número nove. O pacto com o Maligno foi por nove anos. Sobre esse ponto, o relatório inquestionavelmente fidedigno do pároco da aldeia de Pottenbrunn é inteiramente claro: pro novem annis Syngraphen scriptam tradidit.. Essa carta de apresentação, datada de 1º de setembro de 1677, pode também informar-nos de que o período indicado estava a ponto de expirar em alguns dias: quorum et finis 24 mensis hujus futurus appropinquat.  O pacto, portanto, teria sido assinado em 24 de setembro de 1668. No mesmo relatório, na verdade, ainda outro emprego é feito do número nove. O pintor alega ter resistido às tentações do Maligno nove vezes — ‘nonies‘ — antes de render-se a ele. Este não é mais mencionado nos relatórios posteriores. Na declaração do Abade, a frase ‘post annos novem [após nove anos]’ é usada, e o compilador repete ‘ad novem annos [durante nove anos]’ em seu resumo — prova de que esse número não era encarado como indiferente.

O número nove é bem conhecido de nós das fantasias neuróticas. Ele é o número dos meses de gravidez, e, onde quer que apareça, dirige nossa atenção para uma fantasia de gravidez. No caso de nosso pintor, com efeito, o número refere-se a anos, não a meses, e haverá objeção de que nove é um número significativo sob outros aspectos também. Mas quem sabe se porventura ele não deve, em geral, boa parte de sua santidade ao papel que desempenha na gravidez? Nem precisamos ficar desconcertados pela mudança de nove meses para nove anos. Sabemos pelos sonhos  quais as liberdades que a ‘atividade mental inconsciente’ toma com os númerosSe, por exemplo, em um sonho ocorre o número cinco, isso pode ser invariavelmente remontado a um cinco que é importante na vida desperta; porém, enquanto na vida desperta o cinco era uma diferença de cinco anos de idade ou um grupo de cinco pessoas, no sonho ele apareceu como cinco notas de dinheiro ou cinco frutas. Isso equivale a dizer que o número é mantido, mas seu denominador é modificado de acordo com as exigências da condensação e do deslocamento. Nove anos, em um sonho, poderiam assim facilmente corresponder a nove meses na vida real. A elaboração onírica brinca com os números da vida desperta de outra maneira também, pois demonstra um desprezo soberano pelos zeros e não os trata como números de modo algum. Cinco dólares em um sonho podem representar 50, 500 ou 5.000 dólares na realidade.

Outro pormenor nas relações do pintor com o Demônio possui, mais uma vez, uma referência sexual. Na primeira ocasião, como mencionei, ele viu o Maligno sob a forma de um honesto cidadão. Já na segunda ocasião o Diabo estava nu e disforme, e tinha dois pares de seios femininos. Em nenhuma de suas aparições subseqüentes os seios estão ausentes, quer como par único ou duplo. Somente em um deles o Demônio exibe, além dos seios, um grande pênis terminando por uma serpente. Essa ênfase do caráter sexual feminino, pela introdução de grandes e pendentes seios (nunca há qualquer indicação dos órgãos genitais femininos) está fadada a parecer-nos uma contradição notável de nossa hipótese de que o Demônio tinha o significado de um substituto paterno para o pintor. E, de fato, tal maneira de representar o Demônio é em si própria fora do comum. Onde se pensa em ‘diabo’ num sentido genérico e demônios aparecem em grande número, nada há de estranho em representar demônios femininos; mas que o Demônio, que constitui uma grande individualidade, o Senhor do Inferno e Adversário de Deus, seja representado diferentemente de um macho e, na verdade, como um supermacho, com chifres, cauda e uma grande serpente-pênis — isso, creio, jamais é encontrado.

Essas duas indicações ligeiras dão-nos uma idéia de qual fator típico determina o lado negativo da relação do pintor com o pai. Aquilo contra o que está se rebelando é a sua atitude feminina para com o pai, que culmina pela fantasia de dar-lhe um filho (os nove anos). De nossas análises, temos um conhecimento preciso dessa resistência, de onde ela assume formas muito estranhas na transferência e nos dá boa dose de trabalho. Com o luto do pintor pelo pai perdido e a intensificação de seu anseio por ele, também sucede nele uma reativação de sua fantasia de gravidez há muito tempo reprimida, e ele é obrigado a se defender dela com uma neurose e com aviltamento do pai.

No entanto por que deveria seu pai, após ser reduzido à condição de Demônio, portar essa marca física de uma mulher? A característica, a princípio, parece difícil de interpretar, porém logo encontramos duas explicações que competem uma com a outra, sem se excluírem mutuamente. A atitude feminina de um menino com o pai sofre repressão tão logo ele compreende que sua rivalidade com uma mulher pelo amor do pai tem, como precondição, a perda de seus próprios órgãos genitais masculinos — em outras palavras: a castraçãoO repúdio da atitude feminina é, assim, o resultado de uma revolta contra a castração. Ela normalmente encontra sua expressão mais forte na fantasia inversa de castrar o pai, de transformá-lo em mulher. Desse modo, os seios do Demônio corresponderiam a uma projeção da própria feminilidade do indivíduo sobre o substituto paterno. A segunda explicação desses acréscimos femininos ao corpo do diabo não tem mais um sentido hostil, mas afetuoso. Ela vê na adoção dessa forma uma indicação de que os sentimentos ternos da criança pela mãe foram deslocados para o pai, e isso sugere que houve previamente intensa fixação na mãe, fixação que, por sua vez, é responsável por parte da hostilidade da criança para com o pai. Seios grandes são as características sexuais positivas da mãe, mesmo numa ocasião em que a característica negativa de uma mulher — sua falta de um pênis — ainda é desconhecida da criança.

Se a repugnância de nosso pintor de aceitar a castração lhe tornou impossível apaziguar seu anseio pelo pai, é perfeitamente compreensível que se tenha voltado para a imagem da mãe em busca de auxílio e salvação. Essa a razão de haver declarado que apenas a Santa Mãe de Deus de Mariazell poderia libertá-lo de seu pacto com o Demônio e de haver obtido sua liberdade mais uma vez no dia da Natividade da Santa Mãe (8 de setembro). Se o dia em que o pacto foi feito — 24 de setembro — também não foi determinado de algum modo parecido, isso naturalmente nunca saberemos.

Entre as observações feitas pela psicanálise sobre a vida mental das crianças, dificilmente existe alguma que soe tão repugnante e inacreditável a um adulto normal quanto a da atitude feminina de um menino para com o pai e a fantasia de gravidez que dela surge. Somente depois que o Senatspräsident Daniel Paul Schreber, juiz presidente de uma divisão da Corte de Apelação da Saxônia, publicou a história de sua doença psicótica e seu amplo restabelecimento dela, que podemos debater o assunto sem agitação ou escusas. Informa-nos esse valiosíssimo livro que, por volta da idade de 50 anos, o Senatspräsident ficou firmemente convencido de que Deus — ele, incidentalmente, apresentava traços distintos de seu pai, o digno médico Dr. Schreber — decidira emasculá-lo, utilizá-lo como mulher e engendrar nele ‘uma nova raça de homens, nascidos do espírito de Schreber.’ (Seu próprio matrimônio era sem filhos.) Em sua revolta contra essa intenção de Deus, que lhe parecia altamente injusta e ‘contrária à Ordem das Coisas’, caiu enfermo com sintomas de paranóia, os quais, entretanto, experimentaram um processo de involução no decorrer dos anos, deixando atrás de si apenas um pequeno resíduo. O dotado autor de seu próprio caso clínico não poderia ter adivinhado que, nele, revelara um fator patogênico típico.

Essa revolta contra a castração ou uma atitude feminina foi arrancada de seu contexto orgânico por Alfred Adler. Ele a vinculou superficial ou falsamente ao anseio de poder e postulou-a de um ‘protesto masculino’ independente. De vez que uma neurose só pode originar-se de um conflito entre duas tendências, é tão justificável enxergar a causa de ‘toda’ neurose no protetor masculino quanto vê-la na atitude feminina contra a qual o protesto é feito. É inteiramente verídico que esse protesto masculino desempenha papel regular na formação do caráter — em certos tipos de pessoas, um papel muito grande — e que o encontramos na análise de homens neuróticos como vigorosa resistência. A psicanálise concedeu a importância devida ao protesto masculino em vinculação com o complexo de castração, sem poder aceitar sua onipotência ou sua onipresença nas neuroses. O caso mais acentuado de protesto masculino, com todas as suas reações manifestas e traços de caráter, com que me defrontei na análise, foi o de um paciente que me procurou para tratamento por causa de uma neurose obsessiva em cujos sintomas o conflito não solucionado entre uma atitude masculina e outra feminina (medo da castração e desejo da castração) encontrava clara expressão. Ademais, o paciente havia desenvolvido fantasias masoquistas, derivadas inteiramente de um desejo de aceitar a castração, e fora mesmo além dessas fantasias, à satisfação real em situações pervertidas. A totalidade de seu estado repousava — como a própria teoria de Adler — na repressão e negação de primitivas fixações infantis de amor.

Senatspräsident Schreber encontrou o caminho da cura quando decidiu abandonar sua resistência à castração e acomodar-se ao papel feminino que lhe fora estabelecido por Deus. Passado isso, ficou lúcido e calmo, foi capaz de levar a cabo sua própria alta do asilo e levou uma vida normal — com a única exceção de dedicar algumas horas de cada dia ao cultivo de sua própria feminilidade, de cujo avanço gradual no sentido do objetivo determinado por Deus permaneceu convencido.

IV - OS DOIS COMPROMISSOS

Um pormenor notável na história de nosso pintor é a declaração de que ele assinou dois compromissos diferentes com o Demônio.

O primeiro, escrito a tinta preta, dizia o seguinte:
 ‘Eu, Chr., H., subscrevo-me a este Senhor como seu filho obrigado, até o nono ano.’
O segundo, redigido com sangue, dizia:
‘Chr. H. Assino um compromisso com este Satã, de ser seu filho obrigado, e, no nono ano, pertencer-lhe em corpo e alma.’

Diz-se que os originais de ambos estiveram nos arquivos de Mariazell quando o Trophaeum foi compilado, e ambos portam a mesma data: 1669.

Já fiz certo número de referências aos dois compromissos e agora me proponho tratar deles com mais detalhe, embora seja exatamente aqui que o perigo de supervalorizar insignificâncias parece especialmente grande.

Não é hábito alguém assinar duas vezes um compromisso com o Diabo, de maneira que o primeiro documento seja substituído pelo segundo sem, contudo, perder sua própria validade. Talvez essa ocorrência seja menos surpreendente para outras pessoas que estão mais à vontade com material demonológico. De minha parte, só pude encará-lo como uma peculiaridade especial de nosso caso e minhas suspeitas despertaram quando descobri que os relatórios variavam exatamente nesse ponto. O exame dessas discrepâncias nos facultará, inesperadamente, uma compreensão mais profunda do caso clínico.

A carta de apresentação do pároco da aldeia de Pottenbrunn descreve uma situação muito simples e clara. Nela, faz-se menção apenas a um compromisso, escrito com sangue pelo pintor nove anos antes, e que deveria expirar no período de alguns dias — em 24 de setembro [de 1677]. Deve, portanto, ter sido redigido em 24 de setembro de 1668; essa data, infelizmente, embora possa ser inferida com certeza, não é explicitamente enunciada.

O depoimento do Abade Franciscus, datado, como sabemos, de alguns dias depois (12 de setembro de 1677) já descreve um estudo de coisas mais complicado. É plausível presumir que o pintor fornecera informações mais precisas nesse intervalo. O depoimento relata que o pintor assinara dois compromissos: um no ano de 1668 (data que também deveria ser a correta, de acordo com a carta de apresentação), escrito em tinta preta, e o outro ‘sequenti anno [no ano seguinte] 1669‘, escrito com sangue. O compromisso que recebera de volta no dia da Natividade da Virgem [8 de setembro] fora o escrito com sangue, ou seja, o posterior, assinado em 1669. Isso não aparece no depoimento do Abade, pois aí simplesmente diz que mais tarde ‘schedam redderet [devolver-lhe-ia o documento]’ e ‘schedam sibi porrigentem conspexisset [viu-o oferecendo o documento]’, como se se pudesse tratar apenas de um único documento. Mas isso decorre do curso subseqüente da história, e também da página de rosto colorida do Trophaeum, onde o que é claramente um escrito vermelho pode ser visto sobre o documento que o dragão demoníaco está segurando. O curso ulterior da história é, como já relatei, que o pintor retornou a Mariazell em maio de 1678, após ter experimentado novas tentações do Maligno em Viena, e implorou que, mediante novo ato de graça por parte da Santa Mãe, o primeiro documento, redigido a tinta, também lhe pudesse ser devolvido. A maneira por que isso aconteceu não é tão plenamente descrita como a primeira ocasião. É-nos simplesmente dito: ‘quâ juxta votum redditâ [quando este foi devolvido de acordo com a sua prece]’; e, noutra passagem, o compilador diz que esse compromisso específico foi arremessado ao pintor pelo Demônio, ‘amassado em bola e rasgado em quatro pedaços’, em 9 de maio de 1678, por volta das nove horas da noite.

Ambos os compromissos, contudo, portam a data do mesmo ano: 1669.

Tal incompatibilidade, ou não tem significação ou pode colocar-nos na pista seguinte.

Se tomarmos como ponto de partida o relato do Abade, por ser o mais pormenorizado, confrontamo-nos com certo número de dificuldades. Quando Christoph Haizmann confessou ao pároco da aldeia de Pottenbrunn que fora pressionado pelo Demônio e o limite de tempo certo expiraria, só poderia [em 1677] ter estado pensando no compromisso que assinara em 1668, quer dizer, o primeiro deles, escrito em negro (mencionado na carta de introdução como sendo o único, porém nela descrito como redigido com sangue). Alguns dias mais tarde, em Mariazell, preocupava-se apenas em conseguir de volta o compromisso posterior, em sangue, cujo vencimento então não estava próximo (1669-77), e permitiu que o primeiro vencesse. Esse último não foi reclamado até 1678, isto é, quando havia entrado em seu décimo ano. Ademais, por que são os compromissos datados do mesmo ano (1669), quando um deles é explicitamente atribuído ao ano seguinte (‘anno subsequenti‘ )?

O compilador deve ter observado essas dificuldades, pois fez uma tentativa para removê-las. Em seu prefácio adotou a versão do Abade, mas modificou-a em determinado particular. O pintor, diz ele, assinou um compromisso com o Demônio em 1669 a tinta, mas depois (‘deinde vero‘), com sangue. Excedeu ele, assim, a declaração expressa de que um compromisso fora assinado em 1668, e ignorou a observação do Abade, em seu depoimento, no sentido de que havia uma diferença no número do ano entre os dois compromissos. Fez isso a fim de manter-se em harmonia com a data dos dois documentos devolvidos pelo Demônio.

No depoimento do Abade ocorre entre parênteses uma passagem após as palavras ‘sequenti vero anno [mas no ano seguinte] 1669‘. Diz ela: ‘sumitur hic alter annus pro nondum completo, uti saepe in loquendo fieri solet, nam eunden annum indicant syngraphae, quarum atramento scripta ante praesentem attestationem nondum habita fuit.’ Esta passagem é claramente uma interpolação por parte do compilador, pois o Abade, que só vira um compromisso, não poderia ter declarado que ambos portavam a mesma data. A colocação da passagem entre parênteses, além disso, deve ter sido com a intenção de mostrar ser uma adição ao texto do depoimento. Ela representa outra tentativa por parte do compilador para reconciliar a prova incompatível. Concorda que o primeiro compromisso foi assinado em 1668, mas acha que, visto o ano já estar tão avançado (era setembro), o pintor pós-datara-o de um ano, de modo a que ambos os compromissos pudessem apresentar o mesmo ano. Ele invocara o fato de que as pessoas amiúde fazem o mesmo tipo de coisa em conversa, parece-me assinalar toda a sua tentativa de explicação com uma débil evasão, não mais.

Não posso dizer se minha apresentação do caso causou alguma impressão no leitor e se o colocou em posição de se interessar por essas minúcias. Eu próprio achei impossível chegar com alguma certeza ao verdadeiro estado de coisas, porém estudando esse confuso assunto deparei com uma noção que tem a vantagem de fornecer a representação mais natural do curso dos acontecimentos, embora novamente as provas escritas não se ajustem inteiramente a ela.

Minha opinião é que, quando chegou pela primeira vez a Mariazell, o pintor falou apenas de um só compromisso, redigido, de maneira normal, com sangue, o qual estava a ponto de vencer e, portanto, fora assinado em setembro de 1668 — tudo exatamente como descrito na carta de apresentação do pároco da aldeia. Também em Mariazell ele apresentou esse compromisso em sangue como sendo o que lhe devolvera o Demônio sob compulsão da Santa Mãe. Sabemos o que aconteceu em seguida. O pintor deixou o santuário logo depois e foi para Viena, onde se sentiu livre até meados de outubro. Então, começou, porém, mais uma vez a ficar sujeito a padecimentos e aparições, nas quais viu a obra do Espírito Maligno. Sentiu-se novamente em necessidade de redenção, mas defrontou-se com a dificuldade de explicar por que o exorcismo na sagrada capela não lhe trouxera libertação permanente. Certamente não seria bem acolhido em Mariazell se lá retornasse não curado e com uma recaída. Nesse dilema, inventou um primeiro compromisso, mais antigo, o qual, contudo, deveria ser redigido a tinta, para que sua anulação em favor de um posterior, escrito com sangue, parecesse mais plausível. Havendo retornado a Mariazell, teve esse pretenso primeiro compromisso devolvido a ele, também. Depois disso, foi deixado em paz pelo Maligno; ao mesmo tempo, porém, fez algo mais, que nos demonstrará o que jazia por trás de sua neurose.

Os desenhos que fez foram indubitavelmente executados durante sua segunda estada em Mariazell: a página de rosto, que é uma composição única, contém a representação de ambas as cenas dos compromissos. A tentativa de fazer sua nova história combinar com a anterior provavelmente pode ter-lhe causado embaraços. Foi para ele lamentável que sua invenção adicional só pudesse ser de um compromisso anterior, não de um posterior. Não pôde, assim, evitar o resultado esquisito de que honrara um deles — o de sangue — cedo demais (no oitavo ano) e o outro — a tinta — demasiadamente tarde (no décimo ano). E revelou a composição dupla da história cometendo um equívoco na data dos compromissos e atribuindo tanto o anterior quanto o posterior ao ano de 1669. Esse equívoco tem o significado de uma amostra de honestidade não intencional: permite-nos adivinhar que o compromisso supostamente anterior foi fabricado na data posterior. O compilador, que certamente não começou a revisar o material antes de 1714, e talvez não antes de 1729, teve de dar o melhor de si para solucionar suas contradições não irrelevantes. Descobrindo estarem datados de 1669 ambos os compromissos que tinha perante ele, recorreu à evasão que interpolou no depoimento do Abade.

É fácil perceber onde está o ponto fraco dessa reconstrução sob outros aspectos atraente. Já se fez referência à existência de dois compromissos, um em preto e outro em sangue, no depoimento do Abade. Portanto, tenho a escolher entre acusar o compilador de ter efetuado também uma alteração no depoimento, alteração intimamente relacionada à sua interpolação, ou confessar que sou incapaz de desemaranhar a trama.

O leitor há muito tempo terá julgado supérflua toda essa discussão e muito sem importância os pormenores a ela relacionados. Mas o assunto ganha novo interesse se for acompanhado em certa direção.

Acabei de expressar a opinião de que, ao ser desagradavelmente surpreendido pelo curso tomado por sua moléstia, o pintor inventou um compromisso anterior (o redigido a tinta), a fim de poder manter sua posição junto aos reverendos padres de Mariazell. Ora, estou escrevendo para leitores que, conquanto acreditem na psicanálise, não acreditam no Diabo, e eles podem objetar que foi absurdo em levantar tal acusação contra o pobre infeliz — hunc miserum, como é chamado na carta de apresentação —, pois, dirão, o compromisso a sangue foi um produto de sua fantasia tal qual o supostamente anterior, escrito a tinta. Na realidade, nenhum Demônio lhe apareceu absolutamente, e todo o assunto dos pactos com o Diabo só existiu em sua imaginação. Entendo perfeitamente isso: não se pode negar ao pobre homem o direito de suplementar sua fantasia original com uma nova, se circunstâncias alteradas parecem exigi-lo.

Contudo, também aqui o assunto prossegue. Afinal de contas, os dois compromissos não foram fantasias, como as visões do Demônio. Foram documentos, preservados, segundo as garantias do copista e o depoimento do posterior Abade Kilian, nos arquivos de Mariazell, para todos verem e tocarem. Estamos, portanto, num dilema. Ou presumimos que ambos os documentos, supostos ter sido devolvidos ao pintor mediante a graça divina, foram escritos por ele na ocasião em que deles necessitou, ou então, malgrado todas as garantias solenes, a prova confirmatória de testemunhas, assinada e selada, e assim por diante, seremos obrigados a negar a credibilidade dos reverendos padres de Mariazell e São Lamberto. Devo admitir que não estou disposto a lançar dúvidas sobre os padres. Fico inclinado a pensar, é verdade, que o compilador, no interesse da coerência, falsificou algumas coisas do depoimento feito pelo primeiro abade, mas uma ‘elaboração secundária’ como essa não vai muito além da que é efetuada mesmo por modernos historiadores leigos, e, em todo o caso, foi feita de boa-fé. Sob outro aspecto, os reverendos padres conquistaram justo direito à nossa confiança. Como já disse, nada havia para impedi-los de suprimir os relatos da parcialidade da cura e da continuação das tentações. E mesmo a descrição da cena de exorcismo na capela, que se poderia ter encarado com certa apreensão, é sobriamente redigida e inspira crédito. Assim, nada resta a fazer, a não ser lançar a culpa sobre o pintor. Fora de dúvida, ele tinha consigo o compromisso em vermelho quando se dirigiu à prece penitencial na capela, e produziu-o posteriormente, quando retornou até seus assistentes espirituais, de seu encontro com o Demônio. Nem precisa ser esse o mesmo documento mais preservado nos arquivos, e, de acordo com nossa construção, ele pode ter apresentado a data de 1668 (nove anos antes o exorcismo).

V - O CURSO ULTERIOR DA NEUROSE

Entretanto, isso procedendo, estaríamos lidando não com uma neurose, mas com uma fraude, e o pintor seria um simulador e falsificador, em vez de um homem doente sofrendo de uma possessão. Os estágios intermediários entre a neurose e a simulação contudo são muito fluidos, como sabemos. Tampouco vejo qualquer dificuldade em supor que o pintor escreveu esse documento e o posterior, e conduziu-os consigo em um estado peculiar semelhante àquele em que teve suas visões. Na verdade não havia outro curso aberto a ele, se desejasse pôr em execução sua fantasia do pacto com o Demônio e sua redenção.

Por outro lado, o diário escrito em Viena, que entregou aos clérigos em sua segunda visita a Mariazell, traz a marca da veracidade. Ele sem dúvida nos fornece uma compreensão interna (insight) da motivação — ou, digamos antes, da exploração — da neurose.

Os apontamentos se estendem da época do exorcismo bem-sucedido até 13  de janeiro do ano seguinte, 1678.

Até 11 de outubro ele se sentiu muito bem em Viena, onde morava com uma irmã casada; depois, porém, teve novas crises, com visões, convulsões, perda de consciência e sensações penosas, que finalmente acarretaram seu retorno a Mariazell, em maio de 1678.

A história de sua nova doença incide em três fases. Primeiramente, a tentação apareceu-lhe sob a forma de um cavaleiro finamente vestido, tentando persuadi-lo a jogar fora o documento que atestava sua admissão à Irmandade do Santo Rosário. Resistiu a essa tentação, após o que a mesma coisa sucedeu no dia seguinte, apenas desta vez a cena se dispondo em um salão magnificamente decorado onde imponentes senhores dançavam com formosas damas. O mesmo cavaleiro que antes o havia tentado fez-lhe uma proposta relacionada com pintar e prometeu dar-lhe bela soma de dinheiro em troca. Após ter feito desaparecer essa visão através da oração, ela se repetiu mais uma vez alguns dias mais tarde, de forma ainda mais pressionante. Desta vez, o cavaleiro enviou até ele uma das damas mais belas que estavam sentadas à mesa de banquete, para persuadi-lo a unir-se à sua companhia e ele teve dificuldade em defender-se da tentadora. Mais terrificante de todas, ademais, foi a visão que lhe ocorreu pouco após isso. Viu um salão ainda mais magnífico, onde havia um ‘trono feito de peças de ouro’. Cavaleiros por ali estavam de pé, aguardando a chegada de seu rei. A mesma pessoa que tão amiúde lhe fizera propostas aproximou-se então dele e o convocou a ascender ao trono, pois ‘desejavam tê-lo como rei, para honrá-lo para sempre’. Essa fantasia extravagante concluiu a primeira fase, perfeitamente transparente, da história de sua tentação.

Estava fadado a haver uma reviravolta nisso, e com efeito, iniciou-se uma reação ascética. Em 20 de outubro apareceu uma grande luz e dela saiu uma voz, identificando-se como Cristo, e ordenou-lhe renegar este mundo perverso e servir Deus no deserto durante seis anosO pintor claramente sofreu mais com essas aparições sagradas do que com as anteriores, demoníacas; somente duas horas e meia depois despertou dessa crise. Na seguinte, a figura santa cercada de luz mostrou-se muito mais inamistosa. Lançou ameaças contra ele por não haver obedecido o mandado divino e desceu com ele ao Inferno, a fim de que se aterrorizasse com a sorte dos malditos. Evidentemente, contudo, isso fracassou em seu efeito, pois as aparições da figura rodeada de luz, que passava por Cristo, repetiram-se diversas vezes mais. A cada vez o pintor experimentava uma absence e êxtase que duravam horas. No maior desses êxtases, a figura rodeada de luz levou-o primeiro a uma cidade em cujas ruas o povo perpetuava todos os atos sombrios; e, então, em contraste, conduziu-o a um prado encantador em que anacoretas levavam uma vida devota e recebiam provas tangíveis da graça e do cuidado de Deus. Lá apareceu, em vez de Cristo, a própria Santa Mãe que, lembrando-o do que já fizera por ele, invocou-o a obedecer às ordens de seu amado filho. ‘De vez que não podia verdadeiramente decidir-se a assim proceder’, Cristo apareceu-lhe novamente no dia seguinte e repreendeu-o vigorosamente com ameaças e promessas. Por fim, ele cedeu e resolveu abandonar o mundo e fazer o que era exigido dele. Com essa decisão, terminou a segunda fase. O pintor declara que, dessa época em diante, não teve mais visões ou tentações.

Não obstante, sua resolução não pode ter sido bastante firme ou deve ter retardado sua execução por tempo demais, pois, enquanto se achava em meio às suas devoções, em 26 de dezembro, em [a Catedral de] Santo Estevão, ao avistar uma robusta jovem acompanhada por um cavalheiro elegantemente trajado, não pôde afastar o pensamento de que ele próprio poderia estar no lugar do cavalheiro. Isso exigia castigo, que nessa mesma noite o acometeu como um raio. Viu a si mesmo em chamas brilhantes e esvaiu-se num desmaio. Fizeram-se tentativas de despertá-lo, mas ele rolou pelo quarto até o sangue fluir de sua boca e nariz. Sentia estar rodeado de calor e odores infectos, e escutou uma voz dizer que fora condenado a esse estado em punição por seus pensamentos vãos e ociosos. Posteriormente Espíritos Maus o açoitaram com cordas e foi-lhe dito que todos os dias seria assim atormentado, até que se decidisse a entrar para a Ordem dos Anacoretas. Essas experiências prosseguiram até a última anotação em seu diário (13 de janeiro).

Vemos como as fantasias de tentação de nosso desafortunado pintor foram sucedidas por outras ascéticas e, finalmente, por fantasias de punição. O final de seu relato de sofrimento já nos é conhecido. Em maio partiu para Mariazell, contou sua história de um compromisso anterior, escrito em tinta preta, ao qual explicitamente atribuiu seu tormento continuado pelo Demônio, recebeu de volta também esse compromisso e ficou curado.

Lá, durante sua segunda estada, pintou os quadros que estão copiados no Trophaeum. A seguir, deu um passo que se harmonizava com as exigências da fase ascética de seu diário. Na verdade, não foi para o deserto, para tornar-se anacoreta, mas ingressou na Ordem dos Irmãos Hospitalários: religiosus factus est.

Lendo o diário, conseguimos uma compreensão interna de outra parte da história. Será lembrado que o pintor assinou um compromisso com o Demônio porque, após a morte do pai e sentindo-se deprimido e incapaz de trabalhar, ficou preocupado sobre como ganhar a vida. Esses fatores da depressão, da inibição em seu trabalho e do luto pelo pai estão de algum modo vinculados uns com os outros, seja de maneira simples ou complicada. Talvez a razão por que as aparições do Demônio eram tão exageradamente generosas de seios fosse a pretensão de que o Diabo se tornasse seu pai de criação. Essa expectativa não foi preenchida e o pintor continuou a ver-se em mau estado. Não podia trabalhar corretamente, ou estava sem sorte e não podia encontrar empregos suficientes. A carta de apresentação do pároco da aldeia fala dele como ‘hunc miserum omni auxilio destitutum‘. Estava, assim, não só em dificuldades morais, mas padecendo também necessidades materiais.

No relato [em seu diário] de suas visões posteriores, encontramos aqui e ali observações a indicar — como o fazem os conteúdos das cenas descritas — que mesmo após o primeiro e bem-sucedido exorcismo nada se alterara em sua situação. Vimos a conhecê-lo como um homem que fracassa em tudo e em quem, portanto, ninguém confia. Em sua primeira visão, o cavaleiro perguntou-lhe ‘o que faria, visto não ter ninguém para valer-lhe’. A primeira série de visões em Viena harmonizava-se completamente com as fantasias repletas de desejo de um homem pobre, que decaíra no mundo e estava faminto de prazer: salões magnificentes, elevado passadio, baixelas de prata e belas mulheres. Aqui encontramos realizado o que estava faltando em suas relações com o Demônio. Nessa época ele estivera em melancolia, que o tornara incapaz de fruir qualquer coisa e o obrigara a rejeitar as ofertas mais atraentes. Após o exorcismo, a melancolia parece ter sido superada e todos os seus desejos mundanos mais uma vez ficaram ativos.

Em uma das visões ascéticas, queixou-se a seu guia (Cristo) de que ninguém tinha crença nele, sendo pois incapaz de executar as ordens a ele atribuídas. A resposta recebida infelizmente nos é obscura: ‘Ainda que eles não acreditem em mim, sei bem o que aconteceu, mas não posso declará-lo.’ Especialmente esclarecedoras, contudo, são as experiências por que seu guia celeste o fez passar [em 'visão] entre os anacoretas. Chegou a uma caverna onde um velho estivera sentado durante os últimos sessenta anos, e, em resposta a uma pergunta, soube que esse ancião fora alimentado, todos os dias, por anjos de Deus. E então viu, por si próprio, como um anjo trazia alimento ao velho: ‘Três pratos com comida, uma côdea de pão, um bolinho e um pouco de bebida.’ Após o eremita ter comido, o anjo reuniu tudo e levou-o consigo. Podemos ver qual a tentação que as piedosas visões ofereciam ao pintor: destinavam-se a induzi-lo a adotar um modo de existência em que não mais necessitaria preocupar-se com a subsistência. As palavras de Cristo na última visão são também de nota. Após ameaçar que, não se mostrando dócil, aconteceria algo que o obrigaria, e ao povo, a acreditar [nisso], Cristo deu-lhe um aviso de que ‘não devo prestar atenção ao povo; mesmo que me persigam ou não me dêem auxílio, Deus não me abandonaria.’

Christoph Haizmann tinha bastante de artista e de filho desde mundo, para achar difícil renunciar a este mundo pecaminoso. Não obstante, em vista de sua posição desamparada, ao final assim procedeu. Entrou para uma Ordem Sagrada. Com isso, tanto sua luta interior quanto sua necessidade material terminaram. Em sua neurose, esse desfecho refletiu-se no ato de suas crises e visões terem um fim com a devolução de um suposto primeiro compromisso. Na realidade, ambas as partes de sua doença demoníaca tinham o mesmo significado. Ele quisera, todo o tempo, simplesmente tornar segura sua vida. Primeiro tentara consegui-lo com ajuda do Demônio, ao custo de sua salvação, e quando isso fracassou e teve de ser abandonado, tentara alcançá-lo com o auxílio do clero, ao custo de sua liberdade e da maioria das possibilidades de prazer na vida. Talvez ele próprio fosse apenas um pobre-diabo simplesmente sem sorte; talvez fosse ineficiente ou pouco talentoso demais para ganhar a vida, e um daqueles tipos de pessoas que são conhecidas como ‘bebês eternos’ — incapazes de arrancar-se do estado beatífico no seio da mãe e que, por toda a vida, persistem na exigência de serem nutridos por alguém. Foi assim que, nessa história de sua enfermidade, ele seguiu o caminho que levou de seu pai, por intermédio do Demônio como substituto paterno, aos piedosos padres da Igreja.

A uma observação superficial, a neurose de Haizmann parece ser um embuste sobrejacente a uma parte da séria, ainda que comum, luta pela existência. Nem sempre é esse o caso, porém assim sucede não poucas vezes. Os analistas amiúde descobrem quão improdutivo é tratar um homem de negócios que, ‘embora sob outros aspectos em boa saúde, apresentou por algum tempo sinais de neurose’. A catástrofe nos negócios com que ele próprio se sente ameaçado, arremessa para cima a neurose, como um subproduto, e isso lhe concede a vantagem de poder ocultar suas preocupações sobre a vida real por trás de seus sintomas. Afora isso, porém, a neurose não serve a qualquer propósito útil, visto utilizar forças que teriam sido mais lucrativamente empregadas tratando-se racionalmente com a situação perigosa.

Em casos bem mais numerosos, a neurose é mais autônoma e independente dos interesses de autopreservação e autoconservação. No conflito criador da neurose, o que está em jogo são interesses unicamente libidinais ou interesses libidinais em vinculações íntimas com interesses autopreservativos. Em todos os três casos, a dinâmica da neurose é a mesma. Uma libido represada que não pode ser satisfeita, na realidade logra êxito, com o auxílio de uma regressão a fixações antigas, em encontrar descarga através do inconsciente reprimido. O ego do doente, na medida em que pode extrair um ‘lucro da doença’ a partir desse processo, aprova a neurose, embora não possa haver dúvida de sua nocividade em seu aspecto econômico.


Tampouco a desesperada situação de nosso pintor na vida teria provocado nele uma neurose demoníaca, se sua necessidade material não houvesse intensificado o anseio pelo pai. No entanto, após livrar-se de sua melancolia e do Demônio, ainda teve de enfrentar a luta entre sua fruição libidinal da vida e sua compreensão de que os interesses de autopreservação exigiam imperativamente renúncia e ascetismo. É interessante ver que o pintor estava bem ciente da unidade das duas partes de sua moléstia, pois atribuiu ambas aos compromissos firmados com o Demônio. Por outro lado, não efetuou uma distinção nítida entre as operações do Espírito Mau e as dos Poderes Divinos, e tinha apenas uma descrição para ambas: eram manifestações do Demônio.
 

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